<?xml version='1.0' encoding='UTF-8'?><?xml-stylesheet href="http://www.blogger.com/styles/atom.css" type="text/css"?><feed xmlns='http://www.w3.org/2005/Atom' xmlns:openSearch='http://a9.com/-/spec/opensearchrss/1.0/' xmlns:georss='http://www.georss.org/georss' xmlns:gd='http://schemas.google.com/g/2005' xmlns:thr='http://purl.org/syndication/thread/1.0'><id>tag:blogger.com,1999:blog-2756344929491019346</id><updated>2012-02-17T06:12:58.494+02:00</updated><category term='Portita'/><category term='Fogo'/><category term='Mar Negro'/><category term='Terramoto'/><category term='Jurilovca'/><category term='frOnteira óptica'/><category term='Gare de Nord'/><category term='Roberto de Deus Silvestre'/><category term='Bucareste'/><category term='Radu Cosasu'/><category term='segunda série de frOnteira Óptica'/><category term='Burro'/><category term='primeira série de frOnteira óptica'/><category term='Alzheimer'/><category term='Delta do Danúbio'/><category term='Cioran'/><category term='terceira série de frOnteira Óptica'/><category term='Retratos'/><title type='text'>frOnteira óptica</title><subtitle type='html'>o jornal doméstico de Roberto de Deus Silvestre</subtitle><link rel='http://schemas.google.com/g/2005#feed' type='application/atom+xml' href='http://reinucatalao.blogspot.com/feeds/posts/default'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/2756344929491019346/posts/default?max-results=100'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://reinucatalao.blogspot.com/'/><link rel='hub' href='http://pubsubhubbub.appspot.com/'/><author><name>Roberto de Deus Silvestre</name><uri>http://www.blogger.com/profile/09466075506706355107</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><generator version='7.00' uri='http://www.blogger.com'>Blogger</generator><openSearch:totalResults>93</openSearch:totalResults><openSearch:startIndex>1</openSearch:startIndex><openSearch:itemsPerPage>100</openSearch:itemsPerPage><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-2756344929491019346.post-882751111138523740</id><published>2011-04-02T16:02:00.000+03:00</published><updated>2011-04-02T16:03:04.677+03:00</updated><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='terceira série de frOnteira Óptica'/><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='Roberto de Deus Silvestre'/><title type='text'>retrato de família</title><content type='html'>Ao centro, na primeira fila, o meu irmão. A propósito dum comentário do meu tio Armando, sentado atrás dele ao lado do meu pai, solta uma gargalhada e vira-se para eles. Espero que se endireite, na esperança de apanhá-lo a sorrir, mas ele foge com o olhar e só apanho o queixo, em que sobressai o carnudo lábio inferior. Os músculos por baixo do nariz retraem-se e ganha uma expressão absorta. Provavelmente, ficou aflito com o atraso do sobrinho Dário , para o qual tinha reservado um lugar à sua esquerda.  A minha mãe dá um último jeito no penteado por cima das orelhas. Apercebe-se do lugar vazio ao lado do filho e suporta o peso do corpo nos pulsos para levantar-se. Cruzando os braços debaixo do peito, para ajeitar o casaco, a minha tia Alice toca-lhe com o cotovelo e ela perde o apoio no braço esquerdo, voltando a sentar-se no mesmo sítio do degrau. Julgando que foi o meu pai a empurrá-la, queixa-se de lhe querer desgraçar a inquestionável fotogenia, mas quando se prepara, numa segunda tentativa, para tomar o lugar junto do meu irmão, um vulto passa à frente da câmara, tropeça no tripé e desfaz o enquadramento. Tão rápido quanto possível, não vá perder uma pitada desta divertida reunião familiar, reponho o enquadramento. A minha prima Mila, vinda a correr sabe-se lá donde, enfia-se no único lugar disponível e aterra na perna esquerda da minha mãe. “Vejam só a maluca”, grita a minha mãe, “quase me esmagou a perna”. A audiência solta uma gargalhada. Acto contínuo, a minha tia Lourdes levanta-se do seu lugar ao canto da antepenúltima fila (é o único chapéu no retrato). “Vejam lá a grande desfeita”, diz para a multidão, exigindo que a filha venha sentar-se ao lado dela. A minha prima faz um tique nervoso, esfregando a nuca no ombro, vira o nariz arrebitado na direcção do meu pai, que se baixa para escutá-la, e explica-lhe não sei bem se o motivo de atraso, se a reacção exagerada da minha mãe. Esta, por sua vez, manda calar a irmã. A minha tia Lourdes não se fica, mas esquece-se de respirar entre uma metralhada de palavras e a voz falha. Enquanto repõe o ar nos pulmões, a audiência dá uma segunda gargalhada, esta quase síncrona, até parece que foi encenada, com a gargalhada de hiena galhofeira do meu primo Pedro, filho mais velho da minha tia Lourdes, a destacar-se. Já esquecida da discussão, a minha mãe fixa orgulhosamente a retratista num sorriso que é a ilustração impecável da felicidade que tomou conta do grupo. À direita do meu irmão, a cara tapada, mas não a sua bonita cabeleira (semelhante à copa frondosa duma árvore de finas lianas, tão entrelaçadas e fulvas como os seus trabalhos de croché, caso fossem tricotados com lã negra), Anabela inclina-se por trás dele à procura dos pais. O senhor Carlos, cabelo tão encarapinhado como o do meu tio João, desentende-se com ele, enquanto a dona Alice (segunda Alice do retrato) roça na aba do chapéu da minha tia Lourdes. Os seus olhos semi-abertos reforçam a altivez da linha do queixo, por cima do qual se insinua uma boca sensual e um nariz atrevido. O decote que lhe revela a foz do peito, recheado de optimismo, é um pormenor de abundância onde ecoa, passados tantos anos, o porte altivo das estrelas filmadas em tecnicolor.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/2756344929491019346-882751111138523740?l=reinucatalao.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://reinucatalao.blogspot.com/feeds/882751111138523740/comments/default' title='Enviar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://reinucatalao.blogspot.com/2011/04/retrato-de-familia.html#comment-form' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/2756344929491019346/posts/default/882751111138523740'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/2756344929491019346/posts/default/882751111138523740'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://reinucatalao.blogspot.com/2011/04/retrato-de-familia.html' title='retrato de família'/><author><name>Roberto de Deus Silvestre</name><uri>http://www.blogger.com/profile/09466075506706355107</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-2756344929491019346.post-7808657882378119199</id><published>2011-04-01T07:18:00.001+03:00</published><updated>2011-04-01T07:18:35.843+03:00</updated><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='terceira série de frOnteira Óptica'/><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='Roberto de Deus Silvestre'/><title type='text'>o quarto do filho</title><content type='html'>Das fotografias que fiz com o meu irmão, esta é a minha favorita. Por uma vez, não me limitei a fazer de operadora de câmara em mais uma das suas encenações. O Jaime alternava momentos extrovertidos, em que chamava a si toda a atenção, com longos períodos de retiro em que ninguém podia vê-lo. A minha mãe era a única lá em casa que sabia qual era o melhor momento para interromper essas fases depressivas a que só a Isabel, por ser gata, e o Zeca, o nosso cão, tinham acesso. Esta imagem foi captada pouco tempo depois de eu ter saído de casa e o Jaime ficar com o quarto só para ele. A minha mãe tinha como hábito entrar no quarto com a desculpa de abrir a janela para arejar ou arrumar alguma roupa lavada. Sentava-se a um canto e esperava um pouco antes de lhe contar uma novidade. Era o tempo que ele demorava a vir à superfície. Tirei a fotografia à entrada do quarto e por isso a minha mãe, que estava sentada ao pé da janela, está fora de campo, embora a sombra dela seja visível aqui na parede do lado direito. Não se nota bem por causa do jarro com gladíolos que está em primeiro plano, com estas flores mais descaídas a fazerem uma espécie de telhado sobre a cabeça do meu irmão. São umas flores horríveis, que ele adorava. Ao centro, por cima da cama, parcialmente tapado pela penumbra, fica o poster de Crazy Horse (um dos chefes índios que combateram na batalha que teve lugar nas margens do rio Little Bighorn, entre o exército americano e as tribos Sioux e Cheyenne). O meu irmão, desde criança, tinha o fascínio pelos índios, paixão que na adolescência passou a repartir com os travestis. À esquerda da silhueta de Crazy Horse, em retratos mais pequenos, estão também coladas à parede fotos de Ruth Bryden e Maria Bakker. O seu corpo jaz estendido sobre a cama, as mãos unidas sobre o peito (as mãos, em silhueta, dir-se-iam feitas em carvão). O Zeca está deitado por cima das pernas de Jaime e esta mancha acinzentada entre a pata dianteira e as orelhas dele, que eram enormes, é a Isabel aninhada no seu pescoço. Não deveria ter mais dum mês. O rosto do meu irmão exigiu-me horas de trabalho no photo-shop. A luz embatia-lhe na testa e quase apagou a definição dos traços das sobrancelhas, que são determinantes para entender o olhar que dirige à minha mãe, e que por estar de perfil não pode ser visto. Ter conseguido separar os tons rosa na área da boca é outra conquista do trabalho. Não chega a ser um sorriso, é quase um tique, entre a preguiça de quem passou o dia na cama e o esforço de concentração para escutar a minha mãe sem abandonar a sua linha de pensamentos. O elemento exterior à imagem, a minha mãe, define o clima de intimidade do retrato. Só ela podia penetrar aquele espaço exclusivo.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/2756344929491019346-7808657882378119199?l=reinucatalao.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://reinucatalao.blogspot.com/feeds/7808657882378119199/comments/default' title='Enviar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://reinucatalao.blogspot.com/2011/04/o-quarto-do-filho.html#comment-form' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/2756344929491019346/posts/default/7808657882378119199'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/2756344929491019346/posts/default/7808657882378119199'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://reinucatalao.blogspot.com/2011/04/o-quarto-do-filho.html' title='o quarto do filho'/><author><name>Roberto de Deus Silvestre</name><uri>http://www.blogger.com/profile/09466075506706355107</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-2756344929491019346.post-2039164006238977224</id><published>2011-03-31T02:16:00.000+03:00</published><updated>2011-03-31T02:17:08.704+03:00</updated><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='terceira série de frOnteira Óptica'/><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='Roberto de Deus Silvestre'/><title type='text'>imitação da primavera</title><content type='html'>Como pude esquecer este dia? Faltava ainda um mês para fazer dezassete anos e o meu pai perguntou-me o que queria de presente. Tinha acabado de acordar a meio dum sonho e quando me sentei na cozinha para tomar o pequeno almoço vinha a fazer um esforço de concentração para retê-lo. O Jaime fazia um buraco na praia, onde o meu pai se deitava, e depois dirigia-se para o mar. A nitidez da imagem era tão forte que tentei identificar a praia em que estávamos. Ao rebentarem, as ondas escavavam o areal, num plano superior à linha do mar. Ele entrou na água e deixei de vê-lo. Para não o perder de vista, aproximei-me da linha de rebentação e ele mergulhou, voltando a desaparecer. Julgando que estava a olhar através da janela da cozinha, o meu pai perguntou-me o que é que estava a ver e respondi-lhe que estava a observar uma vizinha a apanhar ameixas no quintal em frente. O meu pai aproximou-se da janela, incrédulo de haver ameixas naquela época do ano. Virou-se para mim e corrigiu-me. A vizinha estava a apanhar flores. Perguntei ao meu pai qual era a praia do sonho e ele disse-me que era Santo André, frente à lagoa, onde eu anos antes tinha encontrado uma bola Nívea de borracha. Ri-me dele se ter lembrado e conferi que a mulher estava de facto a apanhar as flores da ameixoeira. Ainda estava de férias e perguntei-lhe qual era o dia de Páscoa. Trouxe-me um dicionário de capa azul enorme e muito pesado, pousou-o à minha frente e respondeu-me: “no primeiro Domingo depois da lua cheia do Equinócio de Março”. Sei que estou a citar a frase com exactidão porque fiquei a reler a entrada sem conseguir entender. Não sabia o que era o equinócio. Ele foi buscar o outro volume do dicionário e abriu-o na letra e. “O equinócio é hoje”. Saímos à rua para observar a posição do sol e eu fiquei muito frustrada de não conseguir notar a diferença, desde que o sol estava a passar na linha do Equador. O meu pai levou-me à praia para ver melhor, mas quando chegámos ao Guincho o céu estava encoberto. No caminho de regresso parámos em São Pedro de Sintra e ele perguntou-me ainda dentro do carro: “Queres ser fotógrafa?” Não era a primeira vez que o meu pai me propunha uma actividade, só que desta vez ele trocara o verbo “fazer” por “ser”. Ele tocou à porta da sua amiga e fomos atendidos pelo filho dela, um rapaz mais baixo do que eu, com um rosto tão pequeno e um corpo tão esguio que à distância até parecia ser alto. De perto, lembrava uma gota de chuva a escorrer num pára-brisas. A mãe dele apareceu e abraçou-se o meu pai durante muito tempo. Mostrou-nos o estúdio de fotografia que tinha em casa, fez uma demonstração de como revelar uma fotografia e ensinou-me a regular a lente duma câmara manual. Quando peguei nela, disse-me: “Agora é tua”. Era uma Laika. Na altura não alcancei a importância daquela oferta. Ela tinha várias câmaras no estúdio e trabalhava com uma digital que estava ligada ao computador. Pergunto-me o que a terá levado a dar-me um presente tão valioso. Fiquei na sala a ver a sua colecção e acabei por fixar-me num álbum só com nus do filho. O seu rosto nunca olhava na direcção da câmara. Não parecia ser ele, o instante que a fotografia imobilizava retinha apenas torções do corpo, linhas que davam continuidade ao espaço que o rodeava. Quando o filho entrou na sala a perguntar pela mãe, com o rosto enrubescido, achei-o tão pequeno e frágil. Nas fotografias, a superfície do seu parecia alongar-se nas gamas de cinzentos, como a vista aérea duma paisagem. À minha frente parecia ainda mais esguio. Os ombros eram estreitos e o gorro do blusão criava o efeito duma marreca nas costas. Não encontrámos nem o meu pai nem a mãe dele e quando saímos tomámos direcção da serra. Eu levava a Laika a tira-colo (era demasiado pesada para ir pendurada ao pescoço) com o Duarte a meu lado de mãos nos bolsos. Sempre que eu parava para lhe tirar uma fotografia ele acelerava. Quando finalmente conseguia focá-lo, desaparecia por trás da vegetação. Já irritada com a sua falta de colaboração, numa altura em que ficou distraído a olhar para dentro duma cisterna e lhe pedi para ficar quieto, ele saltou lá para dentro. Aproximei-me do buraco, por onde ele tinha desaparecido, ajoelhei-me e só vi um quadrado negro à entrada. Debrucei-me. O Duarte ressurgiu a um palmo de distância dos meus olhos. O rosto dele na escuridão é emoldurado pelo capuz. As bochechas muito vermelhas e os olhos escuros tão grandes, com uma expressão de receio, de provocação, emoções confusas que ele tentou disfarçar.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/2756344929491019346-2039164006238977224?l=reinucatalao.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://reinucatalao.blogspot.com/feeds/2039164006238977224/comments/default' title='Enviar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://reinucatalao.blogspot.com/2011/03/imitacao-da-primavera.html#comment-form' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/2756344929491019346/posts/default/2039164006238977224'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/2756344929491019346/posts/default/2039164006238977224'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://reinucatalao.blogspot.com/2011/03/imitacao-da-primavera.html' title='imitação da primavera'/><author><name>Roberto de Deus Silvestre</name><uri>http://www.blogger.com/profile/09466075506706355107</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-2756344929491019346.post-2621577155548797013</id><published>2011-03-30T17:13:00.000+03:00</published><updated>2011-03-30T17:14:17.594+03:00</updated><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='terceira série de frOnteira Óptica'/><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='Roberto de Deus Silvestre'/><title type='text'>conde redondo</title><content type='html'>Esta imagem faz-me rir. O meu irmão tinha acabado de gravar um disco, “Roque ios Traidores”, e ficou muito entusiasmado quando viu um trabalho que eu tinha feito recentemente no Rio de Janeiro, com as prostitutas de rua, nomeadamente uma série dedicada aos travestis. Só que esse trabalho era uma encomenda de uma revista e eu tinha cedido os direitos em exclusivo. Então ficou combinado que eu tentaria fazer algo parecido na Conde Redondo, em Lisboa, onde habitualmente os travestis param à espera de clientes. Havia o inconveniente de só poder trabalhar durante a noite, que é a altura em que elas aparecem e o Jaime queria algo mais luminoso, mais diurno. Mas nem isso aconteceu porque elas fugiam de mim e só aceitavam ser fotografadas na condição de não se lhes ver a cara.  Era tudo o que o meu irmão não queria e eu própria só gosto de trabalhar com pessoas que assumem a sua identidade. Surgiu então a ideia do meu irmão ser o modelo. Levou um vestido muito bonito de Verão (que na imagem mal se nota), apesar de estar um frio de rachar, com o vento que fazia. O pior foram os sapatos. Como a Rua Conde Redondo tem uma inclinação muito acentuada e andava com uns saltos enormes, ao fim de uma hora doíam-lhe os rins. Foi então que se sentou à beira do passeio (ou no meio fio, como lhe chamavam as prostitutas brasileiras), e puxou de um cigarro. Ele está a olhar na direcção de cima porque um taxista tinha acabado de arrancar depois de meter conversa com ele. Perguntei-lhe se queria fazer negócio, mas ele disse-me que não. Estava-se a queixar pelo facto de ter as pernas estendidas na estrada e teve de se desviar. É por isso que o Jaime tem as pernas abertas (“Pareço uma tenda”, disse, quando viu a revelação). Recolheu as pernas, mas meteu os saltos para dentro e os joelhos ficaram virados para fora. Com o vento que fazia, estava já todo despenteado. Só na maquilhagem é que ficou impecável. Ao contrário da intenção inicial, de ter muita gente no passeio por trás dela (isto é, del), não se vê mais ninguém na rua. A capa ficou diferente do original. Ele optou por fazer um pormenor do rosto, enquadrado pelo peito. Ninguém percebeu que era ele na capa.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/2756344929491019346-2621577155548797013?l=reinucatalao.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://reinucatalao.blogspot.com/feeds/2621577155548797013/comments/default' title='Enviar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://reinucatalao.blogspot.com/2011/03/conde-redondo.html#comment-form' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/2756344929491019346/posts/default/2621577155548797013'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/2756344929491019346/posts/default/2621577155548797013'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://reinucatalao.blogspot.com/2011/03/conde-redondo.html' title='conde redondo'/><author><name>Roberto de Deus Silvestre</name><uri>http://www.blogger.com/profile/09466075506706355107</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-2756344929491019346.post-5132888975226991665</id><published>2011-03-29T00:55:00.001+03:00</published><updated>2011-03-29T00:56:22.861+03:00</updated><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='terceira série de frOnteira Óptica'/><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='Roberto de Deus Silvestre'/><title type='text'>rua dos remédios</title><content type='html'>Foi a primeira vez que vendi um trabalho para uma campanha de publicidade, de promoção às festas populares no bairro da Alfama. É uma montagem, não uma encenação. Fiz o enquadramento e com o ponto de vista fixo tirei tantas imagens quanto as que achei necessárias. Foram três semanas de trabalho. Todas as noites, depois do sol se pôr até de madrugada, colocava a câmara no mesmo local. Mesmo com alterações climáticas, céu nublado, noites de lua cheia, a luz nocturna é mais ou menos estável. E é sempre a mesma entrada para a rua dos Remédios. O ponto de vista da câmara é o de quem está sentado num banco à entrada de um bar, numa rua que sobe da estação de Sta. Apolónia em direcção a Alfama. Isso permitiu-me fotografar a rua dos Remédios em contra-picado. De ambos os lados da rua as casas encontram-se em níveis e volumes distintos. Mesmo os telhados têm este efeito de escadaria, que continua ainda nas janelas das águas furtadas. Reparem aqui ao fundo, do lado direito: o telhado vai subindo, primeira janela, segunda e, mais acima, terceira. E em cada janela, em cada porta, há uma pessoa. Não convidei ninguém a posar à janela, embora aceite que em alguns casos as pessoas não estivessem alheias à minha presença. Num plano mais aproximado, temos este grupo de jovens na varanda, logo no início da rua, e sentados nos bancos mais atrás dois velhotes a discutir. Este homem que está aos berros fora do carro discute com o intercomunicador do sistema de segurança, que não o deixa passar. Estão a reparar neste homem encostado à porta da pastelaria, apoiando-se numas muletas enquanto fuma um cigarro? É o mesmo que caminha mais ao fundo na rua, muito curvado. Tem as muletas ajustadas para caminhar como se fosse marreco. Estas manchas transparentes na superfície da imagem, com aspecto de bolhas de sabão, é espuma de cerveja. Um cliente do bar escorregou e a cerveja que tinha na mão voou, com ele (fora do enquadramento) a ir de encontro a uma caixa de electricidade e a estatelar-se no chão. Esta rapariga com uma expressão abismada e que estica os braços no vazio foi fotografada em outro dia, pelo que não assistiu ao acidente, nem tenta ajudar o rapaz invisível que cai. Ela própria tropeçou num marco, na extremidade do passeio. Não chegou a cair porque foi amparada por alguém (também fora de campo) que levou com o vodka dela em cima.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/2756344929491019346-5132888975226991665?l=reinucatalao.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://reinucatalao.blogspot.com/feeds/5132888975226991665/comments/default' title='Enviar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://reinucatalao.blogspot.com/2011/03/rua-dos-remedios.html#comment-form' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/2756344929491019346/posts/default/5132888975226991665'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/2756344929491019346/posts/default/5132888975226991665'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://reinucatalao.blogspot.com/2011/03/rua-dos-remedios.html' title='rua dos remédios'/><author><name>Roberto de Deus Silvestre</name><uri>http://www.blogger.com/profile/09466075506706355107</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-2756344929491019346.post-4322579493997690142</id><published>2011-03-25T15:21:00.001+02:00</published><updated>2011-03-25T15:21:51.698+02:00</updated><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='terceira série de frOnteira Óptica'/><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='Roberto de Deus Silvestre'/><title type='text'>três feridos e uma ambulância</title><content type='html'>Seguia pela estrada nacional em direcção ao Porto. Já na freguesia da Valga passei por uma camponesa que trazia pela trela um boi. Ao olhar pelo retrovisor, apercebi-me que o boi ficou excitado pela passagem do carro e começou a andar mais depressa que a dona, que se viu aflita para conseguir acalmá-lo. Estacionei o carro mais à frente e fiquei à espera dos dois. A estrada ali era em forma de u, no interior do qual uma vegetação compacta impedia a visão de quem viesse dos dois sentidos, mas como o terreno era a descer escutava distintamente o som do boi a correr de cada vez que passava um carro por ele, com a mulher a gritar-lhe e a tentar pará-lo. À saída da curva avistei a dona a aparecer por trás da vegetação em passo estugado, mas a corda esticou-se. O boi (ainda invisível) parou outra vez. A dona voltou para trás e desapareceu na vegetação. Na curva do lado oposto escutei o som do motor de uma motorizada e por trás do arvoredo surgiu um homem demasiado pesado, de capacete em forma de meia bola, com umas orelheiras atadas debaixo do queixo por uma fivela que se enterrava na papada. O motoretista olhou para mim, acelerou, o tubo de escape soltou um peido de gasolina queimada, a motorizada descaiu na roda de trás com o solavanco e, conforme desapareceu por trás da vegetação, deu lugar ao boi, com a dona a correr atrás, a puxar-lhe a corda e a ter de voltar a dar-lhe folga, não fosse cair ao chão. O boi acabou por se acalmar e a dona retomou o caminho, puxando a corda com o boi atrás. Para minha frustração, acertaram o passo e fizeram o percurso até chegarem perto de mim. Foi então que voltei a escutar, muito ao fundo (e sem perceber de que lado), o som esforçado de um motor de camioneta. A mulher interrompeu a marcha, antevendo nova excitação do boi. A camioneta por fim saiu da curva, e logo colada atrás uma outra motorizada. Do outro lado da estrada aproximava-se também uma carrinha. Quando ambas se cruzaram à minha frente disparei, ao som de um crash que quase me furou os tímpanos. Ignorando a carrinha na direcção oposta, o motoretista saiu da frente da camioneta a acelerar e julgo que a imagem ficou imobilizada logo a seguir ao choque, uma vez que apenas se vêem, mesmo à frente do condutor da carrinha, os braços esticados do motoretista e, entre eles, a meia bola preta da sua cabeça. A motorizada não se vê porque o boi está a tapá-la. Aliás, estas pernas no ar, com um dos pés descalços, mesmo por cima dos cornos, pertencem à dona e se repararem na posição esticada da corda poderão daí inferir que ela, mesmo com a pega de costas, nunca largou a rédea do boi. O mesmo não se pode dizer do desprevenido motoretista que sobrevoou a carrinha, por sinal uma ambulância.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/2756344929491019346-4322579493997690142?l=reinucatalao.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://reinucatalao.blogspot.com/feeds/4322579493997690142/comments/default' title='Enviar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://reinucatalao.blogspot.com/2011/03/tres-feridos-e-uma-ambulancia.html#comment-form' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/2756344929491019346/posts/default/4322579493997690142'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/2756344929491019346/posts/default/4322579493997690142'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://reinucatalao.blogspot.com/2011/03/tres-feridos-e-uma-ambulancia.html' title='três feridos e uma ambulância'/><author><name>Roberto de Deus Silvestre</name><uri>http://www.blogger.com/profile/09466075506706355107</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-2756344929491019346.post-7987183642627947545</id><published>2011-03-24T06:09:00.000+02:00</published><updated>2011-03-24T06:10:03.673+02:00</updated><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='terceira série de frOnteira Óptica'/><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='Roberto de Deus Silvestre'/><title type='text'>a travagem</title><content type='html'>Esta fotografia foi tirada numa sexta-feira, à saída duma fábrica de tecelagem. Ao contrário dos escritório, em que as pessoas se vestem e perfumam como se fossem sair para um encontro social, nas fábricas as pessoas andam fardadas ou com roupas práticas, transpiram, sujam-se, mas com o fim do horário de expediente despem as fardas do trabalho, tomam banho, vestem roupa fresca, maquilham-se e saem frescas para a rua, prontas para outra vida. As fábricas são também sítios de acesso reservado, existem gradeamentos, seguranças, é um ambiente que tem o seu quê de concentracionário (a concentração, de resto, torna-se essencial em resultado de tarefas muito técnicas e repetitivas, envolvendo máquinas que podem causar acidentes graves em caso de distracção). A própria disciplina de trabalho impede as pessoas de fazerem pausas de acordo com o seu estado de cansaço, obrigando-as a respeitar horários comuns para dar início ao trabalho, fazer uma pausa para refeições (que normalmente acontecem no interior da fábrica), etc. Tudo é muito racional, ou assim parece. Muitas vezes, nem serve os interesses colectivos, mas apenas os da produção. Reverte a favor da fábrica em si, ou daqueles que conceberam o seu modo de produção. Talvez por isso, os momentos que me pareceram mais fotogénicos acontecem à saída (não pude evitar lembrar-me da frase que os alemães, durante a segunda guerra mundial, usavam à entrada de um campo de concentração: arbeit macht frei, “o trabalho liberta”). Abandonar uma fábrica, mesmo por um fim de semana, pareceu-me equivaler a um sentimento de libertação superior a qualquer estado de cansaço. Alinhava-se um carreiro de mulheres dirigindo-se ao portão, seguiam pela berma da estrada até à paragem de autocarros... uma das empregadas mais jovens, muito espevitada, atravessou a estrada no momento em que vinha a passar um carro “de patrão”... das rodas do carro sai esta pequena nuvem de fumo por causa da travagem brusca. À beira da estrada, há quem se ria da temeridade da jovem colega, que arriscou um atropelamento. Nos rostos das outras colegas pode identificar-se alívio (o risco já passou), pavor (o atropelamento é inevitável), surpresa (como é que conseguiu travar?), incredulidade (para que fez ela isto?), condescendência (esta juventude...), desprezo (estes reis da m...) e até heroísmo (a mulher em passo de corrida e com os braços esticados para a frente, num movimento que embora inútil denuncia a tentativa de arrancar a colega da frente do carro). Pena é que muitas destas expressões apenas sejam visíveis numa ampliação ou com a ajuda duma lupa.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/2756344929491019346-7987183642627947545?l=reinucatalao.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://reinucatalao.blogspot.com/feeds/7987183642627947545/comments/default' title='Enviar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://reinucatalao.blogspot.com/2011/03/travagem.html#comment-form' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/2756344929491019346/posts/default/7987183642627947545'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/2756344929491019346/posts/default/7987183642627947545'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://reinucatalao.blogspot.com/2011/03/travagem.html' title='a travagem'/><author><name>Roberto de Deus Silvestre</name><uri>http://www.blogger.com/profile/09466075506706355107</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-2756344929491019346.post-3519716208969589600</id><published>2011-03-23T20:14:00.002+02:00</published><updated>2011-03-23T20:15:40.856+02:00</updated><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='terceira série de frOnteira Óptica'/><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='Roberto de Deus Silvestre'/><title type='text'>o casal</title><content type='html'>Esta fotografia foi tirada era eu estagiária num jornal e resulta de uma encomenda de trabalho sobre alguns bairros ilegais nos subúrbios de Lisboa, numa altura em que já tinha sido anunciada a sua destruição e as primeiras pessoas começavam a ser reinstaladas. Lembro-me claramente que foi num sábado, no início do Verão ou no fim da Primavera, porque de manhã tinha ido ao casamento de uma amiga na Cova da Piedade. Assim que ela entrou na igreja, de braço dado com o pai, o noivo começou a chorar. Quando lhe deu a mão em frente ao altar tinha o rosto banhado em lágrimas. À tarde, de volta ao trabalho, não conseguia libertar-me dessa imagem e lamentei não ter podido assistir ao resto da boda, para poder observar o noivo durante a sessão de fotografias com os convidados e ficar a conhecê-lo um pouco melhor. Quando cheguei à Pedreira dos Húngaros fiquei à entrada do bairro, de frente para um alinhamento de barracas que pareciam estar de costas para o exterior. Comecei a escutar gritos que vinham de dentro de uma dessa barracas, depois os gritos saíram para a rua e por fim apareceu nas traseiras um jovem, que era perseguido por uma rapariga. “Porque é que me bates?”, gritava-lhe ela e ele só lhe respondia “deixa-me, larga-me”. Ela atrás dele, procurando agarrá-lo, e ele a tentar libertar-se. Sempre que ela se punha à frente, ele virava-se para o lado oposto e tentava fugir. Ela a agarrá-lo, a tentar pôr-se à frente e ele virando-lhe as costas, dando safanões para se libertar. “Eu gosto tanto de ti e tu só me bates”, insistia ela aos berros. “Deixa-me, deixa-me”, respondia ele. Por fim empurrou-a e ela caiu para trás. Ele aproximou-se e ela segurou-o pelas pernas. Ele voltou a libertar-se com um safanão e quando ela se levantou ele voltou a virar-lhe as costas. Ela chorava, pedia para não lhe bater e agarrou-lhe na fralda da camisa. Foi nesse momento que disparei. Com o impulso do movimento em frente do corpo dele e o puxão dela, a camisa fica esticada, deixando-lhe as costas à mostra. Apesar do desespero contido no gesto dela, tem qualquer coisa de familiar com as damas de honor que seguram a cauda do vestido de noiva, para não arrastar pelo chão. Outra curiosidade é os braços dele, erguidos ao alto, como se estivesse a render-se a alguém que está à sua frente, fora do enquadramento. O cão que está deitado atrás do casal, com o focinho a apontar na direcção do canto superior direito da imagem, serve de contraponto. As suas orelhas enormes esvoaçam ao vento. Quanto às manchas por cima da fotografia, julgo serem dentes-de-leão. Estava sentada num plano inferior e as ervas desfocadas à frente da câmara criaram este efeito muito bonito de véu.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/2756344929491019346-3519716208969589600?l=reinucatalao.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://reinucatalao.blogspot.com/feeds/3519716208969589600/comments/default' title='Enviar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://reinucatalao.blogspot.com/2011/03/o-casal.html#comment-form' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/2756344929491019346/posts/default/3519716208969589600'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/2756344929491019346/posts/default/3519716208969589600'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://reinucatalao.blogspot.com/2011/03/o-casal.html' title='o casal'/><author><name>Roberto de Deus Silvestre</name><uri>http://www.blogger.com/profile/09466075506706355107</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-2756344929491019346.post-2282703403654098133</id><published>2011-03-23T04:12:00.000+02:00</published><updated>2011-03-23T04:13:07.299+02:00</updated><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='terceira série de frOnteira Óptica'/><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='Roberto de Deus Silvestre'/><title type='text'>o despiste</title><content type='html'>Esta fotografia aconteceu por acaso, mas cheguei a iniciar um trabalho sobre corridas de automóveis na rua. Durante dois anos desenhei um roteiro de percursos usados para este tipo de competições, mas os resultados não foram bons e mudei de estratégia. Tentei aproximar-me dos adeptos do tuning, que mais tarde ou mais cedo se envolvem em corridas, não as corridas ilegais organizadas secretamente, mas corridas extemporâneas, que resultam de encontros casuais na estrada. Passei a frequentar a oficina de um mecânico que aparelhava este tipo de carros e conheci pessoalmente alguns tuners. Quando um carro de tuning passa por outro dá-se um namoro, testam-se mutuamente e acaba por acontecer uma corrida que tem menos a ver com encontrar um vencedor do que em envolverem-se numa série de provocações. Para os adeptos do tuning (pelo menos aqueles que acompanhei) não interessa a vitória desportiva, eles gostam é de exibir truques de condução, que importunam o adversário e o levam a cometer erros. Fiz o trabalho durante um período em que este tipo de veículos era alvo de grande perseguição por parte das autoridades. Punha-se a questão do anonimato e também não me interessou participar no fenómeno, que começava a ter as suas lendas. Os resultados eram bastante espectaculares, mas não mais do que aqueles que são oferecidos por qualquer jogo de consola. A caução de reportagem alimentava uma aura de realismo e achei melhor não me envolver. Anos depois andava pelas Azenhas do Mar, entregue a outro assunto. Tinha-se dado um aluimento de terras, o que provocou a derrocada de duas casas, havendo mais algumas em perigo. Fiz várias fotografias entre a Aguda e a Praia das Maçãs e sabia que muitas falésias estavam a alterar-se quase de ano para ano, redesenhando constantemente o recorte daquela zona costeira. Nessa noite, numa estrada em cotovelo à entrada das Azenhas, o embate das ondas tinha lascado a falésia, abrindo uma fresta junto ao raile de protecção. Estava ali a tirar fotografias quando se sobrepôs ao barulho das ondas um ruído de motores. O carro que vinha a tentar ultrapassar por fora meteu para dentro para evitar a fissura na curva da estrada, o que provocou o choque e a queda dos carros no mar. Na fotografia, o interior dos carros está iluminado porque os condutores accionaram a luz de piloto ao abrirem as portas para tentarem saltar. É por isso que no meio desta escuridão se conseguem ver as silhuetas dos corpos.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/2756344929491019346-2282703403654098133?l=reinucatalao.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://reinucatalao.blogspot.com/feeds/2282703403654098133/comments/default' title='Enviar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://reinucatalao.blogspot.com/2011/03/o-despiste.html#comment-form' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/2756344929491019346/posts/default/2282703403654098133'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/2756344929491019346/posts/default/2282703403654098133'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://reinucatalao.blogspot.com/2011/03/o-despiste.html' title='o despiste'/><author><name>Roberto de Deus Silvestre</name><uri>http://www.blogger.com/profile/09466075506706355107</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-2756344929491019346.post-8075051079652447400</id><published>2011-03-11T02:08:00.000+02:00</published><updated>2011-03-11T02:09:03.803+02:00</updated><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='terceira série de frOnteira Óptica'/><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='Roberto de Deus Silvestre'/><title type='text'>as sebenteiras</title><content type='html'>Após uma carreira discreta a dar aulas no ensino secundário, o prof. Esteves Dias tomou de assalto o meio académico, assombrado com a inovação do seu trabalho. Durante 20 anos não conseguiu fixar-se numa só escola e assim foi conhecendo os diversos problemas e realidades do ensino no país. Os dois livros que publicou ao mesmo tempo tinham dois temas distintos, mas juntos arrasavam com o sistema de educação em vigência. O primeiro chamava-se “Expressão de Contentamento”, e destinava-se aos alunos, enquanto o segundo, “Fronteiras perceptivas”, era um método pedagógico destinado aos docentes. Conheci-o pessoalmente durante o primeiro ano em que ele leccionou uma cadeira criada para ele num departamento de história da Universidade de Évora, que se chamava “Imagética da intimidade na aprendizagem”. Para veicular um saber, ele propunha que o docente tinha primeiro de ajudar os alunos a organizarem a sua experiência íntima, através da construção permanente de uma autobiografia. As diversas disciplinas que lhes eram leccionadas passavam a ser contingentes, o aluno refazia e corrigia a sua autobiografia de acordo com a interpretação das matérias, segundo modelos importados da tradução de línguas. A questão da linguagem passava a ser determinante: uma palavra, ou um conceito, era aceite como um facto, e depois traduzido pelo próprio aluno, que recorria a um processo de associações relativas à sua experiência pessoal. O aluno agregava novas informações que vinham fortalecer a sua individualidade, e não pô-la em causa. Daí a importância das percepções: o aluno não era confrontado com o erro em si, mas com o ângulo desajustado que impedia a compatibilização da sua intimidade com o conhecimento universal. Esteves Dias explicou-me que o seu trabalho inspirou-se na irritação que tinha com as sebenteiras, que nunca percebiam nada mas tiravam apontamentos de tudo. “Boicotavam o diálogo e com ele a atenção crítica dos restantes alunos”. Fotografei-o numa sala de aula vazia, enquanto contava como é que acabou com as sebenteiras nas aulas. “Sempre que lhes escapava uma frase, em vez de me pedirem para explicar, pediam para repetir, como se eu fosse uma gravação que elas tinham de transcrever. Houve um dia em que expulsei todos os alunos que apanhei a tomar notas. O conhecimento ou se guarda na cabeça ou resume-se ao tráfico de papel.” A eloquência do braço estendido na direcção da porta, a fúria com que ataca a câmara (comigo sentada na carteira) e os perdigotos que lhe saltam da boca mostra o quanto as sebenteiras ainda se encontram bem vivas na sua memória.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/2756344929491019346-8075051079652447400?l=reinucatalao.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://reinucatalao.blogspot.com/feeds/8075051079652447400/comments/default' title='Enviar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://reinucatalao.blogspot.com/2011/03/as-sebenteiras.html#comment-form' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/2756344929491019346/posts/default/8075051079652447400'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/2756344929491019346/posts/default/8075051079652447400'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://reinucatalao.blogspot.com/2011/03/as-sebenteiras.html' title='as sebenteiras'/><author><name>Roberto de Deus Silvestre</name><uri>http://www.blogger.com/profile/09466075506706355107</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-2756344929491019346.post-3506137979616399322</id><published>2011-03-09T17:27:00.001+02:00</published><updated>2011-03-09T17:27:34.358+02:00</updated><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='terceira série de frOnteira Óptica'/><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='Roberto de Deus Silvestre'/><title type='text'>os trinta e nove escalpes e a próxima vítima</title><content type='html'>É apenas uma placa azul com os números em branco. Embora já tenha havido quem nela visse o reflexo de um rosto, através da superfície esmaltada, a verdade é que a única coisa visível para além da placa resulta de um erro de enquadramento. Trata-se dum chinó preso por um prego sobre a porta do nº40 na Rue des Pierres Noires. Ainda hoje me pergunto como é que não reparei num pormenor tão óbvio. Andava tão perturbada com o horror da história que queria fazer uma imagem desprovida de iconografia tanto quanto possível. A história do assassino em série que escalpelizava as suas vítimas, à semelhança dalguns guerreiros índios, prolongava-se há quatro anos e entre os belgas abundavam análises e teorias que procuravam encontrar um padrão de comportamento no assassino. Curiosamente. embora nenhuma das vítimas fosse estrangeira, o sentimento de horror estava mais presente entre os habitantes das comunidades imigrantes. Joris de Belder, um jovem botânico que encontrei num café a estudar um problema de xadrez, que também fazia a sua investigação privada sobre o caso, explicou-me que depois de conferir toda a informação disponível tinha chegado a uma conclusão simples: a quadragésima vítima haveria de ser encontrada no nº40 de uma casa com um só inquilino. A sua tesa fazia sentido: a primeira vítima fora encontrada no nº1, a segunda num nº2 e por aí em diante. Mas como evitar um crime que poderia acontecer em milhares de portas nº40? Joris, ainda não encontrara a solução. Comecei imediatamente a fotografar, com a ajuda de um mapa de Bruxelas, todas as portas nº 40. Três semanas depois de ter iniciado o trabalho (o mais rotineiro e frustrante de toda a minha carreira) fui avisada que a última vítima tinha sido encontrada. Quando cheguei ao local já havia um batalhão de fotógrafos, operadores de câmara e repórteres à entrada da rua, que entretanto fora selada. Voltei para o aparthotel, encontrei a imagem correspondente à porta nº40 na Rue des Pierres Noires e, sem ter confirmado que a tese de Joris de Belder estava correcta, enviei-a para a agência. No mesmo dia voltei a Portugal. Só quando abri o jornal no dia seguinte é que descobri que a quadragésima vítima se chamava Wauter de Belder. Seria o pai de Joris, alguém da família? Em casa de Wauter de Belder foram descobertas várias provas de que tinha sido ele o autor dos 39 crimes. A mais tenebrosa de todas era uma manta, feita com os escalpes das vítimas, a cobrir o seu corpo. O chinó, que usava para tapar a calva, tinha sido pendurado à porta de casa pelo assassino (Walter de Belder já se encontrava morto quando tirei a fotografia). Restava uma dúvida: aceitando que o autor do quadragésimo crime sabia que estava a matar o responsável pelos restantes 39, estaria ele também a par da tese de Joris?&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/2756344929491019346-3506137979616399322?l=reinucatalao.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://reinucatalao.blogspot.com/feeds/3506137979616399322/comments/default' title='Enviar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://reinucatalao.blogspot.com/2011/03/os-trinta-e-nove-escalpes-e-proxima.html#comment-form' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/2756344929491019346/posts/default/3506137979616399322'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/2756344929491019346/posts/default/3506137979616399322'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://reinucatalao.blogspot.com/2011/03/os-trinta-e-nove-escalpes-e-proxima.html' title='os trinta e nove escalpes e a próxima vítima'/><author><name>Roberto de Deus Silvestre</name><uri>http://www.blogger.com/profile/09466075506706355107</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-2756344929491019346.post-8657051546499123082</id><published>2011-03-08T17:08:00.002+02:00</published><updated>2011-03-08T17:08:43.445+02:00</updated><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='terceira série de frOnteira Óptica'/><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='Roberto de Deus Silvestre'/><title type='text'>a bofetada</title><content type='html'>Estava longe de saber de quem o Francisco era irmão, quando o conheci no voo Paris-Londres, em que ficámos sentados lado a lado. Tinha passado os últimos três meses a trabalhar na vinha, numa propriedade suíça, e depois de visitar um tio em França (não cheguei a perceber em que cidade) ia encontrar-se com dois irmãos, que estavam a trabalhar na Escócia e vinham também a Londres para gozarem juntos duas semanas de férias, na casa de amigos. Nascido em Nova Lisboa (depois Huambo), aos dois anos o Francisco foi com os pais para a ilha de Santiago, em Cabo Verde, onde veio a nascer António. Com o 25 de Abril mudaram-se para Portugal, onde nasceram os dois irmãos mais novos: a rapariga no Algarve e o irmão mais novo em Calem (onde o meu pai, durante a primária, foi colega de carteira do António). Durante a viagem o Francisco disse-me que estava muito ansioso. Vários colegas tinham-no aconselhado a não ir para Inglaterra e para além do reencontro com os irmãos e os amigos, ia conhecer a sobrinha, que já tinha nascido em Edimburgo. Depois de recolher a bagagem, o Francisco despediu-se apressadamente de mim (fiquei para trás à espera da minha mala), para ir ter com a família que esperava por ele. Reencontrei-o minutos depois ladeado por dois guardas de fronteira. Enquanto o guarda conferia a fotografia dele no passaporte, o Francisco mostrava-lhe os documento de trabalho na Suíça, procurando convencê-lo de que estava apenas de visita à Inglaterra. Entretanto, um dos passageiros aproximou-se da saída e a porta automática abriu-se, dando a ouvir a gritaria que se passava do outro lado: os amigos de Francisco discutiam com a polícia por trás da parede de vidro (foi nesse momento que peguei na câmara). O guarda de fronteira agarrou no saco de Francisco e acto contínuo os seus haveres caíram no chão (foi nesse momento que disparei). Em primeiro plano, de perfil, ao centro da imagem, o duo guarda-Francisco, a mão deste escondida por trás do rosto do primeiro, que tem os cabelos em pé, não pelo susto de ter apanhado uma bofetada, mas porque o chapéu lhe saltou da cabeça. Em segundo plano, de frente para a imagem, o seu colega reage de uma forma desconcertante. Descaído para a direita, tem o braço direito esticado. Pela direcção que o seu rosto toma, a sua atenção parece concentrar-se no chapéu, e dir-se-ia que se prepara para dar um salto e apanhá-lo no ar. Em terceiro plano, do lado direito, um passageiro de costas no umbral da porta de saída. Ao fundo, à esquerda, os amigos de Francisco rodeados por um cordão de polícias. Reparem na criança de colo, abraçada ao pescoço da mãe, com o rosto escondido no seu ombro.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/2756344929491019346-8657051546499123082?l=reinucatalao.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://reinucatalao.blogspot.com/feeds/8657051546499123082/comments/default' title='Enviar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://reinucatalao.blogspot.com/2011/03/bofetada.html#comment-form' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/2756344929491019346/posts/default/8657051546499123082'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/2756344929491019346/posts/default/8657051546499123082'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://reinucatalao.blogspot.com/2011/03/bofetada.html' title='a bofetada'/><author><name>Roberto de Deus Silvestre</name><uri>http://www.blogger.com/profile/09466075506706355107</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-2756344929491019346.post-7980166947429603641</id><published>2011-03-07T05:27:00.001+02:00</published><updated>2011-03-07T05:27:30.264+02:00</updated><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='terceira série de frOnteira Óptica'/><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='Roberto de Deus Silvestre'/><title type='text'>a vespa e o saiote</title><content type='html'>Nápoles é uma cidade impossível de fotografar porque tudo merece ser fotografado. Uma nesga de parede, de onde um cartaz foi arrancado para dar a ver diversas camadas de sujidade estratificada, acumula resíduos de poeira com uma tal concentração de formas, que dir-se-ia estarmos perante um labirinto de sombras em filigrana, onde uma minúscula tacha de luz ficou pregada, para nunca mais conseguir libertar-se. Quando me apercebi deste facto tive de aceitar que estava a ser iludida pela dimensão abismal do espaço, que me deixava sem parâmetros para definir questões básicas como escala, perspectiva e enquadramento. Guardei a máquina e decidi que não iria trabalhar durante a estadia. Na véspera da minha partida, uma tempestade caiu sobre a cidade, provocando inundações e o aluimento de prédios velhos. Em alguns bairros houve mesmo pessoas que morreram. O caso mais dramático foi o de um homem que ficou preso dentro de casa. O nível das águas subiu e ele não conseguiu fugir, as janelas estavam protegidas por barras de segurança. No dia seguinte, à semelhança do que já vinha acontecendo desde a minha chegada, mas agora com a agravante do cansaço provocado pela tempestade que me impediu de dormir e que tinha deixado as ruas cobertas de lama e de lençóis de água, os acontecimentos sucediam-se à minha volta sem conseguir isolá-los. A vivacidade das pessoas parecia-me uma algazarra de espectros e a luz que passava nos intervalos das nuvens deixava-me num estado semelhante a uma ressaca. Depois de abandonar o hotel, passei por uma rua onde se acumulava uma multidão nas compras da manhã, rodopiando pelas bancas de vendedores ambulantes. As scooters serpenteavam pelas pessoas a uma velocidade estonteante e ninguém fugia da frente, eram os motociclistas que se desviavam aos ziguezagues. Tirei a única fotografia em Nápoles nesse momento, julgando que era apenas um registo de despedida do meu estado de confusão. Mais tarde, quando fiz a revelação, confirmei que fui roubada nesse mesmo instante. O rapaz que vai sentado atrás do condutor da Vespa segura na mão direita a minha sacola (onde estavam os meus documentos e o dinheiro) que tinha posto em cima da mochila. A menina que atravessa a rua, e cujo saco das compras tapa a matrícula, teria sido atropelada se fosse a correr mais depressa. Esta senhora, do lado direito, parece ter-se apercebido do assalto, uma vez que olha na direcção da Vespa e estende o braço para trás, num gesto aparentemente defensivo. Mas se repararmos melhor, ela leva a mão ao rabo para alisar a saia, porque se apercebeu que do outro lado da rua, como se nota aqui do lado esquerdo, vai a passar uma mulher que tem a ponta da saia presa à cintura, deixando à mostra o saiote.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/2756344929491019346-7980166947429603641?l=reinucatalao.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://reinucatalao.blogspot.com/feeds/7980166947429603641/comments/default' title='Enviar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://reinucatalao.blogspot.com/2011/03/vespa-e-o-saiote.html#comment-form' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/2756344929491019346/posts/default/7980166947429603641'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/2756344929491019346/posts/default/7980166947429603641'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://reinucatalao.blogspot.com/2011/03/vespa-e-o-saiote.html' title='a vespa e o saiote'/><author><name>Roberto de Deus Silvestre</name><uri>http://www.blogger.com/profile/09466075506706355107</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-2756344929491019346.post-3496078134557468311</id><published>2011-03-05T16:36:00.002+02:00</published><updated>2011-03-05T16:37:37.224+02:00</updated><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='terceira série de frOnteira Óptica'/><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='Roberto de Deus Silvestre'/><title type='text'>o díptico</title><content type='html'>A Roménia é famosa pela negligência a que são votadas as suas crianças e idosos desfavorecidos. A segurança social desagregou-se com o fim da ditadura comunista mas há outro dado estatístico: é a população mais jovem da Europa. A minha estadia resumiu-se a uma semana em Bucareste, não sem que antes me tivesse apercebido de uma contradição: o carinho que os seus habitantes nutrem pelos sem-abrigo. Não é raro ver uma senhora vinda do mercado, abrir o saco das compras para oferecer uma peça de fruta ou um pacote de bolachas. Os idosos passam o dia encostados a uma parede a ler um livro de orações e sempre que recebem uma esmola aligeiram o peso das almas como recompensa. Juntamente com as igrejas, que abundam pela cidade, escondidas nas traseiras das grandes avenidas e artérias, esses reformados sem reforma são os intermediários vivos entre a religião e a crença. A fé da população é aferida pela sobrevivência daqueles que vivem na rua e as crianças perseguem os peões mais distraídos, aqueles que abdicaram da sua consciência e viram a cara para as montras. Este díptico reflecte essa dupla participação divina no quotidiano de miséria que pauta a vida da cidade. Na imagem do lado esquerdo podemos ver dois turistas a serem assediados por um bando de crianças na Calea Floreasca, uma rua que atravessa o centro da cidade e onde se concentra boa parte do seu comércio. Os miúdos puxam-lhes pela roupa, tentam enfiar as mãos nos seus bolsos ou simplesmente estendem-lhes as mãos abertas. Mas no momento em que disparei o turista de barba tentou libertar-se de uma criança que se tinha pendurado no seu braço e num gesto brusco empurrou-a para fora do passeio. O carro que vai a passar por pouco não a atropela. A imagem do lado direito passa-se na Calea Carol I, junto ao metro da Universidade. O cabo de electricidade desprendeu-se de um poste e ficou pendurado a menos de meio metro de altura do chão. Estas duas crianças divertem-se usando-o para saltar  à corda. Por trás delas está um casal de namorados e tive sorte em ter apanhado a rapariga também suspensa no ar, no momento em que o namorado, bem mais alto do que o seu par, pegou nela e lhe deu um beijo. Mais à esquerda fica esta velhota acocorada junto à parede. Dir-se-ia que o carro da imagem da esquerda, depois de não ter acertado no miúdo empurrado para fora do passeio, acelera em direcção a ela, agarrada a um ícone como única defesa.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/2756344929491019346-3496078134557468311?l=reinucatalao.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://reinucatalao.blogspot.com/feeds/3496078134557468311/comments/default' title='Enviar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://reinucatalao.blogspot.com/2011/03/o-diptico.html#comment-form' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/2756344929491019346/posts/default/3496078134557468311'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/2756344929491019346/posts/default/3496078134557468311'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://reinucatalao.blogspot.com/2011/03/o-diptico.html' title='o díptico'/><author><name>Roberto de Deus Silvestre</name><uri>http://www.blogger.com/profile/09466075506706355107</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-2756344929491019346.post-6218505846968685375</id><published>2011-03-05T03:42:00.001+02:00</published><updated>2011-03-05T03:42:55.031+02:00</updated><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='terceira série de frOnteira Óptica'/><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='Roberto de Deus Silvestre'/><title type='text'>o beijo</title><content type='html'>O avião em que viajei para chegar a Grozny era de pequena fuselagem e fazia muito barulho lá dentro. Sentia os tímpanos obstruídos quando aterrei, nem a minha voz conseguia escutar. O percurso de carro fez-se em silêncio e como nevava fiquei com uma sensação de quietude, apesar do estado de destruição na cidade. A neve cobre os monumentos e as desgraças de igual maneira, à semelhança do creme de chantili que tanto barra um bolo magnífico como outro que ficou enqueijado. Os edifícios em ruínas ganham formas muito interessantes sob as camadas da neve. A arquitectura torna-se onírica, como se tivesse sido moldada por grutas. As construções não estão sujeitas às leis da geometria e a princípios de equilíbrio, antes parecem nacos de carne pendurados num talho de miudezas, pedaços de pão ratado, dentes cariados, aparas de queijo seco, cestinhas de requeijão, pastéis comidos pela metade com o recheio a sair para fora, fatias esmigalhadas de bolo com fruta cristalizada, bolos de arroz com o papel rasgado, suspiros, cavacas, etc. Comecei a escutar os primeiros sons ao entrar numa loja para me aquecer (sons ocos, depois rilhados). Num armário por trás da bancada reparei numas estatuetas de madeira: eram em forma de bustos, mas os rostos cujas faces eram muito bem delineadas e polidas estavam sem nariz, no seu lugar havia uma espécie de ranhura, como se o nariz tivesse sido esculpido não para fora da cara, mas para dentro. Outra particularidade eram as bocas, constituídas por lábios superiores exageradamente desenvolvidos e carnudos (se é que se pode utilizar esta palavra para uma estátua de madeira), enquanto o inferior nem existia (ou melhor, existia, mas ao contrário: eram lábios côncavos). A dona da loja ficou muito feliz por lhe ter comprado uma das estátuas (pela forma como lhe limpou o pó deduzi que era a primeira cliente) e só não me senti tentada a comprar mais uma por serem tão pesadas. Não me demorei muito tempo em Grozny, depois de me aperceber que estava a ser perseguida. O meu perseguidor andava enrolado num manto e por mais que os rufias que o seguiam a ele o empurrassem e lhe puxassem os braços ele não largava algo que tinha escondido por baixo do manto. Um dos tratantes passou-lhe uma rasteira, ele caiu desamparado, a estatueta que trazia escondida soltou-se e veio parar aos meus pés, deslizando pela superfície escorregadia do chão gelado. Pegou na estátua e estendeu-a na minha direcção. Afastei-me e acenei que não, julgando que queria vender-ma. Ele encostou o rosto de madeira na cara dele, enfiou o seu enorme nariz naquela espécie de ranhura e beijou a estatueta, encaixando o seu grosso lábio inferior na superfície côncava correspondente ao lábio. O pormenor mais comovente do beijo provocou a risada nos rapazes: a carícia na bochecha de madeira, pelos dedos amputados das falangetas.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/2756344929491019346-6218505846968685375?l=reinucatalao.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://reinucatalao.blogspot.com/feeds/6218505846968685375/comments/default' title='Enviar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://reinucatalao.blogspot.com/2011/03/o-beijo.html#comment-form' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/2756344929491019346/posts/default/6218505846968685375'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/2756344929491019346/posts/default/6218505846968685375'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://reinucatalao.blogspot.com/2011/03/o-beijo.html' title='o beijo'/><author><name>Roberto de Deus Silvestre</name><uri>http://www.blogger.com/profile/09466075506706355107</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-2756344929491019346.post-3994333939474148212</id><published>2011-02-27T16:17:00.000+02:00</published><updated>2011-02-27T16:19:19.493+02:00</updated><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='terceira série de frOnteira Óptica'/><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='Roberto de Deus Silvestre'/><title type='text'>o guia</title><content type='html'>“A diferença entre um turista e um jornalista é que o turista paga-me para de ver as maravilhas, enquanto o jornalista paga na condição de ver as desgraças”. Esta anedota foi-me contada por um guia de Bagdad que ficou cego na sequência dum bombardeamento. Perguntei-lhe se tinha acontecido durante ou depois da guerra e ele limitou-se a dirigir os olhos na minha direcção. Apercebi-me da estupidez que tinha acabado de dizer e tentei justificar-me, especificando se tinha sido o exército “invasor” ou as “forças de resistência”. Não fui mais feliz com esta adaptação à terminologia que julgava ser a dele. Com uma vara que tinha na mão, desenhou um círculo no chão à volta do meu saco, onde tinha as câmaras e as lentes, e disse para me pôr lá dentro. “Agora és a força de resistência”. Depois empurrou-me para fora do círculo e pôs-se ele lá dentro. “Queres voltar para aqui?” Aceitei o jogo e disse-lhe que sim. “Então pede-me”. Eu pedi. “Não deixo”. Pedi-lhe para me devolver o saco. “Não, agora o saco pertence ao lugar, se queres o saco tens de tirar-me aqui de dentro.” Empurrei-o e tentei pegar no saco: “Agora sou a invasora e tu és a força de resistência”, disse-lhe. “Não. Tu agora mandas nisto e eu sou quem tu quiseres porque não posso tirar fotografias.” “Se é esse o papel que me atribuis então quero que te ponhas no meu lugar, de quem vê, mas não percebe o que faz.” Ele achou piada à ideia, mas disse-me que primeiro tinha de lhe dar alguns dias para pensar. Voltei uma semana depois e encontrei-o sentado no mesmo lugar, como se já soubesse que eu viria naquele dia. “Já sei o retrato que quero tirar, mas não sei se vais aceitar. Pareces uma rapariga bonita e quero fotografar-te nua”. Aceitei a proposta e levei-o para o meu quarto de hotel. Comecei a despir-me à frente dele e divertiu-me a situação, ficar nua para alguém que não podia ver-me. Ele sentou-se à beira da cama, com a máquina digital em cima das pernas. Parecia observar-me atentamente. Quando acabei de despir-me, peguei na outra máquina e fotografei-o (reparem como tem os olhos arregalados na minha direcção). Ele carregou também no botão. “Cheiras bem”, disse-me, quando me aproximei para ver a imagem no ecrã. Mal se via o tapete e uma ponta do sapato. “Está escura, não se vê quase nada”, disse-lhe, “queres tirar outra?” Ele levantou-se, pôs a mão no meu ombro e respondeu-me que não valia a pena. Enquanto esperava por mim, manteve-se em silêncio, de olhos na postos minha direcção. Finalmente perguntou-me por que é que tirava fotografias (“why take pictures?”) e acrescentou uma frase que prefiro não traduzir: “The more you want to show the less you give to see”&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/2756344929491019346-3994333939474148212?l=reinucatalao.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://reinucatalao.blogspot.com/feeds/3994333939474148212/comments/default' title='Enviar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://reinucatalao.blogspot.com/2011/02/o-guia.html#comment-form' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/2756344929491019346/posts/default/3994333939474148212'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/2756344929491019346/posts/default/3994333939474148212'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://reinucatalao.blogspot.com/2011/02/o-guia.html' title='o guia'/><author><name>Roberto de Deus Silvestre</name><uri>http://www.blogger.com/profile/09466075506706355107</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-2756344929491019346.post-4900408950066526288</id><published>2011-02-26T20:03:00.000+02:00</published><updated>2011-02-26T20:04:11.570+02:00</updated><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='terceira série de frOnteira Óptica'/><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='Roberto de Deus Silvestre'/><title type='text'>nua descendo a rua</title><content type='html'>Embora não seja apreciadora de cinema gostei muito de ver um filme iraniano que se passava integralmente no interior dum carro. A minha ideia, quando fui para Teerão, era concentrar-me nos hábitos das pessoas que viajam dentro de veículos privados. As mulheres iranianas podem ser particularmente agressivas ao volante e diga-se de passagem que alguns homens faziam por merecer esse comportamento. Em geral, no entanto, eram muito cordiais (dispenso-me de comentar os hábitos de condução) e não me foi difícil andar à boleia, embora tenha optado preferencialmente por alugar um carro e depois contratar um condutor, que me servia de modelo. Entretanto conheci uma rapariga que era estudante. A sua maior ambição era ser manequim. O corpo dela correspondia ao padrão ocidental da moda, era muito delgada, mas no Irão, dada a morfologia feminina e as limitações impostas no modo de vestir, dá-se preferência às mulheres com um rosto forte e de corpo avantajado, ou pelo menos de peito e ancas bem femininas. A Nazanin tinha um rosto miúdo e era muito elegante no seu estilo andrógino, mas sob aquela roupa que se via obrigada a usar, de tão alta que era, parecia um espeto de pau, como se usa dizer entre a geração dos nossos avós. Como todos as estudantes que conheci, a Nazanin vivia obcecada pelo ocidente, mas era demasiado sofisticada para o gosto comum iraniano. Durante a semana em que trabalhou comigo só falava  em actos de rebeldia, julgava que no ocidente as pessoas eram mais audazes e confundia os hábitos de moda praticados em Londres, em Paris ou em Tóquio com gestos provocadores. Ela estava farta do lenço colorido, dos truques usados para atrair, achava que era uma maneira hipócrita das mulheres se submeterem ao desejo dos homens que as impediam de vestir-se livremente. Até a roupa das suas colegas modernas a irritava, aquilo que podia ser muito original em Teerão ela sabia que não passava de uma má cópia de modelos ultrapassados. “O mundo civilizado está a mudar, percebeu-se que não é a roupa que importa porque o corpo é que deve fazer a roupa. O que tem vindo a acontecer com o nosso povo e só vem provar que o Corão a esse respeito está correcto. A vergonha está na cabeça, por isso a tapamos.” Disse-me isto e depois perguntou-me: “Tu salvas-me?” Então parou o carro, sem desligar o motor despiu-se toda, voltou a pôr o lenço preto na cabeça e saiu para a rua. Só tive tempo de tirar esta fotografia. Passei para o lado do condutor e saí dali. A única coisa que eu podia salvar era a imagem dela, quanto a isso não acredito que ela fosse ingénua.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/2756344929491019346-4900408950066526288?l=reinucatalao.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://reinucatalao.blogspot.com/feeds/4900408950066526288/comments/default' title='Enviar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://reinucatalao.blogspot.com/2011/02/nua-descendo-rua.html#comment-form' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/2756344929491019346/posts/default/4900408950066526288'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/2756344929491019346/posts/default/4900408950066526288'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://reinucatalao.blogspot.com/2011/02/nua-descendo-rua.html' title='nua descendo a rua'/><author><name>Roberto de Deus Silvestre</name><uri>http://www.blogger.com/profile/09466075506706355107</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-2756344929491019346.post-3098094891674503802</id><published>2011-02-25T04:46:00.000+02:00</published><updated>2011-02-25T04:47:35.034+02:00</updated><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='terceira série de frOnteira Óptica'/><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='Roberto de Deus Silvestre'/><title type='text'>o muro ou a baliza</title><content type='html'>Durante semanas viajei ao longo do muro, quer do lado da fronteira palestiniana, quer do lado da fronteira israelita. O muro tem 80km, para atravessar os dois lados tinha de fazer 160km (estou a fazer uma contabilidade geométrica, o percurso real foi quase o dobro). Havia uma população do lado palestiniano que ficava nas imediações do muro e os miúdos iam para lá jogar à bola, num descampado. Achei piada e deixei-me ficar a observá-los, nem sequer tirei fotografias. Um dos miúdos que não estava a jogar meteu conversa comigo e acabei por instalar-me no quarto de uma casinha que pertencia ao tio dele. Eles iam todos os dias jogar e eu passava uma boa parte do tempo a observá-los. Esse miúdo que eu conheci (chamavam-lhe Ba’ Ali) era muito pequenito, coxeava de uma perna e os outros rapazes só o deixavam jogar à baliza. Só que ele não queria ficar na baliza. A bola dos miúdos era de borracha e como havia por ali muitas pedras já se tinha rompido por mais de uma vez, estava remendada. Houve um dia em que tive de voltar a Israel para fazer alguns contactos e ir às compras. Passei por uma loja de artigos desportivos e lembrei-me de comprar uma bola oficial, daquelas com carimbo da Fifa e marca registada. Como sabia da frustração do Ba’Ali não jogar, ao regressar ofereci-lhe a bola a ele. Mas os outros miúdos não se deixaram corromper. Então o Ba’Ali ficou sozinho a chutar contra o muro, enquanto os outros miúdos continuaram a jogar com a bola de borracha. Durante dois dias repetiu-se a cena, os miúdos com uma bola remendada e o Ba’Ali sozinho, com a sua bola novinha em folha, a jogar uma espécie de futebol-squash. Até que, a meio de mais um jogo, houve um miúdo que mandou uma biqueirada, a bola subiu, subiu e foi parar a Israel. O Ba’Ali, como se não fosse nada com ele, continuou a chutar a bola contra o muro. Os outros começaram a aproximar-se dele e um deles, o mais alto de todos, pediu-lhe a bola emprestada. O Ba’Ali pegou na bola, pô-la de baixo do braço e avisou logo que não ia para a baliza. O outro disse-lhe que ele era coxo, só podia jogar à baliza. Então o Ba’Ali voltou a pôr a bola no chão e a chutá-la contra a parede. Os outros miúdos desandaram e uma hora depois voltaram com uma corda enorme, a que ataram um pedaço de ferro dobrado em forma de u. Durante o resto da tarde entretiveram-se a tentar prender aquela espécie de gancho à extremidade do muro. Preferiram arriscar dar um salto para o outro lado da fronteira, onde a admitir o Ba’Ali na equipa deles. Tirei a fotografia no momento em que um dos miúdos subia pela corda os oito metros do muro. Este pé em grande plano, a pisar a bola, é o da perna coxa do Ba’Ali.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/2756344929491019346-3098094891674503802?l=reinucatalao.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://reinucatalao.blogspot.com/feeds/3098094891674503802/comments/default' title='Enviar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://reinucatalao.blogspot.com/2011/02/o-muro-ou-baliza.html#comment-form' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/2756344929491019346/posts/default/3098094891674503802'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/2756344929491019346/posts/default/3098094891674503802'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://reinucatalao.blogspot.com/2011/02/o-muro-ou-baliza.html' title='o muro ou a baliza'/><author><name>Roberto de Deus Silvestre</name><uri>http://www.blogger.com/profile/09466075506706355107</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-2756344929491019346.post-711549130403538800</id><published>2011-02-23T04:30:00.001+02:00</published><updated>2011-02-23T04:30:53.483+02:00</updated><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='terceira série de frOnteira Óptica'/><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='Roberto de Deus Silvestre'/><title type='text'>a greve</title><content type='html'>Entreposto das nove províncias chinesas, Wuhan é a capital da província de Hubei, que fica no centro do país. Lugar de confluência do Yangtze (o terceiro maior rio do mundo) com o Han, sob o nome de Wuhan congregam-se nas margens dos dois rios três cidades: Hankou, Hanyang e Wuchang. A sua localização geográfica transformou a cidade num centro estratégico de comércio, finança, indústria, investigação tecnológica e ensino (sendo nestas duas últimas áreas apenas ultrapassada por Xangai e Pequim). O progressivo desenvolvimento da cidade, que é uma das mais bem equipadas na área das telecomunicações, provocou uma crescente consciência social, em resultado da sua competitividade e do alarmante aumento do desemprego. A actualização tecnológica em diversos sectores industriais não se fez sem custos: a requalificação técnica implicou o sacrifício de milhares de postos de trabalho. A emergência de uma classe média bem informada, que não ignora a chantagem política em que assenta o seu modo de vida (baseado num modelo colectivista que reforça a influência externa do país no mercado internacional, mas sem as contrapartidas sociais e económicas para os cidadãos, que deveriam recompensar os índices de competitividade a que estão comprometidos), acabou por gerar uma gigantesca manifestação junto às margens do Yangtze. O povo chinês é extraordinariamente trabalhador e disciplinado, mas numa cidade tão moderna como Wuhan torna-se complicada a adaptação a novos empregos, produto das exigências de especialização. Sem uma estratégia governativa coerente, instalou-se o desespero. O milhão de pessoas que se juntou nas ruas aos operários desempregados constituiu uma onda de solidariedade inédita e acabou por redundar num dia de greve geral na cidade, que viu interrompidas as vias de comunicação por ar, terra e água. Nesse dia, a cidade parou, no dia seguinte foi como se nada tivesse acontecido. Sete milhões de habitantes testemunharam o mesmo que eu, mas no dia seguinte não encontrei uma só pessoa que soubesse falar inglês comigo. A fotografia não é explícita: uma multidão compacta avança por uma rua paralela ao rio, no sentido contrário ao da corrente, e entre o manto compacto das roupas, apenas as cabeças emergem à superfície. Os rostos estão de boca aberta (a entoarem cânticos) e apontam na mesma direcção, mas não há braços erguidos, nem cartazes, nem qualquer informação gráfica que possa comprovar tratar-se duma greve. A fotografia foi tirada pela manhã, em contraluz, e depois da revelação escureci os rostos até ficarem apenas silhuetas. As águas do rio que contornam as cabeças dos grevistas mantém-se no entanto cintilantes.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/2756344929491019346-711549130403538800?l=reinucatalao.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://reinucatalao.blogspot.com/feeds/711549130403538800/comments/default' title='Enviar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://reinucatalao.blogspot.com/2011/02/greve.html#comment-form' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/2756344929491019346/posts/default/711549130403538800'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/2756344929491019346/posts/default/711549130403538800'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://reinucatalao.blogspot.com/2011/02/greve.html' title='a greve'/><author><name>Roberto de Deus Silvestre</name><uri>http://www.blogger.com/profile/09466075506706355107</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-2756344929491019346.post-8143787533031060632</id><published>2011-02-22T02:06:00.001+02:00</published><updated>2011-02-22T02:06:30.722+02:00</updated><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='terceira série de frOnteira Óptica'/><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='Roberto de Deus Silvestre'/><title type='text'>depois do acidente</title><content type='html'>Não tinha mais do que cinco, seis anos quando fui a uma exposição de banda desenhada onde vi um trabalho em que as pranchas eram constituídas por recortes de fotografias de revistas antigas. Uma das pranchas era constituída por tiras com parcelas de terra vistas de muito perto e, na tira de baixo, um casal de namorados deitado no chão. Não se via a cara deles, o que dava à composição uma intimidade cheia de mistério e de pudor, com um efeito quase mágico, que resultava duma abordagem muito concreta, muito material, do acto de ver. Durante uma viagem que fiz pela Malásia (com o objectivo de fotografar o processo de modernização urbanística do país), numa altura em que passava pela orla duma floresta, o carro onde eu seguia foi obrigado a interromper a marcha. Tinha havido um acidente e gerou-se um engarrafamento. Quando me aproximei do sítio onde estava o carro que se despistou, os corpos já tinham sido retirados do seu interior. O corpo da mulher estava encostado ao do seu companheiro, que tinha o braço esquerdo por baixo do pescoço dela. Pareciam estar abraçados, com o braço direito dele a descansar sobre a barriga. Com o excesso de calor e de humidade os insectos voltejavam em redor do sangue e uma das testemunhas puxou do seu lenço de bolso para tapar a cabeça da mulher. O companheiro, de olhos abertos, tinha um lenho a toda a largura da testa. O sangue cobria-lhe o rosto e acumulava-se à volta das pálpebras, colando as pestanas e impedindo os olhos de serem fechados. Estava irritada com aquela azáfama e excitação à volta do acidente e lembrei-me do casal estendido no chão, na tal prancha feita com recortes de fotografias. Ainda fiz um enquadramento semelhante, entre os ombros e a cintura, mas optei antes por tirar a fotografia ao alto, mantendo o enquadramento pela cintura e pelos ombros (o que incluía o abraço), mas dum ponto de vista rente ao chão, o que dá esta ilusão dos cadáveres estarem enterrados na vegetação que os cerca. Na parte superior da imagem ainda se vê parcialmente o carro, com o vidro da frente partido e as copas das árvores, que fecham o espaço. Conscientes de que estavam a posar para a posteridade, as testemunhas do acidente ficaram subitamente absortas (não é a imagem que as imobiliza, foram elas que se imobilizaram para a imagem). Reparem neste homem: preparava-se para cobrir os cadáveres, mas fez um compasso de espera. O lençol, que segura junto aos ombros, tapa o seu próprio corpo, apenas dando a ver, sob uma ruga na testa, um olhar que se estende fora do enquadramento.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/2756344929491019346-8143787533031060632?l=reinucatalao.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://reinucatalao.blogspot.com/feeds/8143787533031060632/comments/default' title='Enviar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://reinucatalao.blogspot.com/2011/02/depois-do-acidente.html#comment-form' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/2756344929491019346/posts/default/8143787533031060632'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/2756344929491019346/posts/default/8143787533031060632'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://reinucatalao.blogspot.com/2011/02/depois-do-acidente.html' title='depois do acidente'/><author><name>Roberto de Deus Silvestre</name><uri>http://www.blogger.com/profile/09466075506706355107</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-2756344929491019346.post-5893324606013888093</id><published>2011-02-21T05:17:00.000+02:00</published><updated>2011-02-21T05:18:24.050+02:00</updated><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='terceira série de frOnteira Óptica'/><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='Roberto de Deus Silvestre'/><title type='text'>entrevista a joão silvestre</title><content type='html'>O olho direito, o mesmo que utiliza para focar e enquadrar, tem 25 milímetros de diâmetro e está relativamente descaído em relação ao irmão do lado. A pálpebra, “o estore do olho”, quase tapa a parte superior da íris: “vejo através das pestanas”). Vê “maniacamente bem” ao perto, mas sem a ajuda do irmão distrai-se com as distâncias. O olho esquerdo, que fica aberto no momento de carregar no botão (“olha o passarinho”) mantém-se alerta, inspeccionando a imagem a nu. Tem 24 milímetros de diâmetro e tem sempre os “estores subidos”. Ao contrário do irmão à direita, vê mal ao perto (“até as manchas são desfocadas”) mas é capaz de distinguir as garras duma águia a voar (“coitadinha, partiu uma unha”). Juntos fazem um par amoroso “e com muitos filhotes fotografados”, separados são incompletos, ficam inválidos.&lt;br /&gt;“A minha mãe, quando eu era adolescente e vivia complexada por ter um olho maior do que o outro, costumava dizer-me: cada olho sua visão, cada visão seu pensamento. Há dois anos atrás feri a córnea e andei durante duas semanas com o olho esquerdo tapado por uma gaze. Tive de cancelar o trabalho, era como ver as coisas pelo buraco duma fechadura. Não gosto de pensar que ando a espreitar os outros. Enquanto não melhorei, limitava-me a ler e a coser botões.”&lt;br /&gt;Aos 22 anos, João Silvestre é uma das mais respeitadas repórteres fotográficas internacionais. Os editores perseguem-na, as agências propõem-lhe contratos milionários, mas os seus trabalhos são refractários a encomendas, surgem de surpresa, provocando o efeito dum golpe de teatro no contexto da imprensa e da produção de notícias. A sua independência, diz ela, não é para defender a liberdade de expressão nem para fugir à rotina, deve-se antes à incapacidade de suportar as expectativas.&lt;br /&gt;“Não sei trabalhar sob pressão. Quando acabei o curso fiz uma proposta de estágio na redacção de um diário. Aceitaram-me porque ia muito bem referenciada por um professor que tinha sido editor do jornal. No primeiro dia de trabalho deram-me três serviços. Em dois deles nem consegui tirar uma fotografia.” Careta seguida de sorriso nervoso: “Perdi logo a confiança do editor. Durante o resto da semana mandou-me fazer um trabalho de arquivo, sobre bairros ilegais que iam ser demolidos. Voltei à redacção quatro dias depois para fazer as primeiras revelações. O editor, vendo-me só com um rolo na mão, nem me deixou entrar no laboratório: como é que podes ter feito um rolo completo se os bairros da lata já nem existem? disse-me ele. O trabalho tinha sido o sinal de código para dizer: estás despedida.” &lt;br /&gt;Esse mesmo trabalho um ano depois daria a Portugal o primeiro prémio da Word  Press Photo. Há quem considere João Silvestre uma fraude. Acusada de montagens e encenações, os seus críticos mais benévolos acham apenas que tem sorte, aparece no lugar certo, no momento certo. Admiram-se que o achado duma vida, que os colegas de profissão ambicionam ter uma só vez durante a carreira, no caso dela se repita com intervalos tão curtos. João Silvestre não está certa que seja um caso de sorte, mas de paciência.&lt;br /&gt;“Como tantas pessoas fazem, leio jornais. Recorto as notícias que considero mais relevantes e depois organizo pastas temáticas, onde colecciono os textos que encontro referentes ao mesmo assunto. Isso permite-me ter uma ideia da evolução dos problemas, antecipar novos desenvolvimentos de um processo em curso. Quando sinto que algo está para acontecer, vou para o local e espero. A sorte, se existe, tem a ver com o tempo de espera. Posso ficar retida durante um dia, durante uma semana, mas também durante seis meses. O meu irmão Jaime foi actor e acontecia-lhe o mesmo. Se fazia publicidade, durava um dia, se fazia cinema participava nas rodagens durante uma semana, se tinha a sorte de participar numa telenovela, podia aguentar-se durante um ano.” &lt;br /&gt;Ó João, claro que não podia. &lt;br /&gt;“Poder, podia. Ele é que não queria.”&lt;br /&gt;A escolha do local faz-se por parâmetros, no interior duma escala que vai aumentando à medida que se aproxima “como um zoom”, até chegar ao epicentro duma história particular, que muitas vezes só de forma indirecta se relaciona com o acontecimento que a levou a dirigir-se a um país, a uma região, a uma cidade ou a uma simples rua. Foi assim que fotografou um grupo de miúdos a escalarem os oito metros do muro na fronteira palestiniana, para irem buscar uma bola de borracha que tinha ido parar a Israel. Foi assim que viu uma mulher iraniana a passear pelas ruas de Teerão coberta por um lenço e nua por baixo. Foi assim que viu um adolescente numa peladinha em Joanesburgo a segurar uma bola de futebol entre a testa e a ponta da sua comprida língua (malabarismo que, prometeu repetir na final do Mundial de futebol para celebrar o primeiro campeão africano). Foi assim que viu dois street racers portugueses a saltarem dos seus carros, no momento em que se despenhavam num desfiladeiro. Foi assim que viu uma menina de seis anos a dar uma canelada em Fidel Castro, antes dele fazer o discurso anual da revolução cubana. E que fotografou um adolescente com um aparelho de correcção nos dentes e um cordão metálico à volta do pescoço a sorrir para um tubarão numa praia de Cape Cod, perante a expressão alucinada de dois banhistas em fuga. E que fotografou um bem disposto terrorista a sair do avião privado de George Bush depois de esvaziar um copo de rum-cola (bebida também conhecida por Cuba Libre). E que fotografou uma criança enlameada numa ilha indonésia, a construir uma casa de brinquedo com pauzinhos, junto a um regato, tendo por trás a casa dos seus pais, destruída na sequência dum maremoto. E que fotografou um milhão de operários chineses numa inédita greve de trabalhadores contra o regime capitalista-comunista.&lt;br /&gt;“O que impressiona as pessoas é a espectacularidade da imagem. Para mim trata-se dum problema de composição. Quanto mais complexa for a imagem, maior é o efeito que causa. Se tirar uma fotografia a uma multidão, o que resulta da imagem não são as pessoas que fazem parte dessa multidão. Por outro lado, se apenas me concentrar numa dessas pessoas elimino o facto dela fazer parte da multidão. Entre estas duas possibilidades, há um sem número de variações possíveis. É como aquela pergunta que me faziam quando eu era miúda: consegues ver o teu pai no meio dos homens ou no meio dos burros? Antes de responder que era no meio dos homens, tentava sempre reconhecer os outros que estavam à volta dele”&lt;br /&gt;E depois diziam-te: então o teu pai é um burro!&lt;br /&gt;“Quanto maior for o número de combinações, mais contraditória é a ideia de multidão, mais difícil se torna ter só uma leitura da imagem. Provocando múltiplas leituras, a imagem desperta outras interpretações”&lt;br /&gt;Onde devia estar um burro aparece o homem!&lt;br /&gt;“São níveis diferentes de atenção. Se um fotógrafo se deixa apanhar pelo primeiro estímulo, é atraído pelo efeito primário do acontecimento e a imagem resulta anedótica. Mas se deixar que o acontecimento se desenrole, o tempo reverte a seu favor. A maioria dos fotógrafos estabelece uma relação pessoal com aquilo que está à sua frente, isso é uma limitação. Estando disponível para as diversas relações que se estabelecem, desaparece o confronto com a imagem. Para mim o confronto deve estar na imagem.”&lt;br /&gt;Quem és tu, João Silvestre? (não percebe a pergunta, sem dúvida inútil, mas as flores de retórica haverão de servir para alguma coisa, como por exemplo presenteá-la com a nossa atrapalhada admiração, que não procura saber quem ela é de facto. A intimidade posta a nu, um rosto ao espelho: do outro lado há qualquer coisa de certeza, mas não é a pessoa frente ao espelho. Apenas o interior dum armário, uma parede esburacada. Mesmo assim, a pergunta mantém-se)&lt;br /&gt; “Sou repórter fotográfica, é o que faço.”&lt;br /&gt;Uma fotografia o que é? A imagem duma boa história e tu não vais contar a tua história. Concentra-te no aqui e agora. O resto são projecções e tu não te interessas por cinema. &lt;br /&gt;“Não sou muito feminina e nunca fui muito bonita (o meu irmão era mais). E também não fui mimada [gargalhadas do entrevistador]. O meu passado é banal, o que me deixa inteiramente satisfeita. [o entrevistador discorda e contra-ataca] Se fui maltratada?”&lt;br /&gt;Faz um sorriso de Gioconda. Agora vais dizer como é que preparas o trabalho e quem for bom entendedor ver-te-á à transparência. Podes começar.&lt;br /&gt;“Opto sempre por um acontecimento que vai dar-se numa data concreta, que resulta dum processo histórico em curso e pode ser mais ou menos relevante na agenda da imprensa internacional.”&lt;br /&gt;Não sejas aborrecida. Fala.&lt;br /&gt;“Quando chego ao local o tema em si já não me interessa, deixo-me levar por assuntos corriqueiros, pelas pessoas que conheço ao acaso. Mesmo algumas coincidências à partida inocentes levam-me a seguir as pistas para onde apontam, não porque acredite na inspiração, mas porque me divirto. Não se trata de fugir às expectativas, simplesmente não lhes dou importância. Não me interessa o lado simbólico quando estou no terreno (seja uma guerra ou uma famosa estância turística), uma boa fotografia arrasta um símbolo consigo, mas pode não ser o mesmo.”&lt;br /&gt;Estou quase a dormir.&lt;br /&gt;“Também não me considero uma iconoclasta.”&lt;br /&gt;Acorda-me se começar a ressonar.&lt;br /&gt;“Uma imagem, a partir do momento em que a fixo, inicia um percurso: revelação, impressão, por aí fora. Se vier a tornar-se popular, transforma-se num ícone, mas isso não depende de mim.”&lt;br /&gt;Já acabaste? Então agora vais falar das tuas influências até a luz vermelha aqui do aparelho se apagar. &lt;br /&gt;“As influências são muitas, mas se não forem os meus críticos e admiradores a encontrarem-nas não hei-de ser eu a facilitar o trabalho. Onde é que vais?”&lt;br /&gt;Vou deitar-me. As tuas respostas dão-me sono.&lt;br /&gt;“Já que insiste recordo um momento importante. Tive um namorado que decidiu ir estudar para Londres. Informou-me a uma segunda, foi-se embora na terça. Três meses depois voltou (não me viu, que eu não deixei). Antes de voltar à Inglaterra deixou aí em casa um caderno. Não me lembro de quase nada do que me escreveu, mas houve uma página que valeu por todas. Ele também gostava de fotografia. Na noite em que me escreveu o caderno houve um homem que meteu conversa com ele e fez-lhe uma proposta. Tinha de escolher entre duas opções: ou ser levado numa máquina do tempo para sítios onde se deram acontecimentos históricos, e seria apenas mais um fotógrafo a juntar aos outros que lá estiveram, ou ser levado para sítios em que não podia saber o que iria acontecer, mas com a certeza de ser o único a fotografar acontecimentos tão importantes como aqueles que se tornaram célebres. É fácil reconhecer importância à história, quando ela já foi escrita e se encontra documentada. Difícil é não fugir dela quando está a acontecer.”&lt;br /&gt;Preferimos imaginar João Silvestre a espreitar por um buraco com um pequeno mundo lá dentro e que ela dá a conhecer, como um bibelô escondido na parte de trás  duma prateleira onde uma lagarta foi tecer o seu casulo. Ao transformar-se numa borboleta vai desdobrar as asas e ficar presa lá dentro. A menos que alguém se lembre de espanejar o armário e partir acidentalmente o bibelô, que não passava duma boneca de cerâmica muito feia [risos da entrevistada].&lt;br /&gt;As perguntas acabam, a conversa ganha asas. Quem nasce aprisionado, mesmo que arranje maneira de libertar-se nunca mais deixa de pensar como será a próxima prisão. O truque está em não procurar, para não ter de fugir… Os lugares são maus destinos, mas bons pontos de passagem… &lt;br /&gt;“Sou muito dada a treçolhos”&lt;br /&gt;Já foste a um especialista? Os nossos corpos são como ecossistemas de formas de vida tão pequenas ao ponto de ignorarmos a sua importância… Somos um ponto de passagem… &lt;br /&gt;“Gosto de pensar nas minhas origens. Foi neste país onde tudo começou para mim, é o meu ponto de partida, mas não sinto que seja a minha terra… &lt;br /&gt;“Dentro dum milhão de anos não haverá um único ser humano neste planeta, não por a humanidade se ter extinguido, mas porque encontrou outros lugares para habitar, ou porque se transformou em outras espécies. Para mim, isso seria terrível, da mesma maneira que para a minha mãe seria terrível abandonar o seu país, ou para a minha avó foi terrível abandonar a sua aldeia.”&lt;br /&gt;Quem te diz a ti que dentro de quinhentos anos as pessoas não vão achar o mesmo? &lt;br /&gt;“O mesmo? Daqui a 500 anos a esperança de vida pode ser de 500 anos. Não é grave perder a terra que está na nossa memória, desde que asseguremos a memória da nossa terra [nota da entrevistada: eu não disse nada disso!] Os lugares permanecem, a viagem continua. [nota da entrevistada: nem sei o que isto quer dizer!] A imagem é um testemunho de passagem. [Ó pai, porque é que inventas?] O meu irmão não está comigo, mas acompanha-me.” [Ó pai]&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/2756344929491019346-5893324606013888093?l=reinucatalao.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://reinucatalao.blogspot.com/feeds/5893324606013888093/comments/default' title='Enviar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://reinucatalao.blogspot.com/2011/02/entrevista-joao-silvestre.html#comment-form' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/2756344929491019346/posts/default/5893324606013888093'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/2756344929491019346/posts/default/5893324606013888093'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://reinucatalao.blogspot.com/2011/02/entrevista-joao-silvestre.html' title='entrevista a joão silvestre'/><author><name>Roberto de Deus Silvestre</name><uri>http://www.blogger.com/profile/09466075506706355107</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-2756344929491019346.post-3353148096795759399</id><published>2011-02-20T03:50:00.001+02:00</published><updated>2011-02-20T03:50:28.148+02:00</updated><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='Roberto de Deus Silvestre'/><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='segunda série de frOnteira Óptica'/><title type='text'>jaime roque (1988-2007)</title><content type='html'>Foram momentos estonteantes de humor destemido e encanto deveras estroina, mas não sem estados da alma (a alma não é uma cadeira em que nos podemos sentar, como foi dito num baile de máscaras). Na sua linguagem de peixe, escreveu poemas, cantou-os mal vestido, por vezes nem vestido. Deixa em casa dos pais um baú de roupa colorida, minúsculas recordações, coágulos, tachas, labaredas. Deixa as clareiras da sua juventude alada, de potros salgados, de pólen aéreo, de abelhas dribladoras, de meigas formigas desencarreiradas e uma andorinha perdida em plena borrasca primaveril. Vai em busca de outras carreiras. De melhor companhia. Já não mora aqui. Não representou um tipo geracional, não se deixou desidratar em celebrações etílicas ou em somatizações psicotrópicas. A sua alegria de viver não foi a da gargalhada brutal por haver uma braguilha aberta na festa, mas a da perspicácia sorridente, ao notar que o mesmo convidado esmagado pela chacota dos primatas compôs o colarinho enquanto procurava um espelho inexistente. Na sua dedicação comprometeu-se a resgatar a fantasia, essa parcela da infância que se desorienta com a mudança de idade e que um dia alguém achou por bem expurgar dos homens, no momento em que mais necessidade tinham dela. (Pai, pára com isso). Deixa-me, filho, mas não me deixes parar. (Cala-te e vem dar um passeio). Sim, vamos, em silêncio, como num jogo de esconde.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/2756344929491019346-3353148096795759399?l=reinucatalao.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://reinucatalao.blogspot.com/feeds/3353148096795759399/comments/default' title='Enviar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://reinucatalao.blogspot.com/2011/02/jaime-roque-1988-2007.html#comment-form' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/2756344929491019346/posts/default/3353148096795759399'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/2756344929491019346/posts/default/3353148096795759399'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://reinucatalao.blogspot.com/2011/02/jaime-roque-1988-2007.html' title='jaime roque (1988-2007)'/><author><name>Roberto de Deus Silvestre</name><uri>http://www.blogger.com/profile/09466075506706355107</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-2756344929491019346.post-2420262113225412865</id><published>2011-02-18T03:38:00.001+02:00</published><updated>2011-02-18T03:39:54.701+02:00</updated><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='Roberto de Deus Silvestre'/><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='segunda série de frOnteira Óptica'/><title type='text'>a arte perdida da fumigação</title><content type='html'>Oferendas, dádivas, holocaustos, sacrifícios, homenagens, rituais, promessas cumpridas, pagamentos de dívidas são expressões diversas dum sentimento comum, o de transferirmos para o desconhecido a incapacidade em alterar um determinado aspecto da realidade que nos afecta, encontrando em práticas substitutivas um crédito que nos permite suportar, e até mesmo fruir, a espera de algo que se caracteriza pela ausência. &lt;br /&gt;Primeira cena: Duas crianças atiçam as chamas duma fogueira, nas traseiras duma casa de camponeses. Sob o crepitar da lenha, faúlhas elevam-se das chamas. Do lado oposto da fogueira, sentada sobre uma cerca, a mãe das crianças fala ao telemóvel e leva o cigarro à boca.&lt;br /&gt;Pretendemos falar do malefício dos cigarros, como tantos especialistas bem intencionados, mas não o do terrorismo médico (uma estratégia de propaganda cuja violência reside em fazer-nos habitar cenários que não nos pertencem necessariamente). Antes de tratarmos dos fumadores, concentremo-nos no fumo que libertam. Melhor ainda, voltemos atrás, a um tempo sem fumadores, em que nenhuma mulher ou homem conheciam o hábito ou sofriam do vício. &lt;br /&gt;Segunda cena: As crianças que inalam o fumo e o expelem para a atmosfera fumigam a cozinha. Os vapores dos cozinhados acumulam gorduras e humidade, atraem insectos, fungos e demais formas biológicas inacessíveis a olho nu, aí encontrando minúsculos ecossistemas altamente nutritivos, suficiente justificação para se instalarem. Ao secarem o ar, com o fumo que expelem, as crianças fumigadoras atenuam a intensidade destes sabores que se fundem na atmosfera e atraem pequenos invasores de faro apurado e apetite duvidoso. &lt;br /&gt;Não basta fumigar os cantos da cozinha. Organizados em regimentos de batedores, equipas de exploradores ou grupos de excursionistas, há insectos cheios de curiosidade a passearem por ângulos e cantos, espaços cuja intersecção de linhas lhes permite sondar um mundo bidimensional que por enquanto mal dominam. &lt;br /&gt;A extremidade de uma superfície horizontal (o chão, o tampo de uma mesa) em contacto com uma linha de intersecção (um copo, a beira de um prato, os pés da mesa, a porta do fogão, uma parede) são paisagens sobejamente atraentes para merecerem uma visita. Mas como a respiração ali não é agradável (resultado da secagem do ar pela fumigação), retiram-se em direcção a outros pequenos mundos de arestas por descobrir (entre as nossas amigas formigas, também se encontram aventureiras). &lt;br /&gt;Havendo abundância de alimento, as baratas estão dispostas a resistir à má qualidade do ambiente, usando as cozinhas e outras divisões como colónias. Se não encontrarem alimento retiram-se, embora no caso das baratas tenhamos de dar crédito à sua extraordinária capacidade de adaptação, aprendendo a digerir os víveres mais inverosímeis. Outra possibilidade é as baratas criarem cativeiros (ou insectários) de espécies ainda mais pequenas que lhes sirvam de alimento, cabendo à baratas encontrar o sustento da criação que faz parte da sua cadeia alimentar. &lt;br /&gt;Não devemos surpreender-nos com a falta de critério das baratas. Nas grandes cidades, elas actuam num permanente estado de guerra: a precisão dos seus ataques, quando entram pela frincha de uma parede por trás do fogão, é bem mais importante do que a sua capacidade de julgar a qualidade do resgate, para a qual não lhes sobra tempo nem disposição. &lt;br /&gt;As crianças continuam a fumigar, inspiram a plenos pulmões. Não lhes fará mal? A corrente de ar que entra pela chaminé e encontra uma saída na janela aberta, expulsa as partículas gasosas que se desprendiam da combustão de folhas. Na cozinha apenas resta o aroma doce da planta queimada (e fumigada), engenhosamente escolhida para despistar as baratas, entontecer as formigas e relaxar agradavelmente as crianças depois da fumigação. E que planta usada para a fumigação é essa? Terão de perguntar às crianças &lt;br /&gt;“Ó mãe, que planta é esta?”&lt;br /&gt;“Pergunta à avó”&lt;br /&gt;O ódio mítico que os cozinheiros nutrem por baratas explica-se pelo facto da presença destas constituir a prova de que os seus cuidados de higiene estão longe da perfeição desejada ( barreira de segurança que criaram termina nos rolos de cotão pintalgados de manchas de bolor e em pingos de gordura polvilhados de saborosas migalhitas). Essa intimidante coabitação ofende as prerrogativas sociais do proprietário de cozinha (antevendo que o próximo passo é ser obrigado a respeitar a igualdade de voto de uma barata numa reunião de condomínio). Quanto mais souber da barata, tanto maior será a tendência para afeiçoar-se a ela. Opta assim por uma repulsa extemporânea e cheia de preconceitos. &lt;br /&gt;Os frequentadores de cozinhas tendem a perseguir com maior acuidade as formigas. Tal deve-se ao facto das formigas (assim como as moscas) serem mais fáceis de apanhar e aquilo que os frequentadores de cozinha verdadeiramente perseguem não é a eliminação do bicharoco intruso, mas as boas graças da cozinheira. Bem, o motivo principal, para falar a verdade, pode ser outro. O frequentador de cozinhas alimenta-se dos produtos que por lá se encontram e não lhe agrada que estejam a depenicar-lhe o prato mesmo depois de acabar a refeição. O insecto visível à vista desarmada (expressão deveras enganadora neste contexto) ofende o seu estatuto privilegiado de poder servir-se, e não está disposto a partilhá-lo com uma mosca pedinchona e um carreiro de formigas salteadoras (seria como reconhecer à esmola e ao furto o estatuto de actividades económicas). &lt;br /&gt;As crianças sentem-se reconfortadas. Após a fumigação, foi-lhes reconhecido o direito a sentarem-se à mesa para jantar com os adultos. Como recompensa da fadiga terão um sono descansado. Maas não isento de ataques aéreos…&lt;br /&gt;Terceira cena: duas crianças dormem destapadas numa cama de casal, protegida por uma rede pendurada no tecto. A parede, por trás da cama, projecta a sombra das asas duma borboleta, poisada no abat-jour do candeeiro por cima da mesa de cabeceira. Sobre uma superfície rosada e curva (o ombro do rapaz) uma melga bebe-lhe o sangue.&lt;br /&gt;Uma melga que as pique durante a noite é quanto basta para maldizerem, ao acordar, a péssima fumigação executada na véspera. &lt;br /&gt;“Coitadinhos”, lamenta a avó Celeste, cobrindo os netos de mimos, depois de ter-se esquecido na véspera de proteger as camas com um mosquiteiro. &lt;br /&gt;“Mas não foram as melgas?”, pergunta-lhe o neto espevitado e inflamado.&lt;br /&gt;Quarta cena: Eis que já não sobram insectos em casa (ou eles não se deixam ver). Mesmo assim, as crianças calcorreiam as divisões de fumigador na boca, com óbvias intenções vingativas. Estudemos um pouco melhor o instrumento: um cone de papel pardo aceso numa das pontas, contendo folhas secas esmigalhadas. Com a outra extremidade na boca, a criança fumigadora chupa o ar, de forma a atear as folhas. Já houve um tempo em que, menos experiente, se limitava a soprar. O fumo que saía do fumigador era insuficiente e pouco depois apagava-se. Outra técnica que a criança fumigadora aprendeu é a reter o máximo de fumo na boca, de forma a expelir maiores quantidades para a atmosfera. &lt;br /&gt;Fumigar é uma tarefa doméstica, embora apresente semelhanças com as queimadas nos campos. É uma tarefa desempenhada por crianças, as únicas que nela encontram maneira de se divertirem. Sopram o fumo para o tecto e observam alegremente as miniaturas de nuvens, fazendo, refazendo e desfazendo criações, recriações e descrições imaginadas. &lt;br /&gt;Mas os acidentes acontecem, principalmente em tarefas que dependem do trabalho infantil. O menino distrai-se e engole o fumo. A rapariga, mais velha do que o irmão, fica estática de pavor. A expressão da criança que engoliu o fumo é fulminada por um êxtase rápido e logo se transforma numa máscara de vácuo. Uma revolução opera-se num organismo, o seu, que ainda lhe é estranho, mas que se manifesta subitamente, de forma caótica e apavorante. O menino regressa de repente a si: tosse, como a caldeira dum vulcão ao cuspir a sua gosma de fogo. Por fim chora, reacção emocional que simultaneamente irriga as vias óptica e respiratória afectadas. &lt;br /&gt;A rapariga ao seu lado, observou tudo e fica confusa numa amálgama de medo, perigo e curiosidade: E se for bom – questiona-se ela – mesmo que por um segundo? Meio segundo já é melhor que nada, e tudo pode ser eterno num segundo, principalmente no cérebro arejado duma criança, cheio de neurónios desabitados e extáticas experiências nunca vividas. A rapariga acende o fumigador. Ateia-o numa inspiração, abre a traqueia e expulsa lá de dentro... &lt;br /&gt;Escuta lá miúda, diz-me uma coisa: o que é que estava dentro do fumo? &lt;br /&gt;“Um comboio”  &lt;br /&gt;Um comboio de fumo. Não viu tudo, como o rapaz, mas apenas um comboio. Os neurónios não se acenderam todos, apenas alguns ficaram iluminados, na forma de muitas carruagens a perfurarem um túnel no vácuo. Ainda há um instante dentro de si, dando a sensação de um brinquedo, o comboio é agora uma imagem à sua frente. &lt;br /&gt;Por trás do fumo insinua-se uma temível projecção: a de um comboio gigante, que quer voltar para dentro dela, apesar do tamanho ser desproporcionado. Nessa noite não volta a fumigar. Este acto temerário doravante representa um pequeno passo para o fumigador, mas um grande salto para o surgimento do fumador.&lt;br /&gt;O menino que fumou inadvertidamente tão cedo não voltará a querer repetir uma experiência tão assustadora. Por seu lado, a rapariga que fumou em consciência não voltará a fumigar como antes. Ela sabe agora do fascínio (que experimentou) e do perigo contido no fumo (observado no menino). Identifica-se com os insectos e questiona-se sobre a possibilidade de retirarem algum bem da fumigação (à semelhança do comboio que avistou ao inalar). &lt;br /&gt;Embora se exponha aos malefícios já identificados no irmão, precisa de experimentar outra vez, não só para iluminar com outras imagens mais alguns neurónios em branco, mas também para tentar perceber que imagens ocorrerão ao insecto fumigado. Ambos partilham imagens, mas à distância de quantas dimensões? As imagens da criança são ópticas (o fumo do comboio), as da barata olfácticas (o fumo da planta queimada).&lt;br /&gt;Quinta cena: plano aproximado de um carril, atravessado pelas rodas de um comboio. A deslocação do ar agita as plantas que crescem junto às tábuas. Entre a gravilha que rodeia o carril, beatas de cigarro.&lt;br /&gt;Caso venham a tornar-se fumadoras, o menino arrisca consumir-se, como um doente viciado no veneno que lhe tira a saúde, enquanto a rapariga pretende consumar essa imagem que lhe dá acesso à outra dimensão, a dimensão que está do lado da experiência do outro (e esse outro pode ser um menino engasgado ou uma barata que muda de rota). &lt;br /&gt;Tudo é fugaz, os insectos mais ainda. O sentimento de ausência não só define um saudoso coração amputado de companhia, como distrai e por fim faz esquecer uma esperançosa carreira entomológica. Quanto mais envenenada de substâncias tóxicas estiver a composição do cigarro, maior será a vontade do fumador em exterminar o insecto desconhecido. Por outro lado, se o tabaco for aromático e o papel de boa qualidade, o perfume que se expande no ar irá agradar ao desconhecido a cujas imagens ele quer aceder.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/2756344929491019346-2420262113225412865?l=reinucatalao.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://reinucatalao.blogspot.com/feeds/2420262113225412865/comments/default' title='Enviar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://reinucatalao.blogspot.com/2011/02/arte-perdida-da-fumigacao.html#comment-form' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/2756344929491019346/posts/default/2420262113225412865'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/2756344929491019346/posts/default/2420262113225412865'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://reinucatalao.blogspot.com/2011/02/arte-perdida-da-fumigacao.html' title='a arte perdida da fumigação'/><author><name>Roberto de Deus Silvestre</name><uri>http://www.blogger.com/profile/09466075506706355107</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-2756344929491019346.post-5154619657249997898</id><published>2011-02-17T19:15:00.000+02:00</published><updated>2011-02-17T19:16:24.402+02:00</updated><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='Roberto de Deus Silvestre'/><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='segunda série de frOnteira Óptica'/><title type='text'>a ilha do povo Dogonutee</title><content type='html'>Muito antes da febre ocidental pelas descobertas marítimas, época que viu os cartógrafos numa azáfama rectificativa comparável aos anúncios e desmentidos das publicações de actualidades, já os poetas e cronistas se deixavam influenciar pela vocação lendária dos marinheiros. Citando uma carta de navegação redigida por um argonauta em -500AT, o cronista espanhol Jeruaz Castrobaldo faz alusão a um arquipélago constituído por duas ilhas, localizado a Oeste dos Açores, no mesmo paralelo. A publicitação dos escritos referentes a esta descoberta foi escassa e desprovida de inspiração literária, razão pela qual não chegou a merecer uma entrada em nenhuma das edições do Dictionary of Imaginary Places, de Alberto Manguel e Gianni Gadalupi. Uma leitura comparada dalguns relatos, dispersos por várias regiões costeiras da Europa, leva-nos a concluir que durante o Inverno a ilha do norte ganhava um terço de terra ao mar, quase ficando ligada à sua ilha irmã, que ficava a Sudoeste. Durante o resto do ano, a ilha do sudoeste desenvolvia uma cauda de terra que subia pelo mar, desviava para Este e quase tocava na região mais a Norte da ilha sua irmã. &lt;br /&gt;De acordo com as mnemónicas, ladainhas entre o canto e a narrativa de histórias ancestrais que passaram de geração em geração entre os descendentes do povo ameríndio Dogonutee, a ilha, a que chamavam “o suplício do homem dogonutee e a próxima vida”, era uma só, mas a água separava-a em duas parcelas de terra, para que os espíritos dos mortos não se deixassem confundir com os dos vivos. O corpos do morto era enviado dentro duma piroga a arder, para que o espírito se libertasse mais facilmente. Misturando-se com o fumo, chamado a “dança do céu”, os espíritos elevavam-se nos ares e ficavam a observar a vida deixada para trás. &lt;br /&gt;Termos arcaicos, utilizados para diversos utensílios náuticos e domésticos, apontam hoje para uma permuta lexical entre os pescadores bascos e o povo Dogonutee. Sem que a história tivesse feito o relato, habitantes destes dois povos terão entrado em contacto. De acordo com a lenda basca, o nome da ilha foi abreviada para Dogonutia e, secundando a opinião dos Dogonutee, foram os primeiros europeus a afirmar que era uma só: as suas embarcações aportavam numa bacia que dava acesso a ambos os lados da ilha, para se proverem de água doce e algas marinhas (muito ricas em proteínas, cálcio e magnésio, nutrientes preciosos em viagens duradoiras). &lt;br /&gt;Os navegadores portugueses não quiseram aproximar-se da Ilha da Denúncia (assim lhe chamaram, num abastardamento homofónico do nome basco; mas como também as inverdades acabam por encontrar um caminho em direcção aos factos, uma superstição entre as gentes do mar levou-os a crer que todos os que acostassem na ilha eram denunciados aos sicários de Adamastor). Para os cépticos tratava-se duma ilusão óptica, provocada por nuvens densas e baixas, o que pode ser explicado pela incineração de cadáveres levada a cabo pelos Dogonutee, sob o efeito da pressão atmosférica. À cautela, mantinham-se ao largo. Temiam que a ilha, a existir, estivesse inundada e desconfiavam da existência de baixios, arriscando naufragarem as suas embarcações de cascos fundos. &lt;br /&gt;Os holandeses apelidaram-na de Dough Noote e os tripulantes das suas frotas mercantis, a acreditar nas breves menções que lhe fazem em alguns relatos, deram pouca importância a uma parcela de terra com uma parte inundada e outra coberta de ossos. &lt;br /&gt;Desde que o arquipélago deixou de ser avistado e os relatos que dele se conheciam passaram a ser feitos citando os pouco fiáveis tripulantes de navios piratas, a sua localização foi posta em causa. A descoberta da América e o subsequente aumento do tráfego naval no Atlântico veio reforçar a tese de que não passava de uma pálida invenção. A sua existência acabou por ser definitivamente desacreditada e só a metáfora literária encontrou uma linha de crédito para entrar no arquipélago fantasma.&lt;br /&gt;Deste lado do Atlântico, a fé de inspiração ameríndia também se encontra em perda. Podemos falar nas dimensões unificadas da separação, o que faz pensar num jogo de palavras, ou num péssimo uso das mesmas. Na costa do extremo-ocidente europeu um país demasiado velho para ter futuro e demasiado pequeno para ter passado resiste à desagregação. Esta duas improbabilidades foram resolvidas com um exercício histórico muito engenhoso, que consistiu numa abertura ao mundo pensando no país (enquanto futuro) e fechando-se no país pensando no mundo (enquanto passado). Esta assunção da identidade deve ser atribuída a uma manifestação desconcertante, a de que o mundo não é tão grande que não possa vir a ser descoberto (como foi, pelo país), nem o país tão pequeno para impedir que se torne desconhecido (como é, pelo mundo).&lt;br /&gt;A disposição antropomórfica do território assemelha-se a um rosto de perfil (queixo mediterrânico, fronte atlântica, lábio leporino entre as fossas nasais do Tejo e a boca do Sado). De costas para a Europa e de frente para o mar, enforma a sua relação com o saber: a terra firme é ignorada, a terra móvel é invocada. É um país que na angústia de ser tomado pela Europa se lançou ao mar e quando se viu assoberbado pelo isolamento se voltou para a Europa. Entre as duas opções cresceram zonas de sombra: o contacto com a terra estranha, o conhecimento de gente desconhecida. O país, sob a forma de pessoas sem outra identidade que não a obsessão pelo país, ama-se a si mesmo, mas não se perdoa o estado de abandono a que votou o interesse pelo outro. A dívida amorosa foi o que reconheceu na Ilha da Denúncia.&lt;br /&gt;Quem habita afinal estas ilhas, ou esta ilha? Com a sua dispersão pelo continente americano, o povo Dogonutee deixou de comunicar entre si as diversas parcelas de histórias ancestrais preservadas de pais para filhos, e não há primos, vizinhos ou conterrâneos para complementar a sua visão do passado numa perspectiva mais ampla.  Poupou-nos assim a uma descoberta insuportável: a impossibilidade de viver no conhecimento da fé (que é a esperança no mistério, não o fim da viagem). &lt;br /&gt;Os Dogonutee julgavam ser a célula de deus. Decorria da sua vontade libertá-lo. Ambicionavam destruir a cadeia em que a criação divina estava encerrada, mas as famílias deste povo foram separadas e deixaram de partilhar as diversas parcelas da sabedoria contida numa história completa. Resta-lhes aceder a uma célula menos vergonhosamente prisioneira numa próxima vida, o que deixa frustrado quem ainda não morreu. Durante a preparação, a sua crença anima-os a renovarem o sentido de liberdade contido no passado. Quando desaparecerem levarão consigo a divindade em que estavam contidos.&lt;br /&gt;Quanto mais ténue e frágil é a demora da vida (os corpos que a encerram), menos densa é a trama da criação por libertar. Entre o ser que ambiciona viver mais anos do que os anos que pode contar e o ser que procura encurtar a duração dos seus trabalhos em vida, estamos à distância do vagar para a pressa. Os primeiros perdem-se no caminho, são alegres e distraídos. Os segundos, obstinados com a sua visão, só querem encontrar a chegada. &lt;br /&gt;Os descendentes do povo dogonutee acreditam que a união com os mortos dará lugar a um mundo de novos povos. Devem agradecer à ignorância nunca terem desconfiado do que veio a acontecer ao mundo do seu povo. A ânsia de dispersar a criatividade (deus está em toda a parte) gerou as condições para a vinda de outros povos, identificados sob a fórmula poética “aquele que ensombra a minha solidão”. &lt;br /&gt;A ilha dos mortos do povo Dogonutee regressa agora ao território da metáfora espelhada. Seguem-se imagens de formigas carregando mercadorias numa pressa desenfreada, feita de ultrapassagens e choques frontais. Escaravelhos contornam habilmente a encosta duma duna. Na superfície lisa do areal durante a maré baixa, pulgas saltam do interior de minúsculas crateras, onde pássaros de andar cómico enfiam os seus bicos pontiagudos, em busca de comida. Colados a formações rochosas, pólipos e cirrípedes (os perceves de que tu tanto gostas) balouçam ao ritmo da corrente. Pés descalços são molhados pelas ondas. A maré volta a encher. Chinelos são arrastados ao longo do areal. Uma onda faz uma revolução, desfazendo no seu interior uma multidão de partículas sólidas em partículas ainda mais específicas. A espuma invade a atmosfera.&lt;br /&gt;Eis Jaime, amigo dos ameríndios. O seu corpo é-lhes entregue para o ritual fúnebre. Com ele, a ilha desaparece de vez, deixando em seu lugar uma antiga caderneta da colecção West (“a verdadeira história dos índios”). O rectângulo correspondente ao cromo 141, metade do díptico “Um grande orador”, está vazio. O “velho sonho” de reunificação, a que alude o capítulo correspondente da caderneta, fica por enquanto interrompido. &lt;br /&gt;O que foi dado não é adquirido, o que foi adquirido perdeu-se. A reunião dar-se-á quando for recriada essa mesma realidade que resultou da perfeição do que foi vivido e que nenhum exílio deixa esquecer. É terrível aceitar que o aperfeiçoamento não extinguiu a separação, dividiu-a somente em parcelas menos dolorosas. Como um pano de croché que visto de muito perto, fio por fio, revela não estar ligado, antes desliza por nós e pontos, de acordo com formas geométricas que o compõem. Acaba sempre por restar uma ponta solta, amputada da sua continuação.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/2756344929491019346-5154619657249997898?l=reinucatalao.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://reinucatalao.blogspot.com/feeds/5154619657249997898/comments/default' title='Enviar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://reinucatalao.blogspot.com/2011/02/ilha-do-povo-dogonutee.html#comment-form' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/2756344929491019346/posts/default/5154619657249997898'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/2756344929491019346/posts/default/5154619657249997898'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://reinucatalao.blogspot.com/2011/02/ilha-do-povo-dogonutee.html' title='a ilha do povo Dogonutee'/><author><name>Roberto de Deus Silvestre</name><uri>http://www.blogger.com/profile/09466075506706355107</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-2756344929491019346.post-9032869890807838142</id><published>2011-02-15T13:25:00.000+02:00</published><updated>2011-02-15T13:28:50.233+02:00</updated><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='Roberto de Deus Silvestre'/><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='segunda série de frOnteira Óptica'/><title type='text'>mais perguntas para um concurso televisivo</title><content type='html'>Em Don’t talk (put your head on my shoulder), quarto tema do álbum Pet Sounds, de 1966, quando se escuta “come close, close your eyes and be still, don’t talk, take my hand and let me hear your heartbeat”, devemos entender uma alocução:&lt;br /&gt;a. à namorada do cantor&lt;br /&gt;b. ao fantasma do cantor&lt;br /&gt;c. a quem o quiser ouvir&lt;br /&gt;A primeira resposta está errada porque o cantor acabou entretanto com a namorada; a segunda resposta está errada porque sendo o cantor um fantasma está na sua natureza não entrar em cantigas com outros fantasmas e muito menos escutar-lhes o bater do coração; a terceira resposta também está errada porque independentemente de o quererem ou não ouvir, ninguém pode assegurar que o ouve de facto, já que se trata dum fantasma. Sendo assim, bloqueamos esta pergunta e passamos à praia, perdão, à pergunta referente ao quinto tema, que se chama&lt;br /&gt;a. God only knows what I’d be without you&lt;br /&gt;b. God only knows what I’ve been without you&lt;br /&gt;c. God only knows what I am without you&lt;br /&gt;Cada uma das opções é fiel ao sentimento da canção, em nenhum caso contradizendo as outras duas. Infelizmente, não podemos aceitar como correcta, nem a primeira resposta, nem a segunda, nem a terceira e a razão, embora maldosa, é simples: porque o tema chama-se God only knows (o que é uma depravada mentira, mas para o caso pouco importa) e porque se trata não da quinta, mas da oitava faixa do álbum. Passemos à terceira e última pergunta. No tema I just wasn’t made for these times, cujo refrão é “sometimes I feel very sad”, a que tempos se refere a canção (a, b ou c) e qual é o sujeito da inadequação a esses tempos (d, e ou f) ? Para acertar na resposta certa o concorrente tem nove opções, já que as respostas a, b, c devem ser conjugadas com as respostas d, e, f.&lt;br /&gt;a. ao tempo da chuva, terrível para ir à praia&lt;br /&gt;b. à época que então se vivia&lt;br /&gt;c. aos períodos em que estava deprimido, sem conseguir suportá-los&lt;br /&gt;d. o cantor que interpreta a canção&lt;br /&gt;e. o compositor que fez a música&lt;br /&gt;f. o letrista que escreveu a letra&lt;br /&gt;As respostas d, e, f estão erradas porque o cantor, o compositor e o letrista, querendo ou não, gostando ou não, aceitando ou não, foram feitos por aquele tempo. As perguntas a, b, c estão correctas e podem combinar-se da seguinte maneira: ab, ac, bc. Infelizmente estas combinações vão contra as regras.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/2756344929491019346-9032869890807838142?l=reinucatalao.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://reinucatalao.blogspot.com/feeds/9032869890807838142/comments/default' title='Enviar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://reinucatalao.blogspot.com/2011/02/mais-perguntas-para-um-concurso.html#comment-form' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/2756344929491019346/posts/default/9032869890807838142'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/2756344929491019346/posts/default/9032869890807838142'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://reinucatalao.blogspot.com/2011/02/mais-perguntas-para-um-concurso.html' title='mais perguntas para um concurso televisivo'/><author><name>Roberto de Deus Silvestre</name><uri>http://www.blogger.com/profile/09466075506706355107</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-2756344929491019346.post-9181877765334475616</id><published>2011-02-14T19:51:00.000+02:00</published><updated>2011-02-14T19:52:13.078+02:00</updated><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='Roberto de Deus Silvestre'/><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='segunda série de frOnteira Óptica'/><title type='text'>perguntas para um concurso televisivo</title><content type='html'>No refrão da última faixa do seu primeiro álbum a solo, Stephen Malkmus canta: &lt;br /&gt;a. you took me far to the long ride&lt;br /&gt;b. you took me far to the long rhyme&lt;br /&gt;c. you took me far to the long line. &lt;br /&gt;Não me ocorre nada a não ser a vontade de escrever e como fazer outra coisa não estando contigo? Sou demasiado preguiçoso. Fossem as nossas vidas determinadas por sinais de alarme e em cada linha que avanço não deveria reconhecer em ti uma vocação, nem tão pouco o dom que me proporcionou recompensas fúteis, mas a incompreensível admoestação dum tempo de espera em que o esforço se reduz agora a alcançar paisagens distantes, gastas e depressa cansativas. Não estás aqui, de pouco serve completar-te. Uso os atributos do desenhador que à falta de modelo se agarra a pormenores que decompõem a miragem duma ausência desoladora. Não. A inutilidade mede-se em palavras. São tantas as que me ocorrem quando tardo em resolver o mistério que nos afasta. Os momentos vividos, mesmo havendo abundância de provas, testemunhos e até alguns registos materiais, servem para aumentar um sentimento de perda, de energia desperdiçada e que só foi atribuída para nela reconhecer o meu frustrado poder de decisão repleto de desejos fulgurantes e ocasiões oportunas, mas desprovido de capacidade para agir. Reagir. Um telefonema, uma caminhada, um encontro para mais tarde, um frente-a-frente entre um aparelho de televisão e um sofá a sonhar com uma vida. Uma ilusão de carícias, preciosismos afectuosos, afeições inesperadas, uma comoção presa por algemas, afinidades apanhadas em flagrante, afectações dum espírito caprichoso. Devaneio, dissipação, aparas espiraladas de lápis e finíssimos rolos de borracha gasta. A luz eléctrica consome o que resta da noite consumada, o aquecimento, para já, completa um quadro de conforto de que tu não fazes parte e de que eu, a esta hora, não posso esquivar-me. A resposta certa torna-se impossível porque:&lt;br /&gt;a. não corro para ti, nem escuto os meus passos apressados&lt;br /&gt;b. não rimamos juntos e não ouço a tua voz&lt;br /&gt;d. a linha quebrou-se e a próxima folha está em branco&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/2756344929491019346-9181877765334475616?l=reinucatalao.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://reinucatalao.blogspot.com/feeds/9181877765334475616/comments/default' title='Enviar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://reinucatalao.blogspot.com/2011/02/perguntas-para-um-concurso-televisivo.html#comment-form' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/2756344929491019346/posts/default/9181877765334475616'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/2756344929491019346/posts/default/9181877765334475616'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://reinucatalao.blogspot.com/2011/02/perguntas-para-um-concurso-televisivo.html' title='perguntas para um concurso televisivo'/><author><name>Roberto de Deus Silvestre</name><uri>http://www.blogger.com/profile/09466075506706355107</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-2756344929491019346.post-8506892937476296026</id><published>2011-02-13T05:09:00.002+02:00</published><updated>2011-02-13T05:10:12.993+02:00</updated><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='Roberto de Deus Silvestre'/><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='primeira série de frOnteira óptica'/><title type='text'>o primeiro dos homens</title><content type='html'>Depois de passar a noite anterior a confraternizar com os alcoólicos do bairro no Ó Arcaz, Jaime Roque anunciou na manhã seguinte, ao pequeno-almoço, que tinha feito conhecimento com “o primeiro dos homens”. “Não tem umbigo”, perguntou-lhe a irmã, enquanto punha na torradeira uma fatia de pão com um buraco ao meio. “Tinha que idade”, perguntou a mãe, que contava no calendário o número de dias que faltavam para lhe chegar a menstruação. “Como é que se chamava”, perguntou-lhe o pai, enquanto vertia o café para a caneca de mestre Vaquinhas. “Não sei”, respondeu. “A primeira coisa que lhe ouvi dizer foi já não há homens, quando pedi meio copo de cerveja. Depois de esvaziar o copo apeteceu-me beber mais e ele serviu-me o que restava na garrafa. O trabalho dele é registar a entrada de medicamentos numa espécie de armazém distribuidor e depois receber os pedidos de encomenda das farmácias. Disse que ganha muito bem, que é um excelente emprego, só trabalha seis por dia e ganha 40 contos nos dias de folga em que fica de serviço. Contou-me que os miúdos são os principais consumidores de viagra. E contou uma anedota de que ninguém se riu. E também contou que comia camarão todos os dias num bar de alterne e depois deixou de lá ir e já ninguém comeu o camarão e o dono levou um enxerto e sem ele aquilo virou um perigo. E dizia ‘isso para mim é cona’, quando queria mostrar-se repugnado. E prontificou-se a arranjar remédios a preços de produtor. E usava um tubo com gás mostarda dentro. E passou o tempo a tentar vangloriar-se de cometer actos de corrupção. E depois foi vender comprimidos para as discotecas. Já não há homens, disse antes de partir. Vou escrever uma canção sobre ele. Vai chamar-se “O Primeiro dos Homens”. “Já tens o refrão, perguntou-lhe o pai, enquanto demolhava um papo-seco no café com leite. “Só alguns versos”, respondeu Jaime Roque, que disputava o lava-loiça com a mãe e levou uma ancada que o fez deixar cair a maçã, ainda por lavar.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;É quase igual a toda a gente&lt;br /&gt;vende remédios a quem fica doente&lt;br /&gt;trata da saúde a qualquer irmão&lt;br /&gt;fala de ser corrupto com satisfação&lt;br /&gt;conta anedotas sem nenhuma piada&lt;br /&gt;tem os olhos abertos e não vê nada&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Grande punkalhada”, comentou a irmã, que entrou na cozinha, tirou um iogurte do frigorífico e voltou a sair. “Adequa-se à personagem”, disse esperançoso Jaime Roque para o pai. “Pois, como canção também não vale nada.”&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/2756344929491019346-8506892937476296026?l=reinucatalao.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://reinucatalao.blogspot.com/feeds/8506892937476296026/comments/default' title='Enviar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://reinucatalao.blogspot.com/2011/02/o-primeiro-dos-homens.html#comment-form' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/2756344929491019346/posts/default/8506892937476296026'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/2756344929491019346/posts/default/8506892937476296026'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://reinucatalao.blogspot.com/2011/02/o-primeiro-dos-homens.html' title='o primeiro dos homens'/><author><name>Roberto de Deus Silvestre</name><uri>http://www.blogger.com/profile/09466075506706355107</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-2756344929491019346.post-2231382825014355910</id><published>2011-02-12T03:05:00.000+02:00</published><updated>2011-02-12T03:06:10.611+02:00</updated><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='Roberto de Deus Silvestre'/><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='primeira série de frOnteira óptica'/><title type='text'>até ao canil</title><content type='html'>Farrusco III, orgulhoso cão de linhagem, estava cansado. Não retinha líquidos nem sólidos, desperdiçava-os em evacuações domésticas que o deixavam destroçado, confuso, surpreendido e atrozmente envergonhado. Refugiava-se por trás de cortinas transparentes, sem força para uivar nem para encontrar um esconderijo à medida da sua aristocrática altivez. Era um fino animal de caça que nunca ladrava depois de apanhar a presa. Brincava com as crianças e fazia trinta por uma linha com os adultos. Mandava-os ao chão numa inesperada mudança de direcção, ameaçava um ataque frontal com súbita abordagem lateral, bebericava do copo a quem adormecia na matrona, surripiava o comando depois de mudar de canal, lambia o pudim acabado de sair do fogão, deitava-se em camas acabadas de fazer, esfregava-se num lençol de banho durante a queda do pêlo, engolia o último parafuso duma mesa desmontável, comia o botão de rosa oferecido por um galante à moça solteira lá de casa, desenhava com as patas enlameadas, no átrio acabado de lavar, os passos duma dança só por ele conhecida. Foi também um heróico salvador de crianças temerárias e velhinhos temerosos. Não se apoquentava que os gatos, de barriga cheia, lhe entornassem a gamela. Aceitava o castigo sem pedir festas ao castigador. Perseguia insectos, répteis e pássaros sem procurar recompensa. Cachorro, escondia-se porque era vadio e não abdicava de ser livre. Adulto, escondia-se por malandragem e para assegurar o afecto dos donos. Foi um companheiro em horas de solidão e na hora das festas escapava-se aos convidados que o utilizavam como intermediário para fazerem festas aos donos de casa. A fornicar não descriminou raça ou sexo. Como tantos, fazia buracos no quintal, mas quem antes dele soube ordená-los por talhões? Depois de envelhecer escondia-se para evitar ser esquecido e por fim mal conseguia mexer-se. Não suportava a piedade. Provavelmente exageramos, mas somente para compensar o pudor com que entrou para o banco de trás do carro que o levou ao canil. Sem uma teimosia de última hora, sem desconfiança, sem um olhar pela janela. Jaime em lágrimas sentado a seu lado e Farrusco III num último gesto galhardo, boca fechada e pálpebras descaídas, à janela a sentir o vento nas orelhas. Jaime a tirar-lhe a coleira e Farrusco III numa vénia de rendição. Virou-se para trás antes de franquear a porta e continuou a marcha num esforço culminante. Na viagem de regresso do canil, o patriarca Aníbal São Roque (para quem o adágio “um homem nunca chora” não admite excepções) pediu duas vezes ao neto para não chorar. Antes de pedir uma terceira vez, a voz escapou-se da garganta e só teve tempo de carregar no travão e sair porta fora. Reapareceu cinco minutos depois, com uma expressão militar estudada e uns olhos vidrados.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/2756344929491019346-2231382825014355910?l=reinucatalao.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://reinucatalao.blogspot.com/feeds/2231382825014355910/comments/default' title='Enviar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://reinucatalao.blogspot.com/2011/02/ate-ao-canil.html#comment-form' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/2756344929491019346/posts/default/2231382825014355910'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/2756344929491019346/posts/default/2231382825014355910'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://reinucatalao.blogspot.com/2011/02/ate-ao-canil.html' title='até ao canil'/><author><name>Roberto de Deus Silvestre</name><uri>http://www.blogger.com/profile/09466075506706355107</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-2756344929491019346.post-958390229956224352</id><published>2011-02-11T02:14:00.001+02:00</published><updated>2011-02-12T03:06:57.233+02:00</updated><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='Roberto de Deus Silvestre'/><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='primeira série de frOnteira óptica'/><title type='text'>a pílula</title><content type='html'>Por ocasião do seu aniversário, em que celebrou 18 anos bem feitinhos, Joana Silvestre reivindicou junto da alteridade paternal o direito a tomar a pílula. Após beberem um copo de água (sem efeito), os pais serviram-se do remédio mais alcoólico que encontraram na garrafeira e retiraram-se para a varanda. Conciliaram, dirigiram-se ao escriptorio de Mestre Vaquinhas, concertaram no texto a redigir e entregaram à interessada o decreto, devidamente assinado e carimbado: direito concedido. Joana Silvestre não ficou satisfeita. Era uma ofensa para o seu estatuto de cidadã maior de idade receber permissão para exercer um direito que lhe era reconhecido por lei. Do que ela precisava era do financiamento para instalar um chip-pílula. Não podia arriscar um dia de esquecimento, tão pouco estava disposta a apoquentar-se com mais uma responsabilidade diária. O chip-pílula é introduzido na camada subcutânea do antebraço e já está, oferece garantia por três anos. Os pais voltaram a reunir-se e regressaram à cozinha com duas contrapropostas. Vera São Roque ofereceu-lhe a sua colecção de preservativos com sabor frutado e um lubrificante. Roberto de Deus Silvestre, por seu lado, presenteou-a com um manual técnico de sexo tântrico, com uma nota introdutória da sua autoria acerca da interrupção do coito, truques para evitar ejaculações e agir de forma célere, acrescentando ao generoso cabaz anticoncepcional uma medalha de ouro com a efígie da virgem, para dar sorte. Joana Silvestre foi aos arames. Levantou-se da cadeira da oposição, acusou o governo doméstico de manobras de diversão e ameaçou terminar a fase de tréguas, passando ao acto sem mais aquela. Jaime Roque, que tinha passado a sessão de debate a reflectir sobre a melhor estratégia para retirar dividendos de um eventual precedente relativo à fazenda doméstica, gritou apoiado e coligou-se com a irmã. Também ele pretendia um chip, apesar de não estar certo da sua existência no mercado. Advogava o princípio de paridade: no seu aniversário pretendia um chip com a enciclopédia britânica e um dicionário de mandarim, de preferência acoplado no pénis para alargar o tamanho e torná-lo mais competitivo. Vera São Roque, num acesso de espontaneidade, precipitou-se com um “vão trabalhar malandros”. Mais sensível ao espírito de independência dos filhos, que compreensivelmente preferiam a dependência de subsídios a fundo perdido a terem de subjugar-se à exploração do mercado de trabalho, Roberto de Deus Silvestre desencantou do bolso traseiro das calças uma nota de cinco euros e mandou-os comprar gelados.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/2756344929491019346-958390229956224352?l=reinucatalao.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://reinucatalao.blogspot.com/feeds/958390229956224352/comments/default' title='Enviar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://reinucatalao.blogspot.com/2011/02/pilula.html#comment-form' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/2756344929491019346/posts/default/958390229956224352'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/2756344929491019346/posts/default/958390229956224352'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://reinucatalao.blogspot.com/2011/02/pilula.html' title='a pílula'/><author><name>Roberto de Deus Silvestre</name><uri>http://www.blogger.com/profile/09466075506706355107</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-2756344929491019346.post-6316478326400414897</id><published>2011-02-09T19:15:00.002+02:00</published><updated>2011-02-12T03:11:43.638+02:00</updated><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='Roberto de Deus Silvestre'/><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='primeira série de frOnteira óptica'/><title type='text'>dia da mãe</title><content type='html'>Atacado por uma febre que lhe devorou em vinte e quatro horas as mil e quinhentas gramas que tinha ganho no campo, em casa dos avós maternos, o convalescente Jaime Roque passou a manhã deitado na cama, recusando-se a comer e a lavar-se das toxinas malcheirosas transpiradas durante a noite. Às três da tarde abandonou o quarto. Sentou-se na varanda, a mordiscar rodelas de pepino e fatias de pão barradas com manteiga e marmelada, e a observar numa atenção hipnótica as flores que tinham rebentado nos vasos. Sem dizer ai, refugiou-se na casa de banho, forçando o esquentador a produzir meia hora de água quente. Encavalitada no braço do sofá, Joana explicava à mãe o presente que lhe tinha construído (um insectário de formigas que tinham de atravessar um labirinto para chegar à comida). A mãe deu-lhe um beijo, levantou-se e pendurou o insectário na parede ao lado da porta da varanda, onde se encontrava um camarão sem uso, desde que se partira o espelho. Jaime reentrou na sala em cuecas e sentou-se à frente da irmã. A mãe ajoelhou-se aos pés dele e segurou-lhe nas mãos, assentes sobre as pernas magras e compridas, onde começava a despontar uma fina penugem, que o último raiar da tarde acobreava. Jaime levantou-se e trocou de lugar com a mãe, deu dois passos atrás e o ombro nu ficou recortado num feixe de luz que entrava pela porta da varanda. Fixando um ponto algures no corredor em frente, declamou para a assistência o poema em sua homenagem.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A minha linda mãe&lt;br /&gt;Polvilhada do pólen&lt;br /&gt;Que o meu pai largou&lt;br /&gt;Deu-me à luz no Alcalém &lt;br /&gt;Através de pétalas&lt;br /&gt;Que ninguém contou&lt;br /&gt;[pausa; retomar de fôlego]&lt;br /&gt;E se no mundo houver mães&lt;br /&gt;Como as flores polenizadas&lt;br /&gt;Que sejam os filhos&lt;br /&gt;A trazer o amor&lt;br /&gt;E não os homens&lt;br /&gt;Por quem foram desfolhadas&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Impressionada pela eloquência do irmão, Joana perguntou o que queria dizer desfolhadas. Não se tendo apercebido do décimo verso, o pai duvidava da possibilidade científica dos filhos desfolharem as mães. Vera tinha o rosto lavado em lágrimas. Quando Jaime se levantou do sofá, apercebeu-se de uma nódoa negra que o filho tinha junto às virilhas (provocada pelo quadro da bicicleta do avô, que era alta de mais para ele: como não chegava com os pés ao chão, uma travagem brusca equivalia a escorregar do selim). Enquanto ele avançava no poema, numa trepidante voz infantil, sem entoação nem equilíbrio, a ela ocorriam-lhe os caminhos inseguros que ele tinha escolhido, o esforço das suas pernas miúdas a pedalarem e a tenacidade com que lhe recitava o poema, sem um único queixume.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/2756344929491019346-6316478326400414897?l=reinucatalao.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://reinucatalao.blogspot.com/feeds/6316478326400414897/comments/default' title='Enviar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://reinucatalao.blogspot.com/2011/02/dia-da-mae.html#comment-form' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/2756344929491019346/posts/default/6316478326400414897'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/2756344929491019346/posts/default/6316478326400414897'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://reinucatalao.blogspot.com/2011/02/dia-da-mae.html' title='dia da mãe'/><author><name>Roberto de Deus Silvestre</name><uri>http://www.blogger.com/profile/09466075506706355107</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-2756344929491019346.post-6980764875280213963</id><published>2011-02-08T19:39:00.001+02:00</published><updated>2011-02-12T03:12:29.292+02:00</updated><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='Roberto de Deus Silvestre'/><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='primeira série de frOnteira óptica'/><title type='text'>pequeno slam</title><content type='html'>A final do torneio de ténis de Calem terminou ontem no court À-Sombra-da-Ameixoeira-das-Traseiras sem vencedor. O jogo entre João Roque e Joana Silvestre foi interrompido quando se registava um empate (parciais de 7-5 e 4-6) e a taça destinada ao vencedor, uma magnífica peça em vidro de fabrico industrial, foi utilizada pelo árbitro para emborrachar-se. &lt;br /&gt;A interpretação das leis do jogo foi o motivo de discórdia. Joana Silvestre, vestindo uma saia verde-alface e uma camisola branca com buracos nos ombros e nas costas, não concordou com a perda de um ponto em que mandou a bola fora, uma vez que o adversário estava em posição de jogá-la (com este ponto Jaime Roque quebrou o serviço de Joana Silvestre). Jogando com o equipamento oficial do Atlético de Calem (camisola às listas amarelas e azuis, peúgo vermelho), Jaime Roque não gostou de ver validada uma bola de serviço de João Silvestre que pisou a marca de fundo. Segundo ele, as bolas devem ser batidas no interior do court e não nos limites (com este arriscadíssimo ás, ainda no primeiro set, João Silvestre reduziu para 5-6).&lt;br /&gt;O conflito azedou no início da jogada seguinte. Jaime Roque serviu para fora pela segunda vez, mas João Silvestre bateu na bola, para evitar que saísse do court. Jaime Roque protestou a perda do ponto, acrescentando que a ausência de apanha-bolas, e a perda de tempo em andar à procura delas, não era motivo suficiente para quebrar as regras. O árbitro registou a sua queixa, mas deu o ponto a João Silvestre. Em retaliação, Jaime Roque serviu ostensivamente para fora do court. Embora lhe restasse uma segunda bola no bolso dos calções, para a segunda tentativa de serviço, o árbitro obrigou-o a ir à procura da primeira. Usando de cautela, Jaime Roque voltou a servir, mas a adversária subiu à rede e acertou-lhe na cabeça. O árbitro marcou 0-30 a favor de João Silvestre e ignorou a desculpa sem fundamento de Jaime Roque, que disse ter dado uma cabeçada para impedir a bola de perder-se nas silvas. O magnífico amorti com que João Silvestre quebrou a terceira bola de serviço ao adversário teve no entanto um efeito inesperado no desenlace do ponto. &lt;br /&gt;A graciosidade com que a tenista chegou à bola (uma enérgica passada que lhe levantou a saia acima da coxa), revelou-lhe a cor das cuecas (um rosa velho, por sinal bem bonito). Numa demonstração de mau desportivismo, Jaime Roque caiu ao chão, com uma crise de riso. O árbitro exigiu que o tenista retomasse o lugar junto à linha de fundo, mas não conseguiu evitar um sorriso comprometedor, ao reparar na presença de espírito com que João Silvestre, antes de baixar a saia, acertou o elástico das cuecas. A tenista aproximou-se do árbitro por causa do atraso que estava a ser provocado pelo adversário, mas a veemência do seu protesto, a fúria nos seus olhos escuros e a boca ternurenta, humedecida por uma língua reguila, causaram um tal fascínio no árbitro que este não conseguiu evitar aproximar-se do seu rosto e arrancar-lhe dois fios de cabelo presos à pálpebra do olho esquerdo. &lt;br /&gt;As consequências deste acto irreflectido foram dramáticas. Jaime Roque alegou perda de confiança no árbitro e João Silvestre acusou o juiz de “paternalismo machista”, tentativa de “assédio sensual”, “contacto corporal de facto”, “falta de decência” e “abuso de confiança” (ufa). Os protestos tiveram como resultado a perda de concentração. João Silvestre desperdiçou três break-points e ofereceu o primeiro set ao adversário, perdendo por 5-7.&lt;br /&gt;No segundo set, Jaime Roque chegou facilmente a 4-0. O primeiro jogo, com Silvestre a servir, demonstrou bem a sua desconcentração: oito bolas de serviço mandadas para fora. Chegados ao quinto jogo, Jaime Roque abriu com três ases e preparava-se para fechar o quinto ponto quando se aproximou do court um dueto de gandulas acompanhado de uma colega de João Silvestre. Estava destinado que também Jaime Roque haveria de passar por um teste de confiança. Os assistentes do sexo masculino reprovaram a disputa entre atletas de sexo diferente e o árbitro não conseguiu evitar os risos, os dedos apontados e os gritos de incitamento. Jaime Roque tentou fazer mais um ás e desperdiçou seis bolas de serviço, permitindo que Silvestre empatasse o jogo sem precisar de mexer-se. A sétima bola entrou no quadrado de serviço, Joana respondeu com displicência, a bola tocou na rede e Jaime Roque chegou atrasado. Vantagem para Silvestre. Jaime Roque voltou a servir com vigor e Joana mal teve tempo de encostar a raquete. A bola descreveu um arco e foi cair mesmo ao canto da linha, quando Jaime Roque se aproximava da rede: jogo para Silvestre, protesto do adversário.&lt;br /&gt;Com o set em 4-4, depois duma espectacular recuperação de Silvestre, Jaime Roque continuou a insistir em serviços com efeito (com o trio da audiência a gritar “fora!”). A perder por 0-40, a sétima bola de serviço entrou, Silvestre respondeu sem complicar e Jaime escorregou (risos na bancada). Vermelho de cólera, fez um serviço válido, Silvestre devolveu a bola e Jaime voltou a tropeçar: uma das sapatilhas tinha os cordões desatados. 4-5.&lt;br /&gt;Silvestre aproveitou o intervalo para ir conversar com a colega (Jaime Roque tapou a toalha com a cabeça para limpar as lágrimas – perdão – o suor). Rodeando a tenista, os dois gandulas calaram-se, o mais alto olhou para o cúmplice e este afastou a franja da testa num movimento de pescoço que lhe terá parecido muito casual e que João ignorou, entretida que estava a arrancar com a ponta da raquete uma pedra entalada na sola do ténis). Com um sorriso, que a transpiração fez brilhar em cintilações rosadas nas bochechas, despediu-se da colega e acenou um “tchau” aos gandulas. Os três foram embora e o jogo recomeçou. &lt;br /&gt;Joana Silvestre fez 30-0 em duas subidas à rede e conseguiu ainda um ás inexplicável, já que Jaime Roque estava na linha da bola. Queixando-se dum cisco no olho, Jaime Roque pediu a repetição da jogada. Pedido recusado. João Silvestre serviu uma última vez e o adversário deu dois passos tão rápidos que chegou ao lugar antes da bola. Com tempo para preparar o tiro, Jaime Roque disparou com tanta força ao ponto de dar meia volta e cair sobre a perna. A irmã ficou imóvel, com a ponta da raquete a tocar-lhe na canela. A bola saiu para fora pela linha lateral. “Não vale, aleijei-me”, rosnou Jaime Roque, agarrado ao joelho. “Jogo. 6-4 favorável a Joana Silvestre, 1-1, vai-te lixar”, respondeu o árbitro, que desceu da cadeira e tirou o chapéu de sol, antes de acabar o vinho que sobrava na taça. “Estou ferido, o que é que pensas?” “Levanta-te e vai buscar a caixa dos medicamentos.” “Vou eu”, prontificou-se João Silvestre. “Sim, vai tu”, concordou o árbitro, “Brinca com ele, tu és a paramédica e ele o paradoente. “E tu és o paraquê?”&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/2756344929491019346-6980764875280213963?l=reinucatalao.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://reinucatalao.blogspot.com/feeds/6980764875280213963/comments/default' title='Enviar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://reinucatalao.blogspot.com/2011/02/pequeno-slam.html#comment-form' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/2756344929491019346/posts/default/6980764875280213963'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/2756344929491019346/posts/default/6980764875280213963'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://reinucatalao.blogspot.com/2011/02/pequeno-slam.html' title='pequeno slam'/><author><name>Roberto de Deus Silvestre</name><uri>http://www.blogger.com/profile/09466075506706355107</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-2756344929491019346.post-7107450134496918569</id><published>2011-02-07T19:01:00.002+02:00</published><updated>2011-02-13T05:10:59.183+02:00</updated><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='Roberto de Deus Silvestre'/><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='primeira série de frOnteira óptica'/><title type='text'>msg: primeiras imagens</title><content type='html'>O vaivém Bañeira I, a bordo do qual se encontram os astronautas nudistas Jaime e Joana Oque, emitiu hoje as primeiras imagens do espaço, na órbita da terra. Com a ajuda do comandado Jaime Oque, cujos olhos serviram de espelho reflector, a comandante da Missão Sem Grão captou imagens com grande nitidez de anti-partículas que copiam acontecimentos em terra. Embora estas anti-partículas se dispersem umas das outras ao entrarem no espaço orbital, a proximidade a que o vaivém se encontra da fronteira com a atmosfera permitiu a Joana Oque reproduzir na sua câmara Ma’Laika uma série de ocorrências que, depois de terem lugar em terra, se anti-materializam. Com a ajuda de uma lente convexa, que permite ampliações em grande escala, Joana Oque fixou a câmara no globo ocular esquerdo do comandado Jaime Oque, imobilizado em frente a uma escotilha. As primeiras imagens recebidas pela agencia Aeiou, que o Canal Neo-Espacial transmite em primeira mão, são por enquanto de curta duração (entre 4 e 9 segundos por cada plano). Tal deve-se à grande dificuldade do comandado Jaime Oque em manter a íris do olho fora do campo de visão, ou seja, por trás da pálpebra, mantendo-a ao mesmo tempo aberta. “Tentámos prender as pálpebras com uns arames”, afirmou a comandante Joana Oque, “mas os vasos sanguíneos do olho ficam irritados, o saco lacrimal lubrifica o olho em excesso e a imagem desfoca.” Para além das interferências na imagem causadas por uma finíssima trama escarlate de vasos sanguíneos, o segundo problema prende-se com a natureza das imagens em si. Constituída por minúsculas antipartículas aglomeradas, cada uma destas imagens aparenta estar em movimento, uma vez que as antipartículas saltitam e trocam de posição com as antipartículas vizinhas, provocando uma indefinição nas figuras, assim como um constante efeito de sístole e diástole. “Como se estivessem a respirar”, comentou ao vivo Joana Oque, espantada pela forma como as imagens “aumentam e diminuem de tamanho”. Embora a qualidade técnica da transmissão seja óptima, da mesma forma que é surpreendente o método de captação encontrado, a comandante mostrou-se desiludida. “Outra vez missão com grão”, desabafou. As dificuldades encontradas não impedem que se observe, entre as imagens transmitidas, o braço de uma criança a brincar com um pato de borracha à tona da água entre colinas de espuma, um guarda-chuva estampado numa toalha pendurada no cabide de uma porta, um pente que desliza por uma mecha de cabelos em alvoroço, uma criança de expressão indignada a cruzar os braços e uma colher de sopa a voar em direcção a uma boca com os lábios teimosamente (assim parece) fechados.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/2756344929491019346-7107450134496918569?l=reinucatalao.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://reinucatalao.blogspot.com/feeds/7107450134496918569/comments/default' title='Enviar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://reinucatalao.blogspot.com/2011/02/msg-primeiras-imagens.html#comment-form' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/2756344929491019346/posts/default/7107450134496918569'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/2756344929491019346/posts/default/7107450134496918569'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://reinucatalao.blogspot.com/2011/02/msg-primeiras-imagens.html' title='msg: primeiras imagens'/><author><name>Roberto de Deus Silvestre</name><uri>http://www.blogger.com/profile/09466075506706355107</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-2756344929491019346.post-7688035225185850245</id><published>2011-02-06T23:54:00.001+02:00</published><updated>2011-02-12T03:12:58.694+02:00</updated><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='Roberto de Deus Silvestre'/><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='primeira série de frOnteira óptica'/><title type='text'>missão sem grão</title><content type='html'>A AEIOU (Agência Espacial dos Irmãos ‘Oque Universo) lançou ontem ao final da tarde, antes do jantar, o vaivém espacial Bañeira I, levando a bordo os astronautas nudistas Joana Oque e Jaime Oque. A descolagem, segundo os operadores técnicos na ponte de controlo, decorreu sem problemas de maior, havendo apenas a notar, à saída da atmosfera, uma nuvem de espuma que o vaivém perfurou, provocando um aguaceiro nas regiões limítrofes da plataforma de lançamento. Depois deste incidente, que por instantes causou alguma ansiedade na ponte de controlo (ninguém trouxera guarda-chuva), os astronautas nudistas tomaram a sua primeira refeição a bordo, já na órbita do planeta, seguindo-se uma curta inspecção do equipamento e algumas horas de repouso. O objectivo principal da missão é captar em directo, para os receptores da terra, imagens do espaço em alta qualidade. A produção de imagens da NASA, que nas últimas décadas teve o império deste importante mercado, é uma vergonha para a classe, afirmou a comandante Joana Oque. “E tem a cumplicidade dos órgãos de informação”, acrescentou, enquanto despia as cuecas e baixava o tampo de um dispositivo de descarga e evacuação que visa recolher os despojos orgânicos dos tripulantes, para futuras análises comparativas. Responsabilizando igualmente a falta de exigência do público consumidor deste tipo de imagens (“cientistas como nós”), Joana Oque disse ainda que os orçamentos “são astronómicos” e as imagens têm a qualidade de um vídeo caseiro. “Excesso de grão, cores empasteladas, desfocagem permanente, enquadramentos desenquadrados. E o pior é a acção: movimentos lentos, corpos a levitar. Uma banalidade de bradar aos céus. É o mesmo que pagar por um filme de grande produção sobre as descobertas marítimas e depois ir à Costa da Caparica filmar banhistas a boiarem no mar.” Por seu lado, Jaime Oque, comandado, tem a seu cargo o desempenho de acções que representem uma relação dinâmica com o espaço. Astronautas a tomarem comprimidos à refeição, a caminharem de cabeça para baixo, a mudarem um parafuso no casco do vaivém, são acções que não o deixam impressionado. “Não é difícil fazer melhor.”&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/2756344929491019346-7688035225185850245?l=reinucatalao.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://reinucatalao.blogspot.com/feeds/7688035225185850245/comments/default' title='Enviar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://reinucatalao.blogspot.com/2011/02/missao-sem-grao.html#comment-form' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/2756344929491019346/posts/default/7688035225185850245'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/2756344929491019346/posts/default/7688035225185850245'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://reinucatalao.blogspot.com/2011/02/missao-sem-grao.html' title='missão sem grão'/><author><name>Roberto de Deus Silvestre</name><uri>http://www.blogger.com/profile/09466075506706355107</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-2756344929491019346.post-4758577523833294154</id><published>2011-02-06T02:42:00.003+02:00</published><updated>2011-02-13T05:13:43.828+02:00</updated><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='Roberto de Deus Silvestre'/><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='primeira série de frOnteira óptica'/><title type='text'>a capa e o busto</title><content type='html'>Operado de fresco a uma amigdalite que o deixou provisoriamente sem pio (um descanso), Jaime, O Enfezado, tomou ontem posse do seu primeiro disco, numa loja mista com duas entradas e montra ao centro (com uma pêra a pender-lhe do queixo, a voz do dono atende clientes da música; a voz da dona, barbela no lugar da pêra, atende clientes de roupa para bebé e criança). A aquisição não se fez sem a providencial sombra de dúvida que angustia o coleccionador no momento de iniciar a colecção (sem voz para se queixar, Jaime protestou em silêncio). Decidido a levar para casa o produto do seu desejo formado num programa de televisão (gritos, corridas, cabelos a abanar, ídolos sorridentes que acenam para chorosas fanáticas que estendem os braços ou levam as mãos à cara), Jaime, O Mudo, fez o pedido por interposta parte do tradutor que o acompanhava: “Tem os Beatles?” (olhos arregalados, ligeira crispação da boca). O dono da pêra mordeu a franja do bigode, passou os dedos pelas capas e puxou uma para cima. Sem lhe pegar, Jaime, O Descrente, olhou para a capa duplamente enfezado, deu um passo atrás, triplamente enfezado, e abanou a cabeça. “Não são estes?” Deu um passo em frente, fazendo um esforço para adaptar-se ao novo visual que a fotografia propunha e gesticulou com a teimosia que o caracteriza nos momentos em que se julga ludibriado. Sem reconhecer a imagem do grupo, nem o nome inscrito na capa, já que não sabia ler, tripartiu o desânimo em três pontas soltas: o olhar do tradutor, os óculos do vendedor, a visão da capa (encostadas à frente de um portão de madeira, quatro barbas, igual número de cabeleiras e – em hirsuta companhia – um chapéu preto de abas largas sobre a cabeça de um busto careca, ao lado do caixa de óculos). Fotogenia triste versus fotogénica desilusão. Jaime, O Desiludido, voltou a abanar a cabeça e tentou puxar o tradutor para fora da loja, mas este não se mexeu. O vendedor tirou o disco do interior da capa, despiu-lhe a cueca e encaixou-o no bico platinado do gira-discos. A agulha poisou, o vinil começou a deslizar. As faixas foram sendo picadas e o som rodopiou pela sala apertada. O vendedor explicou então a Jaime, O Incrédulo, que os Beatles já não existiam. O seu rosto, modulado por uma caótica revolução no olhar, fez uma inflexão tão dolorosa que por pouco não chorou. Com o disco cuidadosamente seguro debaixo do braço, Jaime, O Conformado, virou-se para trás ao sair da loja e olhou para a montra, onde um manequim de criança apontava com o dedo. Estendeu a mão livre para o seu acompanhante, que tinha pago a conta, e estugou o passo.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/2756344929491019346-4758577523833294154?l=reinucatalao.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://reinucatalao.blogspot.com/feeds/4758577523833294154/comments/default' title='Enviar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://reinucatalao.blogspot.com/2011/02/capa-e-o-busto.html#comment-form' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/2756344929491019346/posts/default/4758577523833294154'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/2756344929491019346/posts/default/4758577523833294154'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://reinucatalao.blogspot.com/2011/02/capa-e-o-busto.html' title='a capa e o busto'/><author><name>Roberto de Deus Silvestre</name><uri>http://www.blogger.com/profile/09466075506706355107</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-2756344929491019346.post-9055697714013603461</id><published>2011-02-05T01:46:00.001+02:00</published><updated>2011-02-13T05:13:24.093+02:00</updated><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='Roberto de Deus Silvestre'/><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='primeira série de frOnteira óptica'/><title type='text'>dança descritiva</title><content type='html'>“Pai, pai”, gritou o Jaime, vindo da rua, depois dum passeio nocturno na companhia do casal de surdos-mudos que viviam no piso de cima. Não obtendo resposta bateu à porta do escriptorio. “Mestre Vaquinhas”, disse, numa mudança de voz que terminou em suspiro, encaixando o queixo no tampo da escrivaninha. “Já posso contar a minha história?” A cadeira rodou na sua direcção. Jaime afastou-se, para ganhar espaço: “Vi um homem que fej assim.” O mestre Vaquinhas perguntou-lhe o que era fej. “Ó, é fajer.” Perguntou-lhe o que era fajer. Jaime fez uma expressão desconfiada. “É como as pexoas fajem”, respondeu de cenho carregado. Perguntou-lhe o que eram pexoas. “As pexoas que andam na rua.” Desconheço. “As pesssoas.” Essas! “Não! Foi um homem, ele fej assim…” Deu dois passos à frente, com o mesmo pé, dois passos atrás, com o outro, depois levantou o braço direito e deu meia volta para trás. O mestre Vaquinhas perguntou-lhe se aquilo era fajer. Jaime quase gritou: “Não!” “Tu é que disseste que ele fej.” “Não é fajer, é fazer.” Compreendo. E então, que fez ele? “Sei lá, era maluco.” “O que é ser maluco?” Jaime não respondeu, olhou para trás e não vendo ninguém encolheu os ombros. Deves saber, ainda agora o tentaste imitar. Faz lá outra vez. Jaime voltou a dar os passos. Mestre Vaquinhas pediu-lhe para repetir. Jaime começou a rir-se e a deslizar pelo soalho do escriptorio. “Ele estava a dançar!” Mestre Vaquinhas pegou-lhe no braço estendido e juntou-se a ele. A irmã, que estava na sala, pôs um disco na aparelhagem. A mãe aproximou-se e roubou o par do mestre Vaquinhas, que por sua vez convidou Joana para dançar também. A música animou, os pares dispersaram e os quatro continuaram a dançar sozinhos. “Vou chamar o Acácio e a Lisete”, lembrou-se o Jaime, que subiu as escadas a correr. Joana, a maldosa, desligou a música e quando o casal entrou na sala, puxando uma intimidada e risonha Lisete pela mão, Joana fez uma vénia a Acácio e estendeu-lhe o braço, num gesto de cortesia que insinuava um convite irrecusável. Em silêncio, os restantes três pares também bailaram pela sala apertada, sob um olhar vítreo vindo da parede. No seu vestido de asas negras, Ladybird encaminhava-se em passo largo para fora da moldura, na direcção do corredor que dava acesso à porta de saída. Na mão esquerda levava um buquê de andorinhas.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/2756344929491019346-9055697714013603461?l=reinucatalao.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://reinucatalao.blogspot.com/feeds/9055697714013603461/comments/default' title='Enviar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://reinucatalao.blogspot.com/2011/02/danca-descritiva.html#comment-form' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/2756344929491019346/posts/default/9055697714013603461'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/2756344929491019346/posts/default/9055697714013603461'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://reinucatalao.blogspot.com/2011/02/danca-descritiva.html' title='dança descritiva'/><author><name>Roberto de Deus Silvestre</name><uri>http://www.blogger.com/profile/09466075506706355107</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-2756344929491019346.post-490703658746702625</id><published>2011-02-04T00:36:00.001+02:00</published><updated>2011-02-13T05:12:52.081+02:00</updated><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='Roberto de Deus Silvestre'/><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='primeira série de frOnteira óptica'/><title type='text'>culinária recreativa</title><content type='html'>Fardada a preceito, com um higiénico lenço atado à cabeça e um avental feito à medida pela avó Celeste, a chefe de cozinha criativa Joana João Silvestre tem vindo a estabelecer um repertório de receitas cuja maior audácia reside numa interpretação lata, porventura indigesta, do regime alimentar dos omnívoros, assim como do célebre adágio popular que manda aprender a comer de tudo um pouco. Patrocinadora desta actividade gastronómica, deve-se à avó Celeste o reconhecimento pela descoberta de semelhante mister. Por ocasião do segundo aniversário da neta, ofereceu-lhe um kit de cozinha, incluindo fogão, lava-loiça, frigorífico, um trem de panelas e serviço de mesa. Já em época natalícia completou o equipamento com um armário para arrumar os utensílios, uma torradeira (com pão às fatias incluído), um prático microondas, um grelhador e um cabaz de víveres em plástico, que a chefe de cozinha não hesita em complementar com os mais diversos e imprevistos ingredientes. Passamos ao menu. Nas entradas: tostas de queijo com frutos cristalizados, amendoins em casca de amêndoas, meloa com broa, pimentos com coentros e sangria de melancia (sem álcool). Nas sopas: peixe em calda de tremoços, sopa de bife com azeitonas, sopa de massinhas com tromba de elefante e rodelas de cenoura, creme de algas com moscas-bebé. Nos pratos principais: puré de batata com lagostas e salsichas, frango com casca de cebola e ananases, leão enrolado em folhas de couve, lulas recheadas com cabeças de macaco, omelete de chiclete, medula de ossos partidos, pernas de barbie grelhadas com cogumelos frescos, caldeirada de urso felpudo com bananas e cuecas com padrões de bonecos. Nas sobremesas: cordões de sapatos embebidos em mel, goela de crocodilo recheada de ervilhas polvilhadas com açúcar, palmilhas achiclatadas, grão de bico com leite condensado, pêra com cera, gelatina com chuva de fios de cabelo e neve de côco, lagartixas caramelizadas, iogurte com hortelã, cascas de maçã assadas no forno com mãozinha de boneca agarrada a pau de canela, sorvete de lápis de cera espetados em bolinhas de algodão, shampôo batido em castelo com pão ralado e passas de uva, bolo de bolacha barrado com plasticina, bolo de massa de gesso, folhado de papel com mel, coquetail de frutos silvestres com pedrinhas e conchinhas, espuma de barbear com compota. Convidado a comentar as iguarias da chefe de cozinha, o provador oficioso e exclusivo Farrusco III, de cuja boca pende uma elástica e gulosa saliva,  recolhe a língua e responde “bô”. Sim, estava tudo muito bom.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/2756344929491019346-490703658746702625?l=reinucatalao.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://reinucatalao.blogspot.com/feeds/490703658746702625/comments/default' title='Enviar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://reinucatalao.blogspot.com/2011/02/culinaria-recreativa.html#comment-form' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/2756344929491019346/posts/default/490703658746702625'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/2756344929491019346/posts/default/490703658746702625'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://reinucatalao.blogspot.com/2011/02/culinaria-recreativa.html' title='culinária recreativa'/><author><name>Roberto de Deus Silvestre</name><uri>http://www.blogger.com/profile/09466075506706355107</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-2756344929491019346.post-7133352649411114278</id><published>2011-02-03T04:11:00.002+02:00</published><updated>2011-02-13T05:12:32.860+02:00</updated><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='Roberto de Deus Silvestre'/><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='primeira série de frOnteira óptica'/><title type='text'>batalha de almograve</title><content type='html'>Joana, a Valorosa Pólipa, e Jaime, o Pequeno Batráquio, numa terrível batalha que ontem teve lugar na praia de Almograve, acrescentaram mais uma jornada de glória à Invencível Armada Silvestre (IAS!), depois de conquistarem uma importante fatia de território ao Atlântico, derrotando o Temível Exército da Maré Alta (TEIMA). O confronto, que teve início pela manhã e se prolongou até ao fim da tarde, deixou exaustos os nossos rudes soldados, que esgotaram a ração de combate (seis sandes, duas bananas, quatro pêssegos, dois pacotes de leite achiclatado, um garrafão dáugua e dois rajás). Choram-se também algumas baixas entre o IAS!: uma barbatana ficou viúva, depois do seu par ser devorado pela TEIMA; os óculos escuros ficaram zarolhos de uma lente, que o soldado desconhecido pisou; umas cuecas constiparam-se, depois de se terem molhado sem necessidade; e a boneca Lúcia, escudeira de Joana, a Valorosa Pólipa, ficou atrozmente mutilada de um braço, em resultado de ter sido enviada consecutivas vezes contra um rochedo, depois de ter participado na construção de uma trincheira, servindo de pá. A estratégia inicial da IAS! foi muito mal pensada. Felizmente ainda foram a tempo de mudar de táctica, de outro modo teriam sofrido uma derrota humilhante. A verdade, nua ou em calções, é esta: comportaram-se como uns maricas. Porque a áugua estivesse fria e molhada, porque fizesse vento, porque o sol estivesse tapado, porque houvesse despojos de batalhas anteriores, os nossos soldados ficaram arreliados. Tadinhos, enrolaram-se nas toalhas e cobriram-se de areia. Apercebendo-se da fraqueza do adversário, a TEIMA atacou com fanfarronice, uma onda aqui, outra vaga ali, e foram conquistando terreno. A IAS! foi arrepiando terreno, recuou, recuou… até ficar entalado entre a espada e o rochedo. Jaime, o Pequeno Batráquio, ainda arreliado por lhe ter sido vedado o acesso a equipamento de mergulho, molhou então os dedos pés. Andava ele a empurrar a areia quando foi atacado nas canelas, à traição. Ripostou. Pregou um valente pontapé no traseiro de uma onda que se desfez em espuma. Depois, vindo já outra espetou-lhe uma bofetada, e não contente com isso a próxima levou uma cabeçada, que lhe provocou uma amolgadela. Depois de destruir uma dúzia de vagas com dolorosos pontapés e golpes de karaté, deu um mergulho, provocando um buraco na TEIMA. Deu-lhe com tanta força que a TEIMA, cada vez mais fraca, e a sofrer baixas sucessivas, bateu em retirada. Baixou a garimpa. Saiu de fininho. Findo o trabalho da artilharia, Joana, a Valorosa Pólipa, entrou em acção. Andou a apanhar pedrinhas e conchinhas, disparou no flanco do inimigo e depois assaltou as divisões de poças e laguinhos onde a TEIMA se refugiou, ficando à mercê da IAS! Fazendo jus ao seu epíteto de pólipo, Joana procedeu então ao saque dos vencedores, estudando nos rochedos as criaturas  e o modo de vida no país Atlântico, já que a TEIMA tinha ficado desguarnecida. “TEIMA, mas não ganha” foi o grito de vitória da IAS!, ao abandonar a praia.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/2756344929491019346-7133352649411114278?l=reinucatalao.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://reinucatalao.blogspot.com/feeds/7133352649411114278/comments/default' title='Enviar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://reinucatalao.blogspot.com/2011/02/batalha-de-almograve.html#comment-form' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/2756344929491019346/posts/default/7133352649411114278'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/2756344929491019346/posts/default/7133352649411114278'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://reinucatalao.blogspot.com/2011/02/batalha-de-almograve.html' title='batalha de almograve'/><author><name>Roberto de Deus Silvestre</name><uri>http://www.blogger.com/profile/09466075506706355107</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-2756344929491019346.post-3424834961134407819</id><published>2011-02-02T19:15:00.005+02:00</published><updated>2011-02-13T05:12:07.498+02:00</updated><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='Roberto de Deus Silvestre'/><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='primeira série de frOnteira óptica'/><title type='text'>almoço em casa dos avós</title><content type='html'>Convidados a tomarem parte no almoço de aniversário do casal Aníbal e Celeste Roque, que celebravam algumas décadas de teimosa vida conjugal, os seus netos Jaime e Joana João comportaram-se de forma deplorável durante a cerimónia. Ao cumprimentarem em primeiro lugar o cão de família (Farrusco III), incorreram numa inqualificável e incompreensível inversão das ínclitas regras de boa etiqueta, que os levaria a darem prioridade aos donos. Iniciaram depois uma duvidosa conversação em linguagem canídea, e foi assim, ladrando, que presentearam os seus atónitos avós com algumas lambidelas nas bochechas. Ajudados por estes últimos a sentarem-se nas cadeiras, deslizaram para debaixo da mesa, morderam as canelas dos convidados e danificaram as meias de vidro à tia Lourdes. Como ninguém anuiu a servir-lhes a comida no chão (nem eles aceitaram a comida de Farrusco III, que o avô lhes propôs), acabaram por sentar-se à mesa, as línguas babadas tombando-lhes da boca. Informados de que o coelho que tinham à frente, a fazer companhia ao arroz, se tinha sacrificado em nome daquela festa, fizeram questão de rezar pela sua alma (“Perdoa-nos coelho, vamos comer o teu sangue inocente e a tua carne esfolada, os teus olhinhos doces não mais contemplarão este mundo e os teus ossinhos ficaram todos partidos, amém”) e dedicaram-lhe a sua porção de cenoura, pondo-a à beira do prato. A cada nova garfada, contemplavam o lustre da sala, juntavam as mãos em prece e repetiam os versículos “perdoa-nos coelho, vamos comer outra vez o teu sangue inocente”. Contristada com uma tão pungente compaixão pelo coelho (mas também de imperdoável indiferença ao tempero da Celeste, que o cozinhou, e ao esmero de Aníbal, que o esfolou e trinchou), a sua avó apressou-se a retirar a travessa da mesa, antecipando a vinda da sobremesa. “Celulite, celulite”, gritaram os irmãos, quando surgiram as tigelas com gelatina. “Irra”, disse o avô Aníbal, que deu um murro na mesa, “é assim que os ensinam!” “Cain, cain, cain”, ganiram os netos, com o nariz enfiado na tigela, antes de sorverem os pedaços de morango dentro da gelatina. “Perdoa-nos avó, comemos a tua celulite e queremos repetir.” O avô soltou uma gargalhada, pegou nos dois ao colo e abandonou a sala com os troféus vivos da sua velhice, sob o olhar vítreo e ameaçador de uma cabeça de javali.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/2756344929491019346-3424834961134407819?l=reinucatalao.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://reinucatalao.blogspot.com/feeds/3424834961134407819/comments/default' title='Enviar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://reinucatalao.blogspot.com/2011/02/almoco-em-casa-dos-avos.html#comment-form' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/2756344929491019346/posts/default/3424834961134407819'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/2756344929491019346/posts/default/3424834961134407819'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://reinucatalao.blogspot.com/2011/02/almoco-em-casa-dos-avos.html' title='almoço em casa dos avós'/><author><name>Roberto de Deus Silvestre</name><uri>http://www.blogger.com/profile/09466075506706355107</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-2756344929491019346.post-3867570357256817717</id><published>2011-02-01T18:03:00.002+02:00</published><updated>2011-02-13T05:11:49.263+02:00</updated><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='Roberto de Deus Silvestre'/><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='primeira série de frOnteira óptica'/><title type='text'>propriedade privada</title><content type='html'>Continuação da entrevista entre os colunáveis Jajá Roque e Beto de Deus. A conversa decorre agora em propriedade privada. “Ó pai, nós somos mesmo ricos?” Riquíssimos, como vês. “Então por que é que estamos nesta bicha como os outros?” Pelo convívio. “Ó pai, se nós somos mesmo ricos por que é que não somos donos deste parque?” Mas nós somos os donos do parque! “Então por que é que tiveste de inscrever-te para entrar?” Porque sou um democrata e acredito na burocracia. “Então por que é que não te deixaram entrar com o carro, se o parque é nosso? O carro não precisa de fazer-nos companhia. “Então por que é que dormimos numa tenda como os outros?” Porque acreditamos na igualdade das aparências. “Então por que é que não me compras umas socas?” Porque têm solas de madeira e nós os ricos não gostamos de ver árvores amputadas. “Ó pai, nós somos mesmo ricos?” É como vês. “Então por que é que tu não mandas esta gente embora?” Aqui dentro são mais fáceis de controlar. “Então por que é que tu não mandas as pessoas tirarem o lixo do parque?” Porque não quero tirar o emprego aos que são pagos para limpar. “Então por que é que ninguém te ajuda a acender o fogareiro?” Gosto de acendê-lo sozinho. “Então por que é que não tens uma mota de água?” Porque gosto mais de nadar. “Então por que é que não compras um barco?” Porque prefiro andar debaixo de água. “Ó pai, se nós somos mesmo ricos por que é que só estás a assar quatro pimentos?” Porque são muito indigestos, um para cada chega. “Ó pai, o peixe também é indigesto?” Não. “Então por que é que estás a assar quatro carapaus?” Porque não quero que os peixes morram todos de uma vez. “Então por que é que não alugas luz eléctrica para ter na tenda?” Às escuras é mais divertido. “Então por que é que não compras mais brinquedos para eu brincar na praia?” Para que não te esqueças das belezas naturais. “Ó pai, de que serve ser rico se eu tenho as mesmas coisas que os outros têm?” Nós os ricos só damos valor ao que não tem valor. “Ó pai, isso não é ser rico.”&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/2756344929491019346-3867570357256817717?l=reinucatalao.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://reinucatalao.blogspot.com/feeds/3867570357256817717/comments/default' title='Enviar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://reinucatalao.blogspot.com/2011/02/propriedade-privada.html#comment-form' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/2756344929491019346/posts/default/3867570357256817717'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/2756344929491019346/posts/default/3867570357256817717'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://reinucatalao.blogspot.com/2011/02/propriedade-privada.html' title='propriedade privada'/><author><name>Roberto de Deus Silvestre</name><uri>http://www.blogger.com/profile/09466075506706355107</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-2756344929491019346.post-1792699390721242476</id><published>2011-02-01T02:36:00.001+02:00</published><updated>2011-02-13T05:11:24.065+02:00</updated><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='Roberto de Deus Silvestre'/><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='primeira série de frOnteira óptica'/><title type='text'>o marcedes</title><content type='html'>Entrevista automobilizada. Ao volante, Dada São Roque, fita verde na cabeça para não queimar a testa (o tejadilho no capot vai aberto). A seu lado, com uma revista de vida social ao colo, Beto De Deus, o entrevistado. Atrás, debruçado sobre o banco (enquanto a irmã dorme na cadeirinha de segurança), Jajá faz as perguntas (para depois voltar a sentar-se, observar mais um pouco pela janela e voltar à entrevista). “Ó pai, o que é que estamos a fazer aqui dentro?” Os compromissos não nos permitem estar juntos o tempo que gostaríamos, mas fazemos um esforço assaz relativo. “Ó pai, o nosso carro é tão grande porquê?” Porque somos ricos e temos um Marcedes. Como o nome indica, é um carro feito para os ricos como nós irem passear junto ao mar. “Ó pai, o nosso Marcedes é o mais velho da estrada porquê?” Nós os ricos somos antiquados. “Ó pai, o nosso carro anda mais devagar que os outros porquê?” Porque os outros têm medo de chegar atrasados e nós os ricos não receamos melindrar os sentimentos de quem possa estar à nossa espera e ficar aborrecido. “Ó pai, por que é que falas esquisito?” Nós os ricos gostamos de cultivar o silêncio mas não poupamos em palavras. “Ó pai, porque é que os outros carros têm vídeo e alta fidelidade e som surround e nós só temos um leitor de cassetes?” Nós os ricos não vamos em modas. “Ó pai, por que é que tu só ouves músicas antigas?” Nós os ricos somos pela tradição. “Ó pai, por que é que o nosso Marcedes não tem ar condicionado?” É para apreciar o vento que entra pelas janelas. “Ó pai, por que é que os estofos do nosso Marcedes estão rotos?” Nós os ricos somos ricos há muito tempo. “Ó pai, se nós somos ricos porque é que tu não mandas pôr estofos novinhos em folha?” Porque estes estofos não deixaram descendência. “Ó pai por que é que os outros carros têm via verde e nós temos de pagar portagem?” Nós os ricos damos sempre dinheiro a quem nos pede. “Ó pai, por que é que o nosso Marcedes só tem quatro mudanças?” Porque três não chegam e cinco são demais. És o quarto elemento da família, devias saber isso. “Ó pai, por que é que me estás a mentir?” Nós os ricos temos resposta para tudo, mas não damos justificações. “Ó pai, falta muito tempo?” Nós os ricos não temos falta de tempo, temos é falta de dentes, a avaliar pelos dois que tens em falta.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/2756344929491019346-1792699390721242476?l=reinucatalao.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://reinucatalao.blogspot.com/feeds/1792699390721242476/comments/default' title='Enviar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://reinucatalao.blogspot.com/2011/02/o-marcedes.html#comment-form' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/2756344929491019346/posts/default/1792699390721242476'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/2756344929491019346/posts/default/1792699390721242476'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://reinucatalao.blogspot.com/2011/02/o-marcedes.html' title='o marcedes'/><author><name>Roberto de Deus Silvestre</name><uri>http://www.blogger.com/profile/09466075506706355107</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-2756344929491019346.post-2489112667517272262</id><published>2011-01-31T15:09:00.001+02:00</published><updated>2011-01-31T15:09:57.319+02:00</updated><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='primeira série de frOnteira óptica'/><title type='text'>a dívida ou a dúvida</title><content type='html'>Premiando a sua vocação para participar em conversas para as quais não foi convocado, nem é provido de currículo adequado, Jaime Roque recebeu um castigo exemplar da mãe, que o convidou a ficar cinco minutos ao canto da sala, virado para a parede. Jaime Roque obedeceu, na condição de ficar de costas para a parede, já que o telejornal estava a começar e a televisão se encontrava no canto oposto. Sopesando talvez os prós e os contras duma possível futura carreira política, onde os seus palpites não seriam certamente postos a um canto, fixou a atenção no telejornal, onde a palavra “dúvida” era negada pelo primeiro-ministro. Ao mesmo tempo, na sala, a palavra “dívida” era afirmada, em tom de ameaça, pela mãe, em viva discussão com o pai. Da mesma forma que não entendeu o motivo da ausência de dúvidas, também não percebeu a razão dos pais terem dúvidas, o que não o impediu se sentir-se inteiramente satisfeito. De acordo com a sua visão materialista, era preferível ter, a ter em falta, pelo que continuou a assistir ao noticiário, condoído com as insuficiências da carreira politica e genuinamente orgulhoso com a privilegiada abundância da vida domestica, onde nem dívidas faltavam, apesar da sua posição não ser a mais confortável. Mas seriam os pais, detentores de dívidas, igualmente proprietários de outros mundos e fundos tão penosamente em débito por parte da classe politica? “Ó pai”, perguntou Jaime Roque do seu canto, “tu tens muitas dívidas não é?” O pai concedeu, num gesto de falsa humildade. “E dúvidas, também tens dúvidas?” Influenciado pelo exemplo governamental, o pai ergueu o queixo e respondeu que não, dúvidas era coisa que nem ele tinha. Jaime Roque ficou perturbado, virou-se para a parede, reflectiu por mais alguns segundos e tomou uma decisão. Abandonando o seu castigo, estendeu a mão ao pai e puxou-o na direcção da porta. “Vamos comprar dúvidas, antes que fechem as lojas.”&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/2756344929491019346-2489112667517272262?l=reinucatalao.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://reinucatalao.blogspot.com/feeds/2489112667517272262/comments/default' title='Enviar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://reinucatalao.blogspot.com/2011/01/divida-ou-duvida.html#comment-form' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/2756344929491019346/posts/default/2489112667517272262'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/2756344929491019346/posts/default/2489112667517272262'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://reinucatalao.blogspot.com/2011/01/divida-ou-duvida.html' title='a dívida ou a dúvida'/><author><name>Roberto de Deus Silvestre</name><uri>http://www.blogger.com/profile/09466075506706355107</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-2756344929491019346.post-3578889829430296323</id><published>2011-01-30T04:35:00.000+02:00</published><updated>2011-01-30T04:36:17.906+02:00</updated><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='primeira série de frOnteira óptica'/><title type='text'>fantasia em vento menor</title><content type='html'>Encontrando-se Roberto De Deus Silvestre e Vera São Roque agachados nas cadeirinhas de anões  do seu chambre de visite, na companhia da irmã desta e do seu namorado, em amigável convívio, o estado de torpor desenvolvido com a ajuda de um estranho coquetail de amoras frescas, erva autóctone e pepinos salgados foi de ordem a mantê-los quietos, ininterruptamente, por um tempo não inferior a três horas e três quartos da dita. Findo esse tempo, em que a conversa decorreu com a fina transparência de um fio de nylan, ocorreu a uma das partes encomendar-se a seguinte questão: Estando há tanto tempo aqui sentados, que estamos nós a chocar? Porquê, somos galinhas? Não, mas temos algo no cu para libertar. Com licença, senhores. Cara amiga, sonhais, sonhais, nem tem que haver piada, quando é de dá-los, não há dever nem temer, avança-se e os outros que se cuidem, depois estamos cá nós para o comentário. A peidaria assemelha-se à época de cio entre as gatas, se é de miar, pois que miem, ninguém pode levar a mal pelo bem que sabe ao outro. E se é de rosca, pois que seja. Descasca tremoço. A mim tanto se me dá como se me deu, se é de dá-los por ti, dou-los eu, antes vindos de mim do que vindo pelo do teu, que é mal cheiroso e cabeludo. Anda, anda, querida solta-los é a todos, mas deixa um para amanhã. Olha-me este, quer a série por episódios, não te chega já os cromos que tens lá em casa. Cromos! Quem anda nos cromos e o que vêm a ser tais cromos? Não sabes tu outra coisa! Recorta-os do jornal e depois diz que é para o filho. O filho! Sabe lá ele naquela idade, a criança ainda agora começou a andar, tem mesmo vontade de dar chutos na bola, o que ela quer é não cair… Estes novos agora não são contemporâneos, são como os de antigamente. Novos e de antigamente? Ui, este saiu fino. O vento está de feição. Abram essa janela! Está aberta, nada a fazer! Está a sair aos borbotões, fujam. À varanda. Cabemos lá todos? O céu que nos areja. Tal é o aroma, saiu discreto pelo gargalo, mas ganhou corpo vendo-se ao fresco. Tem bouquet. É frutado. Ligeira adstringência. Francamente! Ora essa, à nossa saúde! E que viva muitos anos. Calou-me na fama. Vinha com chama, vinha. Será perigoso? Lá gasoso... Arredondado. Veio de lado. Vai de bolina. Já acalmou. Tantas cores. Foi dos cogumelos. Que chapelada. Que pivete. Que barraca. Boa noite. Juízo na cama. Isto agora nem de corneta. Pouco barulho.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/2756344929491019346-3578889829430296323?l=reinucatalao.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://reinucatalao.blogspot.com/feeds/3578889829430296323/comments/default' title='Enviar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://reinucatalao.blogspot.com/2011/01/fantasia-em-vento-menor.html#comment-form' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/2756344929491019346/posts/default/3578889829430296323'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/2756344929491019346/posts/default/3578889829430296323'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://reinucatalao.blogspot.com/2011/01/fantasia-em-vento-menor.html' title='fantasia em vento menor'/><author><name>Roberto de Deus Silvestre</name><uri>http://www.blogger.com/profile/09466075506706355107</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-2756344929491019346.post-544804444810591387</id><published>2011-01-29T05:56:00.000+02:00</published><updated>2011-01-29T05:57:23.214+02:00</updated><title type='text'>lição de política</title><content type='html'>Filhos ingratos, Joana e Jaime Roque recusaram-se ontem a sair à rua na companhia da mãe e a participar na ronda de compras, preferindo as lições do mestre Vaquinhas. Por trás da porta do escriptorio – encabeçada por uma placa de ferro em contornos montanhosos, onde o seu nome completo figurava por leitosas letras esmaltadas, sobre um fundo azul índigo – a cavernosa voz matutina do mestre Vaquinhas pronunciou as seguintes palavras: “A lição de hoje é dedicada à classe política. Tremei, rebeldes infiéis apartidários. Haveides de querer fruta e não haveides de comê-la, o partidarismo político é um osso duro de roer, sem caroço nem tremoço.” Joana e João correram para a mesa do escriptorio, sentaram-se nas cadeirinhas de anões e aguardaram. Penteado, escanhoado, engravatado, encamisado, engomado, enchumaçado, escovado e engraxado da cabeça aos sapatos, mestre Vaquinhas levantou-se do cadeirão (que estava de costas para a mesa dos alunos), levou um par de indicadores aos lábios, varreu a tribuna com as pestanas a meia haste e depois de um gelado sorriso de campanha fixou o olho direito na audiência, enquanto o esquerdo mirava um molhe de folhas brancas (no cimo do qual se encontrava a lista de compras, esquecida por Vera São Roque). “Quem foge da protectora saia plissada partidária fica condenado à errância mais irada, porque estando certo fica errado e errando, não pode estar certo. Julgueis porventura encontrar-me eu a judiar com as vossas ignaras cabeças inocentes? “Siim”, responderam os irmãos. “Insolentes”, replicou de viva voz o mestre Manoel Rodrigues Vaquinhas. “Que sabeis vós do verbo judiar?” Os irmãos pousaram a cabeça no tampo da mesa (ou melhor, Jaime imitou a irmã nesta posição reflexiva e que para ele constituía um gesto de envergonhada sujeição). “A política é a ferramenta do sentido de estado, e o estado, para o político (podem olhar-me no papel de ministro, para causar mais efeito)… Sou eu! Este é o meu corpo, bebei da teta do Vaquinhas. Aprendiz Jaime, quereis arranjar trabalho? “Não.” “Pudera! E emprego, satisfá-lo o emprego do tempo?” “Sim.” “Espertalhão às dúzias. E tu aprendiz Joana, diga de sua mercê. Pretende dar de comer aos pobres e os ricos que trabalhem?” De queixo tremido e dentes a baterem, Joana agitou a cabeça em angustiado assentimento. Os lábios ficaram roxos. “Ó funesta, ó pécora! O estado, doravante”, e apontou com o dedo, “sois vós!” Desatando aos berros, Jaime e Joana saltaram das cadeiras, abriram a porta de casa e desceram os degraus dois a dois. O mestre aproximou-se da janela e franzindo o sobrolho contemplou duas crianças muito atinadas que, à falta de mãos livres, se agarraram à cesta de compras da mãe.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/2756344929491019346-544804444810591387?l=reinucatalao.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://reinucatalao.blogspot.com/feeds/544804444810591387/comments/default' title='Enviar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://reinucatalao.blogspot.com/2011/01/licao-de-politica.html#comment-form' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/2756344929491019346/posts/default/544804444810591387'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/2756344929491019346/posts/default/544804444810591387'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://reinucatalao.blogspot.com/2011/01/licao-de-politica.html' title='lição de política'/><author><name>Roberto de Deus Silvestre</name><uri>http://www.blogger.com/profile/09466075506706355107</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-2756344929491019346.post-4073895932752276204</id><published>2011-01-28T08:08:00.002+02:00</published><updated>2011-01-28T08:09:25.661+02:00</updated><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='primeira série de frOnteira óptica'/><title type='text'>o pesadelo</title><content type='html'>Joana e Jaime acordaram esta manhã exactamente à mesma hora (5h50). Encontrando-se deitados nas suas camas, com as cabeças enterradas nas almofadas, o estado de pavor em que se encontravam agravou-se ao depararem um com o outro. “O mano está a churar”, dizia a Joana e chorava. “A mana está a churar”, dizia Jaime, que chorava também. Convidada a explicar-se, Joana ergueu a cabeça do travesseiro, contemplou o irmão e voltou a afundar a cabeça na almofada. “Ele moreeu e está a churar.” E está a chorar porquê, chorona irmã? “Porque moreeu.” Escuta lá, ó mariconço, lá porque moreeste isso é razão para chorar? Moreeste, paciência. “Nããão”, resmungou o Jaime, “a mana muureu, eu empurei-a no escuro e agora ela está muuito muurida.” Jaime ergueu a cabeça do travesseiro, contemplou a irmã (cabeça afundada na almofada), afastou as lágrimas dos olhos, sentou-se na cama, engoliu o choro, deu um soluço e continuou a chorar. A irmã olhou para ele e soluçou também. “Não moreeste?”, perguntou-lhe Joana. “Nããão”, resmungou o Jaime. “Tu muureste e disseste que eu tenho de fazer de conta que estás viva.” E o Jaime, quem é que faz de conta que o Jaime está vivo? “Ninguém porque eu empurei a Joana no escuro e tenho de ser eu a fazer de conta.” É verdade o que o teu irmão está a dizer Joana, já não podes fazer de conta que és a Joana? “Nããão, só posso fazer de Jaime, ele moreeu e já não vem mais.” Fica o assunto resolvido: O Jaime faz de conta que a Joana está viva e a Joana faz de conta que o Jaime está vivo. Está bom assim? “Nããão”, respondeu a Joana e voltou a chorar. “O Jaime não pode fazer de conta porque moreeu”. Mas olha que ele diz que consegue fazer de conta. Joana levantou-se da cama e olhou para o irmão, ainda assustada pela sua presença. “Verdade, fazes mesmo?” O irmão enfrentou-a, ainda a medo, empurrou a almofada para o chão, pôs os pés em cima da almofada e respondeu-lhe: “Sim.” Joana voltou a deitar-se, olhou para o tecto, depois olhou para debaixo da cama do irmão e suspirou. “E se eu não saber fazer de conta? Eu quero fazer de conta que sou a Joana.” Jaime enfiou a cabeça entre os joelhos e rolou de volta ao centro da cama. “A Joana está matada. Eu faço de conta que a Joana está viva e a Joana aparece e eu fico no escuro.” Os estores da janela abriram-se, uma luz rosada entrou no quarto e devorou a sombra dos irmãos, projectada pelo candeeiro da mesa de cabeceira, ao lado do qual se encontrava um cavalo, montado por um guerreiro empunhando uma lança. Jaime voltou a adormecer na cama, sob a mão que a mãe lhe impôs na nuca, e Joana agarrou-se ao pescoço do pai, temendo regressar a um sono onde provavelmente reencontraria o irmão sem vida.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/2756344929491019346-4073895932752276204?l=reinucatalao.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://reinucatalao.blogspot.com/feeds/4073895932752276204/comments/default' title='Enviar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://reinucatalao.blogspot.com/2011/01/o-pesadelo.html#comment-form' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/2756344929491019346/posts/default/4073895932752276204'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/2756344929491019346/posts/default/4073895932752276204'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://reinucatalao.blogspot.com/2011/01/o-pesadelo.html' title='o pesadelo'/><author><name>Roberto de Deus Silvestre</name><uri>http://www.blogger.com/profile/09466075506706355107</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-2756344929491019346.post-5391328650276173316</id><published>2011-01-28T08:08:00.001+02:00</published><updated>2011-01-28T08:08:37.357+02:00</updated><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='primeira série de frOnteira óptica'/><title type='text'>lição de literatura</title><content type='html'>Mestre Vaquinhas estava sentado no chão com o queixo em cima do tampo da mesa. Sentados em cadeirinhas proporcionais ao seu tamanho de anões, a Joaninha (muito direita, olhos escancarados, lábios apertados um no outro, em sinal de certeira concentração) e o Jaimito (rabujento, sonolento, macilento, pálpebras de peneirento). O mestre dirigiu-se à janela da sala de aula e mirando-se no reflexo do vidro espremeu um quisto sebáceo no pescoço. Jaimito fez uma expressão de nojo e a cabeça tombou no tampo. Acto contínuo, Joaninha deu um caldo no irmão para se manter direito. “A literatura francesa é a expressão mais alta e jamais atingida por qualquer outra língua. As causas do seu aparecimento, desenvolvimento e amadurecimento foram as conquistas napoleónicas, o enriquecimento das classes sociais, cumuladas de herdeiros ociosos, e relações humanas em trânsito, desejosas de impressionarem o estrangeiro incauto pela opulência da aparência, pelas meias das grandes ideias, pela beleza da sua fineza, pelos excrementos dos bons sentimentos e pela inutilidade da sua musicalidade. Também se deu a decadência, motivada pela perda da inocência, mas esta surge em anexo.” Contemplando uma prateleira de livros, o mestre puxou um volume pela lombada e voltou a pô-lo no lugar, limpando às calças o pó que se agarrou aos dedos. “A força motriz da produção e recepção literária concentrou-se na burguesia, mas os valores, o sentido de excelência, de grandiosidade, o requinte do estilo, foram uma directa influência da aristocracia em pousio”. Perante a expressão de alarme de Jaimito, desperto do seu devaneio infantil por via dos z a que o seu ouvido era particularmente sensível, Mestre Vaquinhas explicou-se: “Zio, pousio. Não havendo guerras, os nobres passeiam-se por salões e jardins. O aristocrata exibe… zibe… exibe as boas maneiras, o filho da alta burguesia… zia, burguesia observa pois é dotado pelos sentidos (ver, ouvir, cheirar, tactear, degustar) e carece de saúde para o trabalho. Quanto aos pretensiosos admiram-se, porque estão cheios de inveja e ambicionam parecer comme il faut… Joaninha, pare de rabiscar e ouça apenas… Jaimito, tire o macaco que meteu debaixo da mesa e volte a pô-lo no nariz… O aristocrata tem joie de vivre, o filho anémico tem sensibilidade e a cambada vai atrás. O ser excepcional é solitário, o ser vulgar é gregário… Jaimito! não seja sectário! Só o talento está em condições de reconhecer que é na vulgaridade que os actos de excepção acontecem. O homem de virtude aborrece-nos, enquanto aquele…” Joaninha fez uma expressão acabrunhada. Jaimito esfregava uma borracha com sabor a morango no nariz. O mestre deu um caldo em Jaimito, que poisou a borracha, fez uma vénia a Joanita e retomou o discurso: “… enquanto aquela a quem não se reconhecem qualidades poderá sempre vir um dia a surpreender-nos. Ócio, tédio, desejo e exibicionismo são as etapas que antecedem o prazer… zer, prazer literário. Em todas estas etapas sentimos uma atracção pela parcela de divertimento a que temos direito. A aula acabou, vão brincar lá para fora.”&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/2756344929491019346-5391328650276173316?l=reinucatalao.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://reinucatalao.blogspot.com/feeds/5391328650276173316/comments/default' title='Enviar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://reinucatalao.blogspot.com/2011/01/licao-de-literatura.html#comment-form' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/2756344929491019346/posts/default/5391328650276173316'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/2756344929491019346/posts/default/5391328650276173316'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://reinucatalao.blogspot.com/2011/01/licao-de-literatura.html' title='lição de literatura'/><author><name>Roberto de Deus Silvestre</name><uri>http://www.blogger.com/profile/09466075506706355107</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-2756344929491019346.post-2546311127274062423</id><published>2011-01-27T08:16:00.001+02:00</published><updated>2011-01-27T08:16:59.769+02:00</updated><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='primeira série de frOnteira óptica'/><title type='text'>na maternidade</title><content type='html'>Jaime Roque, dois quilos e tal de tripas e ossos, nasceu esta madrugada no serviço de maternidade do hospital pediátrico, em Calem. Pesa uma vergonha de 2043 gramas, distribuídas por uns razoáveis 43 centímetros e, na opinião da brava parturiente sua mãe, é provido de uma “linda cabeça” de aspecto escalpelizado, uma vez que nem trazia um cabelo para mostra. De cor violácea e pele coberta por uma densa rede de veias roxas e azul esverdeadas, a gordura encontra-se quase totalmente alojada na boca, no nariz, nas pálpebras, nos zigomas e numas orelhas cujos lóbulos são mais rechonchudos do que o seu rabo desprovido de nádegas. Vítima de parto natural, parece ter sido atropelado, espremido, torcido, espalmado para caber dentro de um envelope, mandado contra a parede e por fim sugado através do gargalo de uma garrafa de anis (quiçá protegido por um capacete, uma vez que a sua cabeça é uma coisa linda de ser vista). Depois de ter sido pesado, medido e limpo de mucosidades, Jaime Roque deu alvíssaras ao mundo dos terráqueos, não com um berro nem com uma gargalhada, mas com um pum silencioso e traiçoeiro que desfaleceu o ânimo na competente se bem que surpreendida equipa médica e provocou uma rápida evacuação da sala (a mãe fez um sorriso amarelo e tombou a cabeça para o lado). Depois de assistir ao parto, o pai aproveitou para fugir e refugiar-se nos sanitários, onde mal teve tempo de baixar as calças. Chegou-lhe uma diarreia tão vulcânica que findo o serviço viu-se com as nádegas sarapintadas de gotículas amarelas (felizmente, havia bidé). De regresso à sala de parto, já lá se encontravam os avós e tios a granel. Um furo no serviço de segurança tinha permitido a entrada da família por inteiro, rodeando a mãe e o filho numa desopilada celebração das qualidades fisionómicas do neófito, imediatamente identificadas e acto contínuo inventariadas, de acordo com a ascendência, o cruzamento de linhas de mãe para filho, de avô para neto, de tia para sobrinho por via de uma efeminada tradução da herança do pai, de avó para neto por via do seu pai que era sobrinho de um tio cuja mãe era igualmente uma beldade em pequenina. Mas eis que a parte interessada, o crianço espontaneamente adorado, decidiu contribuir com um suplemento de sua graça libertando um sumido mas inequivocamente sonoro “pô”,  adormecendo logo a seguir. Espantada por um tão precoce talento para a expressão silábica, a família evacuou a sala. “É de gancho”, congratulou-se a tia, entre sorrisos, lágrimas e caretas bem impressionadas. O avô, muito sério, cofiou o bigode, ajeitou a gravata e comentou com a irmã: “Qual pô nem meio pô, o que ele disse foi porra!”&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/2756344929491019346-2546311127274062423?l=reinucatalao.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://reinucatalao.blogspot.com/feeds/2546311127274062423/comments/default' title='Enviar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://reinucatalao.blogspot.com/2011/01/na-maternidade.html#comment-form' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/2756344929491019346/posts/default/2546311127274062423'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/2756344929491019346/posts/default/2546311127274062423'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://reinucatalao.blogspot.com/2011/01/na-maternidade.html' title='na maternidade'/><author><name>Roberto de Deus Silvestre</name><uri>http://www.blogger.com/profile/09466075506706355107</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-2756344929491019346.post-3278781047932364236</id><published>2011-01-26T05:16:00.000+02:00</published><updated>2011-01-26T05:18:35.783+02:00</updated><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='primeira série de frOnteira óptica'/><title type='text'>o incêndio</title><content type='html'>Vera São Roque, 20 anos, empregada de balcão, grávida de um dia, e Joana João Roque Silvestre, a filha de dois meses, salvaram-se ontem de morrer asfixiadas no quarto onde ambas se encontravam a dormir, num apartamento em Calem. Os corpos foram encontrados inertes pelo pai da criança, que tinha casado com a mãe na véspera. Roberto de Deus Silvestre, 20 anos, jornalista doméstico, estava na casa de banho quando o incêndio deflagrou. A chama de uma vela que tinha sido deixada acesa pegou fogo ao vestido de noiva, rapidamente enchendo de fumo o quarto, cuja porta estava fechada. Na tentativa de apagar as chamas, Roberto de Deus Silvestre sofreu queimaduras superficiais nas mãos e no rosto, tendo sido assistido no local por um piquete de paramédicos, chamado ao local pelo corpo de bombeiros voluntários, que acorreram ao acidente na sequência de um telefonema de uma vizinha que morava no andar de baixo. Lepondina Só Santos, 73 anos, viúva reformada, depois de quatro horas a rebolar na cama, vencida por uma insónia, tinha-se levantado para beber um copo de água e tomar um comprimido de valeriana que lhe tinha sido recomendado pela sobrinha naturista. Encontrava-se à janela a fumar um cigarro quando viu uma “bola de fogo” a voar (não conseguindo extinguir as chamas do vestido, Roberto de Deus Silvestre optou por mandá-lo pela janela). Orlando Nabeiro, 55 anos, funcionário de uma repartição de finanças, de baixa médica, morador no prédio em frente, escutou “umas vozes” e como andava desconfiado de há muito tempo “não se falar numa onda de assaltos”, aproximou-se da janela para observar um “gatuno a pegar fogo ao corpo de uma mulher e depois a mandá-la janela fora”. Imediatamente avisou a polícia da ocorrência, cujo “inexplicável atraso” o deixou “muito indignado”. Carolina Piteira, 62 anos, viúva médium, que mora no andar de cima, tinha acabado de despedir-se do marido, que lhe anunciara o regresso de nossa senhora à terra para celebrar a eternidade das almas (“mas só das boazinhas”). Ao fechar a janela viu “uma linda figura”, “toda iluminada”, a “descer do céu em grande velocidade”. “Fez uma péssima aterragem, infelizmente”, lamentou Carolina Piteira: “Não fosse o meu falecido Martinho avisar-me antes e teria pensado tratar-se de um demónio. A coitadinha ardeu que nem um pau de fósforo. Uma desgraça.” Examinadas no serviço móvel de urgências e cuidados intensivos, Vera São Roque e a sua filha Joana foram consideradas livres de perigo, mas não do susto que provocaram entre a vizinhança.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/2756344929491019346-3278781047932364236?l=reinucatalao.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://reinucatalao.blogspot.com/feeds/3278781047932364236/comments/default' title='Enviar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://reinucatalao.blogspot.com/2011/01/o-incendio.html#comment-form' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/2756344929491019346/posts/default/3278781047932364236'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/2756344929491019346/posts/default/3278781047932364236'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://reinucatalao.blogspot.com/2011/01/o-incendio.html' title='o incêndio'/><author><name>Roberto de Deus Silvestre</name><uri>http://www.blogger.com/profile/09466075506706355107</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-2756344929491019346.post-7426517974613189859</id><published>2011-01-25T04:47:00.002+02:00</published><updated>2011-01-25T05:32:00.501+02:00</updated><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='primeira série de frOnteira óptica'/><title type='text'>1º</title><content type='html'>No dia 24 de Abril, meia dúzia de minutos antes da meia-noite, na paragem que antecede o tabuleiro da ponte sobre o Tejo em direcção a Almada (frequentada por agentes da brigada de trânsito em operações stop), Vera São Roque, empregada de balcão, pariu espontaneamente com um mês de antecedência uma fedelha que viria a ser registada no dia seguinte com o nome de Joana João Roque Silvestre. O pai da criança conduzia um velho Fiat 127 branco com uma poça de água sob os pedais, resultado duma infiltração no ventilador, e com uma folga no volante que obrigava o condutor a girá-lo sensivelmente cinco centímetros antes das rodas dianteiras corresponderem com uma mudança de direcção. Depois de jantar no Monte Abraão em casa dos pais da futura mãe, o casal dirigiu-se ao parque de Monsanto. Encontravam-se os dois por cima um do outro a testar a qualidade das molas no banco de trás quando à moça lhe rebentaram as águas. Descendo pela Duarte Pacheco numa faixa intermédia, Roberto de Deus Silvestre foi surpreendido por uma carrinha que se atravessou à frente. Para evitar a colisão, desviou no sentido oposto, em direcção à ponte. Não fosse o descontrolo causado por dois imprevistos sucessivos (a namorada que entra em trabalho de parto no momento em que dela esperava um orgasmo; a iminência de ver-se obrigado a atravessar o rio quando urgia chegar à maternidade na direcção oposta) e lembrar-se-ia que lhe restava um desvio à esquerda, na direcção da Praça de Espanha. Roberto de Deus Silvestre ainda viu a placa informativa no último instante, mas a sola molhada do sapato escorregou no pedal do travão e a folga do volante traiu-lhe a direcção, acabando a resvalar pela berma, que lhe trilhou a roda dianteira do lado esquerdo. Quando chegou à paragem antes da ponte tinha o pneu vazio. A paragem antes da ponte tinha um acesso ao bairro da Tapadinha (reservado às autoridades) e Roberto de Deus Silvestre  apressou-se a mudar a roda, de forma a tomar de urgência esse caminho que o faria descer até Alcântara e daí subir a Avenida de Ceuta, em direcção à maternidade. Encontrava-se a desapertar as porcas quando a namorada abriu a porta e ficou com as pernas no ar. Roberto de Deus Silvestre só teve tempo de despir o casaco e estendê-lo à frente dela. A parturiente tombou para fora do carro, pôs-se de cócoras e levou as mãos ao chão. A criança nasceu tão naturalmente como um fruto que se desprende dum ramo de árvore. Nas duas margens do rio o fogo de artifício coloria o céu*.  Depois dum intervalo sem movimento, o trânsito voltou a cruzar a ponte. Roberto de Deus Silvestre conseguiu interromper a marcha dum carro, onde seguia um grupo de amigos a caminho de Lisboa, três dos quais ficaram apeados para dar lugar à ensanguentada recém-nascida envolvida num casaco enlameado, à sua esvaída mãe de cabeça tombada no ombro do parceiro e ao estupor no rosto do pai, arrepelado em mangas de camisa e a tremer do queixo no banco de trás. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;* Joana Severo nasceu a 26 de Abril, mas Joana Silvestre nasce na véspera do 25 de Abril, certamente para ser bem-vinda pelo fogo de artifício que celebra a Revolução de 74.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/2756344929491019346-7426517974613189859?l=reinucatalao.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://reinucatalao.blogspot.com/feeds/7426517974613189859/comments/default' title='Enviar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://reinucatalao.blogspot.com/2011/01/1.html#comment-form' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/2756344929491019346/posts/default/7426517974613189859'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/2756344929491019346/posts/default/7426517974613189859'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://reinucatalao.blogspot.com/2011/01/1.html' title='1º'/><author><name>Roberto de Deus Silvestre</name><uri>http://www.blogger.com/profile/09466075506706355107</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-2756344929491019346.post-3209767681091170046</id><published>2011-01-24T07:11:00.000+02:00</published><updated>2011-01-24T07:12:29.270+02:00</updated><title type='text'>frOnteira óptica</title><content type='html'>Os primeiros anos tomam conta da memória&lt;br /&gt;Disfarçados de imitações da Primavera:&lt;br /&gt;Sementes rebentam sem terra que as proteja; &lt;br /&gt;Ramos agitam-se onde o ar não é pesado;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Folhas verdes prestes a voar&lt;br /&gt;Que o sol, dourando, ajuda a desprender.&lt;br /&gt;Segue-se o curso de passeios outonais por&lt;br /&gt;Carreiros, carreiras, retratos e conquistas:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Mesmo a árvore de tronco inclinado&lt;br /&gt;Acabará ateada pela lenha que dela tomba&lt;br /&gt;Porque mais acima o vento é frio&lt;br /&gt;E a vocação da chuva é erguer-te das cinzas&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/2756344929491019346-3209767681091170046?l=reinucatalao.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://reinucatalao.blogspot.com/feeds/3209767681091170046/comments/default' title='Enviar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://reinucatalao.blogspot.com/2011/01/fronteira-optica.html#comment-form' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/2756344929491019346/posts/default/3209767681091170046'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/2756344929491019346/posts/default/3209767681091170046'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://reinucatalao.blogspot.com/2011/01/fronteira-optica.html' title='frOnteira óptica'/><author><name>Roberto de Deus Silvestre</name><uri>http://www.blogger.com/profile/09466075506706355107</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-2756344929491019346.post-6620579363330073353</id><published>2011-01-24T07:09:00.002+02:00</published><updated>2011-01-25T05:32:37.298+02:00</updated><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='frOnteira óptica'/><title type='text'>o jornal Lá de casa</title><content type='html'>Afixado no painel de cortiça pendurado na cozinha, Fronteira Óptica é o jornal doméstico em que Roberto de Deus Severo assume o papel de cronista do quotidiano familiar. Iniciadas com o nascimento de Joana, as suas crónicas constituem paródias ao modo de expressão e às técnicas de escrita jornalísticas, mas também à sua agenda: que temas podem ser considerados de interesse geral no contexto duma família humilde? Reforçando a vocação ficcional de qualquer narrativa, mesmo quando ‘baseada em acontecimentos reais’, RDS substitui o apelido austero da família, Severo, por outro igualmente simbólico: Silvestre. A troca é uma homenagem à fábula medieval duma mulher que se traveste de homem para poder combater nas cruzadas, que RDS descobriu num filme de João César Monteiro, com a personagem de Silvestre a ser interpretada por Maria de Medeiros ainda adolescente. &lt;br /&gt;Joana Severo: “Durante a nossa infância, chamávamos-lhe o jornal do o-ó, não por adormecermos com ele a ler-nos as suas histórias (também acontecia), mas porque o ‘o’ de fronteira e o ‘ó’ de óptica, para nós duas letras diferentes, foram a primeira coisa que aprendemos a ler. Mesmo quando alterados pela paródia  que tantas vezes me exasperava, os relatos desses episódios acabaram por nos dar uma consciência do que fazíamos. A opinião de terceiros era-nos indiferente, mas não o efeito que podíamos causar.”&lt;br /&gt;Infelizmente, os textos redigidos em duas décadas de vida familiar perderam-se na sua grande maioria. O computador, que comprara em segunda mão, foi atacado por um vírus que lhe apagou a memória do disco rígido sem que ele tivesse feito cópias e nos primeiros anos usava ainda a sua velha máquina de escrever. Os textos de Fronteira Óptica eram tratados como dum jornal de grande tiragem se tratasse: perdida a actualidade, boa parte deles acabaram no lixo e muitos perderam-se no meio de outros papéis arrumados ao acaso. “Só com o desaparecimento do meu irmão se tornaram preciosos.”&lt;br /&gt;Passado e futuro são concomitantes, interceptam-se mutuamente e dão lugar a curvas, buracos e camadas de um tempo paradoxal. Fronteira Óptica constitui-se no exercício da sua apropriação. As crónicas da primeira série não foram escritas a pensar num livro, mas os textos em que RDS faz o luto pelo filho vêm iluminar de forma arrepiante o alcance de um título inventado vinte anos antes. Fronteira Óptica representou uma estratégia de educação dos filhos: as histórias deles são mais importantes do que a imagem mediatizada das histórias dos outros. A morte de Jaime Roque vem reabrir o vazio do espaço doméstico e o universo televisivo por ele deplorado serve-lhe as imagens de que necessita para reanimar a sua memória (ver A arte perdida da fumigação e A ilha do povo Dogonutee). Joana Severo: “A imagem mais chocante que guardo do meu pai durante o último ano é vê-lo em frente à televisão como que sob o efeito de um sedativo. Quando o Jaime era vivo gostava de sentar-se ao lado da televisão a olhar para nós e só espreitava para o ecrã quando algo em nós o deixava curioso.” &lt;br /&gt;Os retratos de João Silvestre retomam o formato da crónica e descrevem episódios que estiveram na origem de fotografias de reportagem (só três destas fotografias existem mesmo, a imaginação do autor completa o portfolio). Mas para além da terceira série de Fronteira Óptica, onde o recurso à fotografia se torna temático, há uma relação hipnótica com a imagem no seu trabalho que me assusta. A hipnose “é um estado de sonolência provocado por artifícios de sugestão durante o qual o hipnotizador exerce um controlo considerável sobre a vontade e o pensamento.”  É sob este estado que o autor parece querer deixar quem o lê. &lt;br /&gt;O efeito hipnótico da fotografia cria a ilusão de que o presente está a ser moldado pelas condições criadas no instante em que a imagem foi produzida. A fotografia enquanto cavalo de Tróia do passado. Quando os dados da história não existem, imprimem-se os pormenores contingentes da imagem que lhes dá sombra. À semelhança dos retratos, a ideia que fazemos do passado corresponde a uma imagem fixa, mas o presente, à semelhança de quem o habita (e da memória que os acompanha) encontra-se em movimento. Permitam-me um interlúdio pessoal. &lt;br /&gt;Aos doze anos fiz uma sessão de polaróides com o meu irmão na piscina dos bombeiros da Agualva. Na primeira fotografia tentei captá-lo a mergulhar: ele desapareceu, deixando atrás de si uma língua de espuma. Na segunda tentei retratá-lo em busto à beira da piscina, mas um colega vindo de trás emergiu da piscina: lá está ele, a zombar para a câmara, com o meu irmão desfocado a virar-se e a touca a escorregar-lhe pelo cabelo acima. Já em casa dos meus pais, na noite de consoada tentei imortalizar a minha tia Alice numa poltrona de camurça na sala de jantar dos meus pais. O meu irmão, que teimou em esquivar-se na sessão que lhe dediquei, pulou da cadeira em que estava sentado (fora do enquadramento) e saiu da sala. Tapado pela enormidade do aparelho, um modelo da Kodak que me tapava integralmente a cara, sem deixar qualquer perspectiva para além do visor, cliquei. O resultado final é o eclipse da minha tia, a seguir o movimento de fuga do meu irmão, fixado em plena correria.&lt;br /&gt;RDS parece deliciar-se inteiramente com as incoerências que definem uma idade transitiva, apaixonada pela infância e incapaz levar avante uma vida independente. A sua geração, ou pelo menos a parte que lhe importou, é composta de adolescentes-tardios seduzidos pela aura de falhanço e sobre o assunto eu teria muito por onde passear. A magia é a ciência dos sonhadores   (“I am a good man, I’m just a bad wizard”, explica o Feiticeiro de Oz, depois de ser apanhado por trás dum biombo no sonho de Dorothy). Observemos a magia que se eleva nos gestos daquele indivíduo, aquele ali, independentemente das gaiolas em que terá de ir debicar. &lt;br /&gt;Já viram, podemos continuar? Já aqui falei do subúrbio, do imaginário adolescente, do permanente movimento entre espaço e tempo das suas personagens e da imagem fotográfica. São os eixos do seu trabalho. Existe ainda um quinto elemento, do qual só me apercebi quando andava entretido a pescar passagens em que a sua mulher, Vera São Roque, aparece. Trata-se da personagem-sombra. Eu sei que deveria ao menos explicar o que entendo por “personagem-sombra”, mas o facto de estar seguro da sua existência não me torna mais qualificado para propor uma definição.&lt;br /&gt;A mãe da Joana e do Jaime é uma personagem esquiva nas crónicas familiares de Fronteira Óptica e parece ser também a única com capacidade para “penetrar aquele espaço exclusivo” a que RDS alude na penúltima crónica dos retratos de João Silvestre, e que tanto parece interessar ao autor.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;"Tirei a fotografia à entrada do quarto e por isso a minha mãe, que estava sentada ao pé da janela, está fora de campo, embora a sombra dela seja visível aqui na parede do lado direito. Não se nota bem por causa do jarro com gladíolos que está em primeiro plano, com estas flores mais descaídas a fazerem uma espécie de telhado sobre a cabeça do meu irmão ."&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;É isto uma personagem-sombra. Alguém que está presente e não é mais do que uma silhueta atrás de um arranjo de flores (afinal acabei mesmo a propor uma definição).&lt;br /&gt;Nota final a propósito da organização: os textos originais de Fronteira Óptica foram redigidos entre 1987 e 2008. Joana Severo recuperou 142 textos em papel com relatos da família, seis dos quais se encontravam na pasta Trabalhodescrita, no computador pessoal do autor. RDS incluiu 22 desses textos na versão definitiva, que deixou na pasta Obrincompleta (estão incluídos na primeira série de Fronteira Óptica em versões reescritas); os textos da segunda série, igualmente encontrados na pasta Obrincompleta, eram desconhecidos da família; quanto aos da terceira série tinham sido enviados à filha, por ocasião do seu vigésimo-segundo aniversário; por fim, Apostasia. Penúltimo texto da segunda série dedicada ao filho, optei por excluí-lo deste volume. São pequenos ensaios teóricos que não se enquadram nos textos que compõem o volume. À semelhança do título presta-se a interpretações sumarentas, mas por agora é melhor não lhes prestar atenção.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/2756344929491019346-6620579363330073353?l=reinucatalao.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://reinucatalao.blogspot.com/feeds/6620579363330073353/comments/default' title='Enviar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://reinucatalao.blogspot.com/2011/01/o-jornal-la-de-casa.html#comment-form' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/2756344929491019346/posts/default/6620579363330073353'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/2756344929491019346/posts/default/6620579363330073353'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://reinucatalao.blogspot.com/2011/01/o-jornal-la-de-casa.html' title='o jornal Lá de casa'/><author><name>Roberto de Deus Silvestre</name><uri>http://www.blogger.com/profile/09466075506706355107</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-2756344929491019346.post-7477704092551240931</id><published>2011-01-23T08:58:00.000+02:00</published><updated>2011-01-23T09:01:41.096+02:00</updated><title type='text'>roberto de deus severo, depoiS silvestre</title><content type='html'>No ano lectivo de 1977/78, eu e o meu irmão frequentámos a primeira classe na escola primária de Barbacena, Alto Alentejo. Havia um rapaz da quarta classe conhecido por Tó que ia para a escola a cavalo e tinha por hábito dar uns estalidos com a língua cuja onomatopeia correspondia ao seu diminutivo, “tó”. Não era todos os dias que o “tó” se fazia ouvir. Passavam-se semanas sem o ver montado, mas a identidade dele ficou marcada por aqueles dois signos, ao ponto de o julgar ausente da escola quando não o via a cavalo ou não lhe escutava o estalido. Este som consiste em fazer vácuo entre a língua e o palatino por trás do maxilar superior, sacando-a com uma enérgica tensão muscular. O estalido que aprendi a imitar trazia consigo a memória do Tó, cujo rosto não fixei nem saberia reconhecer. Só depois de ouvi-lo a fazer o mesmo som, já adulto, é que descobri que Roberto de Deus Severo e o misterioso Tó da minha infância eram a mesma pessoa. &lt;br /&gt;Roberto de Deus Severo nasceu no Cacem, em casa dos avós maternos, a 4 de Setembro de 1968 (no dia em que Salazar foi “operado ao hematoma cerebral causado pela queda de uma cadeira de lona” ), e foi registado na conservatória de Queluz no mesmo dia. Apesar de não lhes ter encontrado laços familiares, era homónimo de um jogador de futebol popularizado pelo diminutivo Beto (campeão nacional pelo Sporting em 2000 e 2002). &lt;br /&gt;Descendente duma família de proprietários rurais, o pai, Manuel Severo, fez a recruta em Mira Sintra, conheceu Rosa de Deus (mais conhecida por Rosarinho) num baile de Carnaval, engravidou-a e casou-se com ela por procuração, quando já se encontrava a cumprir o serviço militar em Angola. Em 1971, RDS é baptizado in extremis na igreja da Agualva, a 27 de Julho (na mesma semana, as capas de revistas da época celebravam a graciosa aparição em Lisboa de Inger Nilsson, a intérprete de Pipi das meias altas). No dia seguinte mãe e filho partem para Luanda. O regresso acontece três anos depois, com o 25 de Abril. Nesse mesmo ano RDS entra para a escola em Barbacena e aprende a montar na coudelaria do avô António Severo. &lt;br /&gt;Com a separação dos pais, fica decidida a sua continuação em Barbacena, na casas do avós paternos, até ao fim do ano lectivo. Depois da mãe partir, bate com a cabeça numa pedra a mergulhar na pequena barragem da propriedade e é enviado para Lisboa em risco de perder uma vista. As consequências são imediatas: é-lhe diagnosticado astigmatismo (sem relação com o acidente), passa a usar óculos e a viver com a mãe no Cacem, onde termina a quarta classe. &lt;br /&gt;Rosarinho atribui a esse período o crescente desinteresse do filho pela escola e foi com algum sentimento de culpa que me mostrou um desenho que guardou numa caixa de pau-preto, feito na véspera do quarto aniversário da revolução. O 25 de Abril significava para ele o regresso a Portugal, a vida no campo e o contacto com os cavalos: desenhou um picadeiro, o avô ao centro segurando o cavalo por uma corda e ele a aprender a montar. A professora pendurou no quadro de honra os melhores trabalhos alusivos ao tema e RDS, então com nove anos, chegou a casa furioso por ter sido menosprezado. Os desenhos escolhidos representavam soldados, tanques de guerra e cravos enfiados em metralhadoras, imagens que ele, excepção feita aos cravos, relacionava com os últimos dias que passou em Nova Lisboa, antes de voltar a Portugal.&lt;br /&gt;O ensino secundário corresponde à sua fase problemática. No nono ano é condenado a três dias de suspensão. Três alunos sentados na última fila da sala, entre os quais ele, são acusados de atingir na cabeça uma professora estagiária com o apagador e os paus de giz. Ela baixou-se para apanhá-los e voltou a ser alvejada, desta vez com uma cadeira. Nesse ano, chumba pela primeira vez. &lt;br /&gt;Rosarinho recorda ainda o vexame que sentiu na reunião de pais em que o professor de economia (disciplina opcional) decretou que o filho era o pior aluno da turma. De entre os poucos colegas que se lembravam dele por mim contactados, consegui arrancar esta recordação: numa aula de sociologia a professora expulsou-o da sala por perturbar a lição. Ele virou-se para as colegas que estavam a conversar por trás dele, elas não se denunciaram, ele levantou-se, arrumou os livros e saiu (Marta e Clara, assim se chamavam as alunas impunes, revelou a mesma fonte, que optou pelo anonimato).&lt;br /&gt;A adolescência termina com uma virose que nunca chegou a ser diagnosticada. Os primeiros sintomas da doença surgem durante uma viagem ao Alentejo: “As dores no ombro alastraram-se como espirais e atingiram o máximo da minha consciência no momento de voltarem a recolher, recentrando-se na área onde a dor tinha origem. Sucedia-se outra espiral. No limite da espiral adormecia, mas a dor despertava-me e entrei nesse estado de torpor em que eu era a dor, a consciência um estado de agonia e tudo o mais em meu redor, corpo incluído, o pesadelo. Pela manhã, outra vez deitado no divã, não estava acordado nem a dormir. Desaparecera a agonia e o pesadelo, era apenas uma dor com as suas diferentes notas e tonalidades passeando-se nas cinco linhas duma pauta musical. Por trás da porta que dava para a rua, escutei passos a aproximarem-se e depois a afastarem-se na calçada, ocasionalmente coroados por uma voz. As folhas dos choupos agitavam-se do outro lado da rua, o motor de um carro despertava num tímpano, fazia piruetas no interior do crânio e alojava-se na dor.”  &lt;br /&gt;Depois de ser observado, primeiro no hospital de Elvas, depois nas urgências de S. José, é assistido em casa por um médico particular, que lhe debela uma septicemia: “O braço parecia uma tromba de elefante coberta de manchas. O médico surgiu-me num relance e o inchaço desapareceu no relance seguinte. A consciência regressava para uma visita, confirmava que a dor ainda lá estava e desaparecia outra vez. Numa dessas visitas à minha consciência, o meu corpo era velado pelo Rui Pereira. Encontrei-o sentado no cadeirão, ao lado da cama, a tirar notas da enciclopédia. Perguntei-lhe se tinha chegado há muito tempo. Respondeu-me que não, mas as três páginas de notas traíram-no.”&lt;br /&gt;Internado no serviço de ortopedia de S. José, foge do hospital ao fim dum mês de tratamentos e dirige-se para a Festa do Avante!, onde conhece a futura mulher. Vera, que o reconhece de vê-lo nos corredores da escola, encontra-o numa tenda de discos a namorar a capa de Closer, dos Joy Division, e mete conversa. A 26 de Abril de 1987, Joana João Roque Severo nasce “de parto prematuro”. Frequenta o décimo-primeiro ano e volta a chumbar. E no ano seguinte, em que é repetente, Vera engravida outra vez. Jaime Roque nasce a 6 de Junho de 1988. Nesse Verão, RDS, semanas antes de fazer vinte anos, e Vera São Roque, um ano mais velha, casam-se sob pressão familiar e vão habitar uma pequena casa de três divisões no pátio Joaquim Dias.&lt;br /&gt;Em 1989 entra para o curso de agronomia na Universidade de Évora, que não chega a frequentar, e no mesmo ano lectivo inscreve-se no curso de jornalismo da Universidade Autónoma de Lisboa (“um erro terrível”, confessaria mais tarde). Outra vez pressionado pela família, que lhe paga as propinas, termina a licenciatura, mas com excepção das aulas de Alfredo Margarido pratica o absentismo e o único trabalho colectivo que integra tem como resultado a ruptura com os colegas, por ser “completamente desprovido de espírito de grupo”. No quinto ano escreve um guião para a cadeira de Técnicas de Argumento. O exercício consiste em alterar o final de Casablanca, que tem como pano de fundo a Segunda Guerra Mundial. RDS, que detesta  o filme, ignora o enredo de espionagem e a história amorosa e troca as personagens interpretadas por Bogart e Bergman por um casal africano em fuga pelo deserto, com o objectivo de se refugiar na Europa. &lt;br /&gt;Entre os vizinhos, no meio familiar, recorda-se um homem reservado, tímido antipático até. Isso deve-se a uma tendência desconcertante para reagir aos bons dias de alguém com um hum acompanhado de aceno de cabeça, assim como perder-se em ans e ufs à falta de resposta para perguntas tão simples como “essa saúde” ou “os filhos estão bem?” Joana Severo recorda uma ocasião em que ia na rua de mão dada com o pai, foi abordada por uma amiga de Vera que lhe perguntou “é a tua filha” e ele respondeu, depois de fazer uma pausa, “não sei”.  &lt;br /&gt;A primeira memória que Joana Severo tem do pai (“e não tenho memória de outro acontecimento anterior a este”, como me escreveu) passa-se no Alentejo, na casa do bisavô António: “Durante a hora da sesta a minha mãe deitou-se ao lado do meu irmão, que ainda era bebé, e encontrei o meu pai às escuras estendido no sofá da sala. Deitei-me nas suas costas e adormeci abraçada ao pescoço dele. Quando acordei, estava às cavalitas dele a passear num campo de penedos que tapavam a luz da tarde, em frente a uma colina que parecia uma barriga com sobreiros em volta do umbigo. Os cavalos pastavam na forragem amarela do sol e pareciam ter sido estampados no tecido liso da encosta”.&lt;br /&gt;O desprezo que nutria pela televisão era proporcional ao ressentimento duma paixão não correspondida. Joana Severo: “Estou convencida de que os jogos e brincadeiras em que nos envolvia, a mim e ao meu irmão, resultavam duma estratégia para nos manter afastados o mais tempo possível da sua influência”. De acordo com Rosarinho, na sua juventude “passava horas infinitas” a ver televisão e durante as refeições recusava sentar-se à mesa se estava a dar algum programa do seu interesse. Joana Severo: “É provável que nos quisesse educar de maneira diferente. Preferia ver-nos como protagonistas duma história nossa a ser espectadores passivos das histórias dos outros”.&lt;br /&gt;Tinha pelos filhos um interesse sem autoridade e os amigos deles eram recebidos em casa com simpatia. Quer dizer, com simpatia à sua maneira. Joana Severo: “Quando vínhamos acompanhados, era capaz de refugiar-se no escriptorio de mestre Vaquinhas . De surpresa, preparava-nos um lanche especial, depois batia à porta do quarto e quando abríamos a porta já ele tinha desaparecido. Restava o tabuleiro com a comida, onde costumava deixar um poema cómico, uma gravação com música excêntrica ou um arranjo floral tão esquisito que quase sempre nos fazia rir, como um molho de malmequeres enfiados numa boneca sem cabeça ou uma rosa com a haste cheia de picos mergulhada numa garrafa de betadine”. &lt;br /&gt;A relação com a mulher aparentemente era distante e cordial. Joana Severo: “Nunca consegui perceber se ele a escutava com atenção ou apenas se limitava a suportá-la em silêncio, mas surpreendi-o por diversas vezes a fazer-lhe massagens.” Este padrão de comportamento repetia-se com os filhos: “Os carinhos e brincadeiras que nos dedicava aconteciam sempre longe da vista de terceiros”. Os seus gestos, a sua forma de olhar, eram demasiado racionais para se parecerem com ternura. “Parecia estar sempre a analisar os prós e os contras dum problema. Em momentos de irritação a minha mãe imitava uma expressão da minha tia [meia-irmã de RDS da parte do pai] e acusava-o de ser recalcado. Ele limitava-se a sorrir ou a ignorá-la, o que a deixava furiosa”.&lt;br /&gt;Embora nunca lhe tenha escutado um queixume, não chegou a exercer a profissão para a qual estudou. No final do curso a universidade ofereceu-lhe um estágio no Diário de Notícias. Recusou. Fez parte da primeira geração de portugueses a frequentar massivamente o ensino superior e o excesso de licenciados em estudos humanísticos gerou um desequilíbrio no mercado de trabalho. Apesar desse período ter assistido a uma explosão de novas publicações e ao surgimento dos canais privados, a maioria não chegou a ter uma carreira relacionada com a sua área. &lt;br /&gt;Os trabalhos que arranjava eram pequenos serviços e empregos de ocasião. Sobrava-lhe tempo para ajudar a mulher, que era florista e decoradora de interiores, assim como a mãe, que se dedicava a pequenos negócios de compra-e-venda. Ao fim de vários anos a enviar currículos para as redacções (recusou um contacto meu para trabalhar no Jornal de Sintra), inscreveu-se na secção de pessoal da CP apenas com o certificado de 12º ano. Ainda fez testes para ser maquinista, mas uma tendinite na mão direita impediu-o de acabar a formação. &lt;br /&gt;Trabalhou durante um ano como fiscal na Linha de Sintra até Rosarinho o convencer a demitir-se, depois de ser atacado por um bando de delinquentes sem bilhete.  Vera também não gostava de vê-lo naquele trabalho e depois de vê-lo furar o passe duma passageira julgando que era o bilhete passou a evitar ir a Lisboa de comboio quando ele estava de serviço. Eu próprio fui testemunha da sua distracção, numa viagem em que ele picou o meu bilhete e respondeu “estou” depois de lhe perguntar como é que estava. Um vigoroso aperto de mão fez-me estalar o dedo mindinho, mas a ajuizar pelo seu comportamento até mudar de carruagem estou certo que não me reconheceu, nem tão pouco estranhou cumprimentar um desconhecido.&lt;br /&gt;Por três vezes frequentámos as mesmas escolas, mas só em meados da década de 90 nos conhecemos. Eu era colaborador do Público, escrevia sobre música no suplemento Poprock e às quartas-feiras fazia sessões de dee-jaying (como então lhe chamávamos) no DNA, um bar da Agualva onde passava as novidades que recebia no jornal misturadas com a minha colecção particular. Salvo uma ou outra ocasião especial, o bar era pouco frequentado e acabou por estabelecer-se uma relação de cumplicidade entre os clientes habituais. Depois da hora de fecho, o DNA virava clube privado. A música alternava entre discos dos anos oitenta e as novas tendências de então (jungle, música electrónica, trip-hop). Entre saúdes com unhas de vodka, hinos geracionais, linhas de coca e charutos de haxixe, procurávamos manter-nos num permanente estado de euforia, que um ou outro incidente tornava apoteótico. Foi uma época de ternura desesperada e de felicidade ilusória, quiçá irrelevante e indiferente à sua decadência, mas deixou ao menos um rasto de extravagância que o passar dos anos deitou a perder. &lt;br /&gt;Para quem nasceu ou cresceu nos subúrbios, entre paredes de betão, dificilmente se deixa convencer que há um mundo de oportunidades à sua espera. Essa é a ilusão dos pais. Embora com um modo de vida que lhe era próprio, RDS partilhou com tantos outros de nós pertencentes à sua geração essa mesma atitude passiva e individualista analisada por George Orwell num ensaio  dedicado a Henry Miller (escritor que RDS detestava). À semelhança da analogia desenvolvida por Orwell, RDS também parecia habitar o interior duma baleia transparente. &lt;br /&gt;Foi a primeira pessoa a quem ouvi dizer que acreditar no poder duma sociedade se transformar para melhor é apenas menos primitivo do que acreditar em super-heróis ou em deus-salvador. Suicidas, niilistas ou tão simplesmente gente desiludida concordaria com ele, mas há que seguir a origem do raciocínio. Herdeiro duma família de proprietários rurais, filho de um casal de retornados, reencontrou nos subúrbios de Lisboa comunidades inteiras de refugiados da guerra e da miséria: os mesmos que deveriam ter beneficiado com o fim do modelo colonial ou com o fim do modelo latifundiário. Para um escritor do gesto circunscrito ao quotidiano como ele, o que escapa à consciência do indivíduo gera confusão e injustiça e nenhuma mudança histórica pode servir de exemplo, nem a evitar, nem a seguir. Tal como uma das suas personagens sugere, um homem apenas se distingue quando rodeado de burros. Promover os burros à condição de homens vem dificultar a tarefa, mas não elimina a necessidade de um ou outro querer distinguir-se enquanto burro.&lt;br /&gt;Muitas histórias apagam, ou não chegam a inscrever, o ponto de vista original. Quase todas no entanto começam da mesma maneira: à espreita. Recoloquemos o nosso amigo no seu modesto escritório, a porta encostada, o ruído doméstico da vizinhança ressoando através de paredes mal isoladas, a janela aberta da sala que dá para a rua.&lt;br /&gt;Em 2004, a família muda-se para um rés-do-chão na rua D. José. O apartamento, sensivelmente maior do que as casas que havia habitado nos quinze anos anteriores, tem uma pequena divisão interior onde monta o seu escritório. RDS tem finalmente privacidade para escrever. Nos seus textos o autor mantém-se na sombra, mas … lá está ela! usando uma realidade a que não pertence para entrar na ficção que desenha o seu contorno. &lt;br /&gt;Poucos meses antes da doença atrás relatada, e que veio a constituir um marco que alterou o rumo da sua vida, RDS acompanhou a mãe a uma consulta com uma médium, que depois de observar o filho lhe garantiu que ele tinha a “caixa fechada” (para o efeito, estava protegido de vir a tornar-se anfitrião de algum espírito ou alma penada). O diagnóstico terá afastado de Rosarinho o receio quanto ao papel dos fantasmas no comportamento do filho, mas estando a par da sua falta de disciplina ou atenção para assuntos práticos, a falta de pontualidade endémica, o desenrolar de um sonho mais urgente do que o toque de despertador, a resolução de problemas a dever-se menos à tomada de decisões do que ao desenovelar caótico do acaso, a afectividade triunfando sobre o respeito, uma torre de marfim erguida a observar fendas na máscara da realidade, espreitadas em jogos de acaso, leituras de I-ching, cartas astrológicas e substâncias alucinogénicas, a imaginação com os pés assentes na infância e a cabeça nas nuvens de um tempo instável e fugitivo… podemos decretar que RDS representa o exemplo mais puro do escritor de “caixa aberta”. &lt;br /&gt;A atenção que deu ao curso das “pequenas percepções”, das introspecções da memória e dos sonhos, acima de tudo dessa sombra projectada pelo processo criativo, viria a gerar na sua obra uma espécie de realidade fantasmagórica, com o autor no papel de tímido monstro papão, indeciso entre se esconder do elenco ou assombrar as personagens com o fantasma do passado. &lt;br /&gt;Os anos passam, as pessoas mudam, as vidas dispersam-se e as amizades são conservadas, protegidas que ficam dos desentendidos causados pela rotina. A falsa esplanada à beira do lago artificial no shopping-Cacem tem sido um ponto de encontro privilegiado para retomar o contacto com relações de longa data. O lago circunda uma ilha composta de plantas tropicais. Na margem oposta à esplanada há uma praia de seixos, onde uma comunidade de tartarugas vive hipnotizada por um ondulado céu listado, ora azul, ora cinzento (o telhado é composto por um conjunto alternado de placas de betão e de plástico). As últimas vezes em que me cruzei com RDS aconteceram neste cenário. &lt;br /&gt;Numa dessas ocasiões fui encontrá-lo sentado a uma das mesas de ferro que se perfilam à beira do lago, com um estojo de xadrez sobre o tampo de vidro. Pareceu-me tão atento a estudar o adversário ao ponto de me sentir ludibriado por um  delírio óptico quando ao aproximar-me dele confirmei que estava sozinho (ao lado da cadeira em frente à sua, uma planta lançava uma folhagem de braços compridos e ombros largos, embora descaídos). Convidou-me a jogar consigo e explicou-me as regras da sua versão de xadrez. O objectivo era obrigar o adversário a fazer cheque ao nosso rei, comendo-lhe o mínimo de peças. “Se fizer cheque-mate perco, mas se o adversário for obrigado a fazer cheque ao meu rei e tiver comido menos peças do que eu, também não ganho.” De acordo com a sua versão, o adversário tornava-se um parceiro estratégico. Perguntei-lhe como é que lhe ocorreu a ideia. “A jogar sozinho”.&lt;br /&gt;Este encontro deu-se em finais de 2004, numa altura em que eu, outra vez a viver no Cacem, ocupava o apartamento da minha avó (que morrera um ano antes) e me preparava para estrear “Elogio da classe política portuguesa”, na galeria ZDB, em Lisboa. Ainda cheguei a convidá-lo para participar na peça, mas ele não levou o convite a sério e Rui Lorga, que vivia então na Amadora e fazia leituras de Tarot  na Loja da João (na Rua da Atalaia, em frente ao bar do Sr. Li, no Bairro Alto), ocupou o seu lugar.&lt;br /&gt;Os encontros casuais em que deambulávamos pelas ruas, nos sentávamos à beira do lago do shopping-Cacem, ou ficávamos encostados ao balcão do DNA, desaguavam quase sempre em discussões sobre cinema, literatura ou arte em geral. Nunca me ocorreu perguntar-lhe se também escrevia, nem ele, qual parodiante a brincar às teses de “não-inscrição”, fez alguma vez menção ao seu trabalho. Ignoro se chegou a submeter algum original para avaliação profissional. Se não o fez, pergunto-me quanto mais tempo iria esperar, se ainda fosse vivo. &lt;br /&gt;A 29 de Novembro de 2009, dois anos após a morte do filho num acidente de motorizada, RDS pegou no carro de Vera, entrou na IC19 em direcção a Lisboa e parou na curva de Tercena, onde Jaime teve o acidente. Saiu do carro abraçado a um ramo de gladíolos e foi apanhado por um camião. Com excepção da pancada que lhe abriu o crânio do occipital até à nuca, o corpo ficou intacto. Chovia copiosamente. Em casa, deixou o computador ligado com um documento aberto ainda por guardar, onde escreveu o poema que incluí em epígrafe às crónicas de Fronteira Óptica.&lt;br /&gt;“Esta vida é uma porcaria”, comentara com a filha meses antes, ao desligar o telefone a um amigo de Jaime que não soubera do desastre e a quem não teve coragem de contar o que tinha acontecido. Olhou para Joana, desfez a sua habitual “cara de poucos amigos” e disse-lhe em jeito de justificação: “Estou a citar o Morrissey”. Joana Severo: “Disfarçou com um sorriso tão terno, tão rápido, tão encantador, ao ponto de me ocorrer que podia ter sido um homem bem bonito. Em nenhum outro retrato captei um momento assim.” Joana Severo não tinha a câmara com ela e a oportunidade sumiu-se.&lt;br /&gt;Cabelo castanho claro ondulado, ralo na coroa e com entradas nas têmporas, olhos azuis eternamente arregalados, lábios finos, nariz pequeno (com narinas redondas e asas carnudas). A barba escondia um queixo delicado e parecia descolar-se do rosto, à semelhança dos cromos numa velha caderneta amolecida pela humidade. De tez pálida-acinzentada (excesso de tabaco, nutrição insuficiente), dir-se-ia encarnar o lirismo duma infância naufragada. Esguio, baixo, com as pernas ligeiramente arqueadas, em andamento tinha uma tendência para projectar o pescoço e encolher as clavículas, o que lhe dava uma curvatura de pardal saltitante com as asas recolhidas. O oposto da figura imponente montada a cavalo da minha infância.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/2756344929491019346-7477704092551240931?l=reinucatalao.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://reinucatalao.blogspot.com/feeds/7477704092551240931/comments/default' title='Enviar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://reinucatalao.blogspot.com/2011/01/roberto-de-deus-severo-depois-silvestre.html#comment-form' title='1 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/2756344929491019346/posts/default/7477704092551240931'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/2756344929491019346/posts/default/7477704092551240931'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://reinucatalao.blogspot.com/2011/01/roberto-de-deus-severo-depois-silvestre.html' title='roberto de deus severo, depoiS silvestre'/><author><name>Roberto de Deus Silvestre</name><uri>http://www.blogger.com/profile/09466075506706355107</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>1</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-2756344929491019346.post-8686773464717644265</id><published>2010-03-24T18:33:00.003+02:00</published><updated>2010-03-24T18:37:48.316+02:00</updated><title type='text'>151 Autoretrato assistido por Miguel Matos, 9 Jan. 2010</title><content type='html'>&lt;a href="http://4.bp.blogspot.com/_74ubjORj7eI/S6o_oPf3CRI/AAAAAAAAAEc/AuoEjRtGWgM/s1600/fotos+miguel+cacem+9-1-2010+151.JPG"&gt;&lt;img style="display:block; 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Isentamo-nos da vida porque não é o nosso elemento? Ninguém distribui certificados de inexistência. É preciso preserverar na respiração, sentir o ar a queimar nos lábios, acumular arrependimentos no coração duma realidade que não desejámos, e renunciar a dar uma explicação do Mal que entretém a nossa perda. Quando cada momento do tempo se precipita sobre nós como um punhal, e a nossa carne, instada pelos desejos, recusa petrificar-se, - como enfrentar um só instante acrescentado à nossa condição? Com a ajuda de que artifícios é que encontraríamos a força da ilusão para ir à procura duma outra vida, duma vida nova? É que todos os homens que lançam um olhar sobre as suas ruínas passadas imaginam, para evitar as ruínas futuras - que está no seu poder recomeçar qualquer coisa de radicalmente novo. Fazem a si próprios uma promessa solene e esperam por um milagre que os tire desse buraco medíocre onde o destino os enterrou. Mas nada acontece. Continuam a ser os mesmos, modificados apenas pela acentuação desse pendor para a decadência que os caracteriza. Não vemos à nossa volta outra coisa que não seja inspirações e ardores degradados: todos os homens prometem tudo, mas todos os homens vivem para conhecer a fragilidade da sua chama e a falta de génio da vida. A florescência do nosso futuro: caminho de aparência gloriosa, que conduz ao fracasso; esgotamento dos nossos dons: camuflagem da nossa gangrena... sob o sol triunfa uma Primavera de algas; a beleza ela mesma mais não é do que a morte a pavonear-se nos rebentos... Não conheci nenhuma "vida nova" que não fosse ilusória e comprometida desde o início, vi cada homem avançar no tempo para se isolar numa ruminação angustiada até cair em si mesmo com, em jeito de renovação, a crispação imprevista das suas esperanças.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;EMIL CIORAN [volto a repetir: ler Tchioran]&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/2756344929491019346-1368054052689981415?l=reinucatalao.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://reinucatalao.blogspot.com/feeds/1368054052689981415/comments/default' title='Enviar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://reinucatalao.blogspot.com/2009/09/derisao-de-uma-vida-nova.html#comment-form' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/2756344929491019346/posts/default/1368054052689981415'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/2756344929491019346/posts/default/1368054052689981415'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://reinucatalao.blogspot.com/2009/09/derisao-de-uma-vida-nova.html' title='A derisão de &quot;uma vida nova&quot;'/><author><name>Roberto de Deus Silvestre</name><uri>http://www.blogger.com/profile/09466075506706355107</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-2756344929491019346.post-751724378479657168</id><published>2009-09-30T04:09:00.006+03:00</published><updated>2009-09-30T11:38:25.343+03:00</updated><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='Cioran'/><title type='text'>Recursos de auto-destruição</title><content type='html'>Condenados a uma agonia sem génio, não somos nem autores dos nossos extremos, nem árbitros dos nossos adeuses; o fim deixou de ser o nosso fim: a excelência duma iniciativa única - pela qual resgataríamos uma vida insípida e sem talento - faz-nos falta, assim como nos falta o cinismo sublime, o fausto antigo dessa arte de acabar. Rotineiros do desespero, cadáveres que se aceitam, sobrevivemo-nos todos e não morremos para outra coisa que não seja cumprir uma formalidade inútil. Como se a nossa vida apenas se agarrasse ao adiar do momento em que poderíamos libertar-nos dela.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;EMIL CIORAN [ler Tchioran]&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/2756344929491019346-751724378479657168?l=reinucatalao.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://reinucatalao.blogspot.com/feeds/751724378479657168/comments/default' title='Enviar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://reinucatalao.blogspot.com/2009/09/recursos-de-auto-destruicao.html#comment-form' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/2756344929491019346/posts/default/751724378479657168'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/2756344929491019346/posts/default/751724378479657168'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://reinucatalao.blogspot.com/2009/09/recursos-de-auto-destruicao.html' title='Recursos de auto-destruição'/><author><name>Roberto de Deus Silvestre</name><uri>http://www.blogger.com/profile/09466075506706355107</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-2756344929491019346.post-7683250976508834688</id><published>2009-09-30T04:03:00.003+03:00</published><updated>2009-09-30T04:18:39.552+03:00</updated><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='Cioran'/><title type='text'>O anti-profeta</title><content type='html'>Outrora eu tinha um "eu"; não sou mais do que um objecto... empanturro-me com todas as drogas da solidão; as do mundo eram demasiado fracas para mo fazer esquecer. Tendo morto o profeta em mim, como teria eu aindaum lugar entre os homens?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;EMIL CIORAN [ler Tchioran]&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/2756344929491019346-7683250976508834688?l=reinucatalao.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://reinucatalao.blogspot.com/feeds/7683250976508834688/comments/default' title='Enviar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://reinucatalao.blogspot.com/2009/09/o-anti-profeta.html#comment-form' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/2756344929491019346/posts/default/7683250976508834688'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/2756344929491019346/posts/default/7683250976508834688'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://reinucatalao.blogspot.com/2009/09/o-anti-profeta.html' title='O anti-profeta'/><author><name>Roberto de Deus Silvestre</name><uri>http://www.blogger.com/profile/09466075506706355107</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-2756344929491019346.post-8618268133751735584</id><published>2009-09-30T03:40:00.002+03:00</published><updated>2009-09-30T03:44:02.828+03:00</updated><title type='text'>A cidade dos cabos</title><content type='html'>Os cabos cobrem o céu desta cidade. Não sei se escreva teia, ou estendal, para descrevê-los. Mal esticados entre os postes, ondulam à beira da estrada, por cima dos passeios, descrevem uma trama nos cruzamentos e sugerem costuras nas ruas da cidade. Enfim, as costuras de um tecido roto e que precisa de ser passajado. Ontem, depois de perder os meus cinco minutos de contemplação a observá-los, decidi contar quantos cabos pode suportar um poste só. Desisti quando cheguei a 44. O que tem piada, e não se percebe, é que pendurados aos postes estão também rolos de cabos, o que quer dizer que alguns destes cabos terminam naquele poste… o que quer dizer que a ligação, pelo menos no que respeita a alguns cabos, fica ali interrompida… para que servem então? Também os prédios estão cheios de costuras: gigantescas telas com anúncios publicitários presas por cordas enrolam-se aos prédios… passa o tempo, a tela desaparece, mas ficam as cordas enroladas aos prédios… esta cidade está atada e presa por fios... sem eles, provavelmente, desmoronar-se-ia. É o seu encanto: uma cidade funâmbula.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/2756344929491019346-8618268133751735584?l=reinucatalao.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://reinucatalao.blogspot.com/feeds/8618268133751735584/comments/default' title='Enviar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://reinucatalao.blogspot.com/2009/09/cidade-dos-cabos.html#comment-form' title='1 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/2756344929491019346/posts/default/8618268133751735584'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/2756344929491019346/posts/default/8618268133751735584'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://reinucatalao.blogspot.com/2009/09/cidade-dos-cabos.html' title='A cidade dos cabos'/><author><name>Roberto de Deus Silvestre</name><uri>http://www.blogger.com/profile/09466075506706355107</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>1</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-2756344929491019346.post-8551290961435722538</id><published>2009-09-30T03:37:00.000+03:00</published><updated>2009-09-30T03:39:35.586+03:00</updated><title type='text'>A cidade dos corvos</title><content type='html'>Há quem diga que esta cidade tem dois milhões de habitantes, há quem diga que é o dobro. Não tem importância, os corvos são mais ainda e ninguém os conta. As árvores também abundam na cidade, de este a oeste, e com uma diversidade de espécies que vós, portugueses, não podeis avistar sequer nos parques naturais do vosso país. Pelo que não lhes falta poiso. Chega o fim da tarde, essa hora a que antigamente se chamava “entre cão e lobo”, e nuvens negras atravessam o céu, na direcção Leste. Pela madrugada, entre lobo e cão, dirigem-se novamente para Oeste. Provavelmente existe uma explicação singela para esta migração diária. Aliás, esta travessia geográfica também se traduz na psicologia dos romenos cosmopolitas. Durante o dia comportam-se como um povo mais ou menos ocidental, depois regressam a casa. Um novo dia começa e lá voltam eles a passar-se mais ou menos para o outro lado. É um ziguezague permanente: no discurso, europeus, na prática orientais. É um pouco como vós: quando olhais para a carteira só pensais em ser europeus; mas quando se trata de fazer despesa…&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/2756344929491019346-8551290961435722538?l=reinucatalao.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://reinucatalao.blogspot.com/feeds/8551290961435722538/comments/default' title='Enviar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://reinucatalao.blogspot.com/2009/09/cidade-dos-corvos.html#comment-form' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/2756344929491019346/posts/default/8551290961435722538'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/2756344929491019346/posts/default/8551290961435722538'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://reinucatalao.blogspot.com/2009/09/cidade-dos-corvos.html' title='A cidade dos corvos'/><author><name>Roberto de Deus Silvestre</name><uri>http://www.blogger.com/profile/09466075506706355107</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-2756344929491019346.post-520524512338611862</id><published>2009-09-30T03:36:00.000+03:00</published><updated>2009-09-30T03:37:42.665+03:00</updated><title type='text'>A cidade dos castanheiros</title><content type='html'>Nesta cidade abundam os castanheiros. Nos parques, nas ruas, nos quintais, por esta altura do ano é uma chuva de castanhas: as suas cápsulas cobertas de picos aterram no pavimento, abrem-se num trascaspaz e lá de dentro solta-se uma valente e pesadona castanha, infeliz por não ter aberto a cabeça a nenhum peão. Os castanheiros são habitualmente de grande porte, nesta terra, e o seu fruto pouco tem a ver com a nossa castanha pequenina, em forma de coração, tenrinha, perfumada e que tão bem sabe quando tostada no assador, com uma fina película de cinza. Não, estas castanhas, brilhantes e polidas, são barrigudas, informes, mais duras e mal gostosas do que a bolota. Não servem para nada a não ser levarem uns pontapés pela manhã, a caminho do trabalho. Quanto a elas, vingativas, não desistem enquanto não nos acertam uma cabeçada. Já não sei em que livro da Agustina ela escreve sobre um tempo em que se aferia a riqueza de alguém pelo número de castanheiros de que era proprietário. Se assim fosse, esta cidade seria rica. Provavelmente até o é. Só não sabe o que fazer dos castanheiros. De tão bonitos, não servem para nada.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/2756344929491019346-520524512338611862?l=reinucatalao.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://reinucatalao.blogspot.com/feeds/520524512338611862/comments/default' title='Enviar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://reinucatalao.blogspot.com/2009/09/cidade-dos-castanheiros.html#comment-form' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/2756344929491019346/posts/default/520524512338611862'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/2756344929491019346/posts/default/520524512338611862'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://reinucatalao.blogspot.com/2009/09/cidade-dos-castanheiros.html' title='A cidade dos castanheiros'/><author><name>Roberto de Deus Silvestre</name><uri>http://www.blogger.com/profile/09466075506706355107</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-2756344929491019346.post-5453794619229293335</id><published>2009-09-30T03:35:00.000+03:00</published><updated>2009-09-30T03:36:50.188+03:00</updated><title type='text'>O ídolo cicatrizado</title><content type='html'>Os amigos achavam-no culto, inteligente (embora discreto), até lhe reconheciam sentido de humor. As mulheres (assim como um ou outro rapaz) apreciavam-lhe ainda a figura atlética e esguia, com um rosto bonito e gentil. Um tique, não sei se nervoso, se causado pelo facto de precisar de óculos, fazia-o piscar os olhos. O facto de ter um sinal na pálpebra direita tornava o pisca-pisca ainda mais desconcertante. V., a namorada de longa data, pelo contrário, era considerada uma mulher estúpida, afectada, ignorante e presunçosa. Resumindo: era muito feia. Quando uma união tão improvável se torna duradoira, abundam as teorias maledicentes (ignoremo-las). Depois deu-se o acidente. G. foi atropelado enquanto conduzia a sua bicicleta e ficou desfigurado. Uma enorme cicatriz em forma de y, na continuação da comissura dos lábios, fez a expressão amável e terna desaparecer, dando lugar a um ricto estático. O tique nos olhos, entretanto, desapareceu. O rapaz encantador de antes era o mesmo, mas adivinhava-se agora na sua expressão um sentimento de repugnância, ou mesmo de desprezo. Um ano depois do acidente, G. saiu de casa. Era o fim duma relação que durava há sete anos. Ele tinha sido o ídolo dela. Depois, com o acidente, tudo mudou. “Nos últimos tempos já nem conseguia disfarçar. Tratava-o muito mal.” Não era verdade. V. continuou a tratá-lo da mesma maneira: como um espelho.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/2756344929491019346-5453794619229293335?l=reinucatalao.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://reinucatalao.blogspot.com/feeds/5453794619229293335/comments/default' title='Enviar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://reinucatalao.blogspot.com/2009/09/o-idolo-cicatrizado.html#comment-form' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/2756344929491019346/posts/default/5453794619229293335'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/2756344929491019346/posts/default/5453794619229293335'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://reinucatalao.blogspot.com/2009/09/o-idolo-cicatrizado.html' title='O ídolo cicatrizado'/><author><name>Roberto de Deus Silvestre</name><uri>http://www.blogger.com/profile/09466075506706355107</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-2756344929491019346.post-9121884550197655264</id><published>2009-09-30T03:31:00.001+03:00</published><updated>2009-09-30T03:35:09.107+03:00</updated><title type='text'>Entre duas mortes</title><content type='html'>Numa bela noite de primavera em quarenta e quatro,&lt;br /&gt;em plena guerra, matou-a.&lt;br /&gt;Ele tinha 50 anos, ela 32.&lt;br /&gt;Desconfiava que andava a enganá-lo.&lt;br /&gt;E temia que fugisse com o outro.&lt;br /&gt;Tais pensamentos tornaram-se insuportáveis. &lt;br /&gt;Já tinha 50 anos. Encarquilhava.&lt;br /&gt;Matou-a numa noite de primavera&lt;br /&gt;em quarenta e quatro, com um martelo.&lt;br /&gt;Escondeu o cadáver no quintal, no canteiro das alfaces.&lt;br /&gt;Dois metros debaixo da terra.&lt;br /&gt;Numa noite de Maio.&lt;br /&gt;A policia de Nantes anunciou que a esposa &lt;br /&gt;desapareceu de casa. Com um oficial alemão.&lt;br /&gt;A polícia procurou-a, tanto quanto se podia procurar em quarenta e quatro&lt;br /&gt;uma mulher fugida com um oficial alemão.&lt;br /&gt;Onde é que se encontra uma mulher fugida de casa&lt;br /&gt;com um oficial aposentado?&lt;br /&gt;Não a encontraram. A guerra estava no auge.&lt;br /&gt;Havia dramas mais importantes. Os da humanidade.&lt;br /&gt;Veio a paz. Voltou a casar-se. Com uma viúva de guerra.&lt;br /&gt;Manteve-se na sua terra, em sua casa,&lt;br /&gt;com quintal, perto de Nantes, no bairro Rézé, às portas da cidade de quem vem do sul.&lt;br /&gt;Passaram-se anos. Deu-se a bomba atómica.&lt;br /&gt;Foi descoberta a penicilina. Novos modelos de frigoríficos.&lt;br /&gt;Novos fertilizantes químicos. O tratamento com vitaminas.&lt;br /&gt;O nevrostenin. Novas ideias filosóficas.&lt;br /&gt;Chegou-se à Lua. Floresceram biliões de flores.&lt;br /&gt;Caíram biliões de toneladas de neve.&lt;br /&gt;Biliões de metros cúbicos de chuva. Criou-se trigo.&lt;br /&gt;Milho. Nabiças. Luzerna. Trevo. Trinitrotolueno. &lt;br /&gt;Escreveram-se milhões de histórias. Biliões de poemas.&lt;br /&gt;Passaram-se trinta anos, menos um.&lt;br /&gt;Ele chegou aos 80 anos. Envelheceu bastante.&lt;br /&gt;Já não lhe restava muito tempo.&lt;br /&gt;Numa noite de Maio de ’73 telefonou &lt;br /&gt;à polícia.&lt;br /&gt;A polícia veio a casa dele. Conduziu-os ao quintal.&lt;br /&gt;Era primavera. Fê-los cavarem&lt;br /&gt;e descobriram-na, dois metros debaixo da terra.&lt;br /&gt;Nenhum diário no mundo revelou o seu nome.&lt;br /&gt;Um correspondente local &lt;br /&gt;passou a notícia a Paris.&lt;br /&gt;A mulher chamava-se Marguerite.&lt;br /&gt;Era só o que era preciso, para a informação ter um rosto.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;RADU COSASHU&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/2756344929491019346-9121884550197655264?l=reinucatalao.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://reinucatalao.blogspot.com/feeds/9121884550197655264/comments/default' title='Enviar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://reinucatalao.blogspot.com/2009/09/entre-duas-mortes.html#comment-form' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/2756344929491019346/posts/default/9121884550197655264'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/2756344929491019346/posts/default/9121884550197655264'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://reinucatalao.blogspot.com/2009/09/entre-duas-mortes.html' title='Entre duas mortes'/><author><name>Roberto de Deus Silvestre</name><uri>http://www.blogger.com/profile/09466075506706355107</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-2756344929491019346.post-5454931987289375450</id><published>2009-08-14T15:31:00.003+03:00</published><updated>2009-08-14T15:37:57.854+03:00</updated><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='Burro'/><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='Jurilovca'/><title type='text'>O burro de Jurilovca</title><content type='html'>&lt;div style="text-align: justify;"&gt;Os burros abundam neste país. Tal como os camponeses, de resto. Apesar de tudo, há mais cavalos do que burros. Em Jurilovca, uma vila de pescadores à beira do lago Dolovitza (na província de Dobrogea, a sul do Delta do Danúbio), encontrei um burro mais deagraçado que o Balthazar de Bresson. Uma corda, a fazer de arreio, esgaçara-lhe o pêlo e tinha o cachaço em carne viva. A exposição ao sol e à humidade dera origem a uma película lanígera cor de avelã, que lhe cobria parcialmente o dorso em jeito de capote e a cabeça em forma de gorro. A tristeza do mundo num olhar. Aproximei-me dele. Deu um passo trôpego e encurtou a distância. Quando a miséria  é tanta nunca temas um estranho. Zurrou três vezes antes do barco partir. Cinco dias depois voltei a Jurilovca. Estava no mesmo lugar, preso ao muro, onde se amparava, à procura de sombra. De regresso a Bucareste cruzei-me com outros burros, a puxarem carroças. Vêm-se muitos cavalos a pastar livremente, nos vales e planícies desta terra, mas nunca vi um burro à solta, pensei. Ao fim da tarde, avistei um, numa pastagem. Agitado, caminhava em círculos, reduzia a marcha e arrancava para um novo círculo.&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/2756344929491019346-5454931987289375450?l=reinucatalao.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://reinucatalao.blogspot.com/feeds/5454931987289375450/comments/default' title='Enviar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://reinucatalao.blogspot.com/2009/08/o-burro-de-jurilovca.html#comment-form' title='1 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/2756344929491019346/posts/default/5454931987289375450'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/2756344929491019346/posts/default/5454931987289375450'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://reinucatalao.blogspot.com/2009/08/o-burro-de-jurilovca.html' title='O burro de Jurilovca'/><author><name>Roberto de Deus Silvestre</name><uri>http://www.blogger.com/profile/09466075506706355107</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>1</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-2756344929491019346.post-2283075939917476607</id><published>2009-08-13T23:47:00.003+03:00</published><updated>2009-08-13T23:59:49.674+03:00</updated><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='Radu Cosasu'/><title type='text'>Procuro amigos</title><content type='html'>Procuro amigos. Não posso estar o dia todo&lt;br /&gt;a teus pés, a ler-te jornais.&lt;br /&gt;O barco não tem telefone. O telégrafo Morse&lt;br /&gt;está reservado tal como a última bala no cano.&lt;br /&gt;Para ti. Procuro amigos. Aborreço-me.&lt;br /&gt;Bato à porta de Vito Santangelo. Dorme.&lt;br /&gt;Está doente, após vinte anos de peregrinação&lt;br /&gt;pela Sicília, cantando de aldeia em aldeia, empoleirado&lt;br /&gt;no seu carro, as notícias dos jornais&lt;br /&gt;adaptadas em canções e histórias. Contador de histórias ambulante,&lt;br /&gt;dramaturgo e jornalista como eu, mais cinco ou seis&lt;br /&gt;trabalham como ele na Sicília, quis-me&lt;br /&gt;pendurar a eles, contar histórias como eles,&lt;br /&gt;de aldeia em aldeia, mas não me deixaram,&lt;br /&gt;todas as minhas histórias são histórias de amor –&lt;br /&gt;ele apercebeu-se, tu não – o amor&lt;br /&gt;entre um homem e uma mulher não lhes interessa.&lt;br /&gt;Sicilianos! Proletaristas!* Sectários! Deixa-o&lt;br /&gt;dormir, o meu amigo está cansado – digo a mim mesmo e sigo&lt;br /&gt;para a coberta, mais tarde para a cabine de Claude,&lt;br /&gt;Claude Raymond Dityvon, outro obscuro, sabes lá&lt;br /&gt;quem é o Claude, fotógrafo da Viva, agência&lt;br /&gt;de fotografia para a qual tudo é acontecimento,&lt;br /&gt;um gato a passar entre casas numa aldeia,&lt;br /&gt;o pavor de um emigrante, o isolamento duma quinta,&lt;br /&gt;tudo, tudo, tudo o que é não-acontecimento é acontecimento,&lt;br /&gt;tudo o que é não-irlandêz-cipriota-vietnamita é&lt;br /&gt;tão dramático como a crise energética,&lt;br /&gt;Claude não me abre a porta, revela, amplifica&lt;br /&gt;a cabeça duma avestruz escondida na areia – fala-me através da porta&lt;br /&gt;– nunca se revelou o que vê uma avestruz&lt;br /&gt;no grão de areia em que escondeu&lt;br /&gt;o seu olhar apavorado, ela vê ali os castelos&lt;br /&gt;de Barnabé,&lt;br /&gt;exactamente o mesmo que nós, os não-acontecimentalistas,&lt;br /&gt;em cada demencial canto de rua mesmo à frente dos olhos,&lt;br /&gt;dou mais alguns passos na coberta, uma onda leva-me&lt;br /&gt;até à porta do sueco que ganhou o prémio Nobel,&lt;br /&gt;poeta que começou como eu, o não-nobelizado,&lt;br /&gt;o ignóbil, com Whitman, Maiakovski e Edgar Lee Masters.&lt;br /&gt;Quero rojar-me aos pés de Edgar Lee –&lt;br /&gt;não me abre a porta, dorme, bebeu como um sueco qualquer,&lt;br /&gt;diz-me alumbrado pelo sono. Deixo-lhe por baixo da porta uma&lt;br /&gt;mensagem que escrevi no bolso com a mão direita,&lt;br /&gt;enquanto te acariciava com a esquerda – técnica importada&lt;br /&gt;de um biógrafo de Tolstoi que desta maneira apanhou&lt;br /&gt;o velho, escrevendo num cartão que tinha no bolso tudo&lt;br /&gt;o que dizia o profeta –&lt;br /&gt;escrevi ao sueco, sem que tu soubesses, “amigo, trata-se&lt;br /&gt;do antigo &lt;span style="font-style: italic;"&gt;lager&lt;/span&gt; nazi, transformado em museu,&lt;br /&gt;com hotel, parque de estacionamento e bar –&lt;br /&gt;por razões económicas tem de ser encerrada&lt;br /&gt;a sala em que os carris dos vagões&lt;br /&gt;para o transporte de cadáveres paravam mesmo&lt;br /&gt;à frente dos fornos”. Foi isto que escrevi, enquanto te&lt;br /&gt;acariciava.&lt;br /&gt;Perdoa-me. Volto a ti de joelhos.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-size:100%;"&gt;RADU COSASHU&lt;/span&gt;, 1973, &lt;span style="font-style: italic;"&gt;Poveshti pentru a-mi îmblînzi iubita&lt;/span&gt; (Histórias para domesticar a minha amada)&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;* No original: Proletcultishtii, de proletcultísm (do russo proletkul’tovetz), corrente surgida com a revolução soviética, cujos princípios estéticos se reduzem à criação duma cultura do proletariado.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/2756344929491019346-2283075939917476607?l=reinucatalao.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://reinucatalao.blogspot.com/feeds/2283075939917476607/comments/default' title='Enviar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://reinucatalao.blogspot.com/2009/08/procuro-amigos.html#comment-form' title='2 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/2756344929491019346/posts/default/2283075939917476607'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/2756344929491019346/posts/default/2283075939917476607'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://reinucatalao.blogspot.com/2009/08/procuro-amigos.html' title='Procuro amigos'/><author><name>Roberto de Deus Silvestre</name><uri>http://www.blogger.com/profile/09466075506706355107</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>2</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-2756344929491019346.post-283773035806835729</id><published>2009-08-13T23:37:00.003+03:00</published><updated>2010-06-09T02:15:41.909+03:00</updated><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='Gare de Nord'/><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='Alzheimer'/><title type='text'>À esquerda, Dona Direita</title><content type='html'>&lt;div style="text-align: justify; font-family: times new roman;"&gt;A família de Domna P. comporta-se com ela um pouco à semelhança de como no antigamente se educavam as crianças: com modos bruscos e exaltados, procurando arrancar à força o que lhes resta da infância.&lt;br /&gt;A doença de Domna Dreapta (Senhora Direita) é um mistério de regressão, com tanto de assustador como de fascinante: toneladas de memória cultural desaparecem progressivamente, abrindo caminho aos selvagens canais sensitivos que a educação durante anos drenara até à sua remoção (quase) completa.&lt;br /&gt;Quando não &lt;span style="font-style: italic;"&gt;está&lt;/span&gt; ausente, os olhos de Domna Di assemelham-se a um despertar: o reconhecimento de um  pormenor é quanto basta para lhe aflorar um sorriso no rosto. Algo acabou de ser (re)descoberto.&lt;br /&gt;Domna Direita vai à consulta e, a meio do exame, sorri para a “domna doctor” (és tu, não és?). O filho de Domna Dreapta recebe visitas em casa e ela sorri para uma das convidadas no jardim das traseiras, não porque reconhece a médica, mas porque usa um chapéu de pano branco semelhante ao seu.&lt;br /&gt;Sempre que Domna Dreapta sai de casa, no rés-do-chão, irremediavelmente vira à direita, na direcção das escadarias do prédio. Então, a sua acompanhante, segura-a pelo braço e puxa-a na direcção contrária, onde fica a porta da rua: “La stînga” (à esquerda).&lt;br /&gt;No Verão passado, Domna Dreapta acompanhou a nora à Gare de Nord (a estação de comboios de longo curso em Bucareste). Quando já se encontrava na fila para a bilheteira, ligou ao marido a propósito de horários. A meio da conversa sobre que bilhetes comprar ela disse: “A tua mãe desapareceu”.&lt;br /&gt;O filho de Domna Dreapta partiu imediatamente para a estação, enquanto a mulher virou à direita e entrou no cais de embarque, onde se perfilam mais de uma dezena de linhas que partem em todas as direcções do país. Comboios a partirem e a chegarem, pessoas a entrarem e a saírem, ocorreu-lhe que se Domna Dreapta entrasse para uma das carruagens arriscava-se a nunca mais encontrá-la.&lt;br /&gt;Correu para o gabinete de segurança e pediu para anunciarem o seu nome através do sistema de altifalantes. E se ela não se lembrasse do seu próprio nome? Pediram-lhe uma descrição física… usava um chapéu branco! Nesse instante, a porta do gabinete abriu-se e o vidro reflectiu um vulto a passar, de chapéu branco. A nora virou-se, mas já não viu ninguém através da janela que dava para a rua.&lt;br /&gt;Domna Dreapta estava sentada no banco de trás de um carro particular, quando foi encontrada. O dono do carro, que tinha acabado de arrumar as malas na bagageira, estava tão confuso quanto ela, e não soube explicar como é que ela tinha ali aparecido. A única conclusão para esta história é que, por uma vez, Domna P. não virou à direita. Saiu pela esquerda e foi parar à rua.&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/2756344929491019346-283773035806835729?l=reinucatalao.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://reinucatalao.blogspot.com/feeds/283773035806835729/comments/default' title='Enviar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://reinucatalao.blogspot.com/2009/08/esquerda-domna-p.html#comment-form' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/2756344929491019346/posts/default/283773035806835729'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/2756344929491019346/posts/default/283773035806835729'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://reinucatalao.blogspot.com/2009/08/esquerda-domna-p.html' title='À esquerda, Dona Direita'/><author><name>Roberto de Deus Silvestre</name><uri>http://www.blogger.com/profile/09466075506706355107</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-2756344929491019346.post-4866892213092761098</id><published>2009-08-13T23:23:00.003+03:00</published><updated>2009-08-14T03:13:57.312+03:00</updated><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='Delta do Danúbio'/><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='Portita'/><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='Mar Negro'/><title type='text'>Pseudopolaróides</title><content type='html'>O meu amigo Nuno escreveu: “Um senão: Seria interessante colocares uma fotografia ou outra.”&lt;br /&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;O meu amigo Jorge escreveu: Devias ir lá pondo umas imagens, um dia destes, quer-me parecer.”&lt;br /&gt;Seguem-se algumas polaróides que tirei durante os cinco dias em que estive de férias em Portitza (Portinha), Grindul Cosha, uma linha de costa que fica entre o complexo de lagoas e lagunas do Delta do Danúbio e o Mar Negro:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Homem de bigode, óculos e chapéu, com a pila a espreitar sob a bainha da camisa. Nas mãos segura um livro. Os pés estão no mar.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Rapaz, perseguido por uma matilha de cães, salta da sua bicicleta (que abandona às bestas) e, no mesmo movimento, pula a cerca do restaurante.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Mulher nua fuma cigarro no mar com as mamas a boiarem à superfície da água.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Família joga às cartas na praia, debaixo de um toldo tapado por um mosquiteiro.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Pescador, num dos canais do lago Golovitza, usa rato do campo como isco. O rato sabe nadar e não mergulha.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Menina pendurada no ramo duma árvore, com a cabeça para baixo, conversa com amiga, de pé, no chão (o cone que tem na cabeça é um efeito do vento; é apenas um lenço).&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Casal joga ténis em court sem rede protectora; o cão apanha as bolas.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Nuvem de mosquitos ao pôr-do-sol, em frente aos balneários Ignoramos se os veraneantes cobertos com toalhas de praia buscam refúgio nas retretes, ou pretendem tomar duche.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Garrafas de cerveja enterradas na areia, junto à linha de rebentação (visíveis pelas caricas).&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Corvo-marinho (Phalacrocorax carbo) na praia, abre as suas imponentes asas negras na direcção do mar e vira a cabeça para o lado, oferecendo o perfil do seu bico à jovem fotógrafa que se encontra por trás.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Família arruma a bagagem no atrelado do tractor que os levará à praia, para montarem a tenda.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Nadador agita as mãos à superfície das águas turvas do Mar Negro, depois de ser surpreendido por uma medusa.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Os jovens empregados do (único) restaurante de Portitza riem-se de um casal de clientes, sentado debaixo de um salgueiro-chorão (que depois do fim de tarde começa a pingar dos seus ramos umas gordas gotas cor-de-sangue-seco).&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Pescadores amanham o peixe, que apanharam de manhã, junto à linha de rebentação. Os buracos na areia (de onde sai o fumo, à frente das tendas) servem de braseiros para os grelhados.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Casal de nudistas na praia constrói esculturas de calhaus empilhados. Na posição de cócoras, a genitália de ambos os sexos, quando o sol aquece e os músculos descontraem, tem o charme de tudo quanto vive pendurado (abana, mas não cai), por oposição à fileira de calhaus empilhados, num equilíbrio provisório (tem-te-não-caias), até à próxima rabanada de vento.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Homem toma duche na praia, junto à sua tenda, ao anoitecer. No saco preto pendurado por cima dele, de onde escorre a água, pode ler-se “solar system shower”. O dispositivo consiste em encher pela manhã o saco de água, que aquece depois durante as horas de sol.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Coro de mulheres Lipovani (descendentes duma seita da velha ortodoxia russa que no séc. XVIII se instalou no Delta do Danúbio) dança na praia de Portitza em frente a uma fogueira. O espectáculo tem o seu quê de disputa: metade do público rodeia as mulheres Lipovani; a outra metade circunda a fogueira; os poucos que se posicionaram ao meio, aproveitam para aquecer os traseiros (estava uma noite fria). Por trás, às escuras, as ondas são ignoradas.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Pormenor do areal da praia de Portitza, que consiste maioritariamente em conchas, búzios e caracóis-do-mar, ainda num estado primário de decomposição.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Pôr-do-sol no lago Golovitza, sobre uma cortina cinzenta que paira nos montes de Dobrogea; a pseudopolaróide ao lado serve de díptico, e alcança na direcção do lago Razim: uma linha de luz, tão vermelha como a do sol, atravessa uma colina, sob uma nuvem de fumo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Três veraneantes, numa gaivota a pedais, pescam num canal. A curiosidade reside no facto das canas de pesca apontarem na direcção do canavial. As margens do canal estão cobertas de pequenos nenúfares em flor. Camuflados entre as folhas, os sapos assistem, em sorrateiro silêncio.&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/2756344929491019346-4866892213092761098?l=reinucatalao.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://reinucatalao.blogspot.com/feeds/4866892213092761098/comments/default' title='Enviar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://reinucatalao.blogspot.com/2009/08/pseudopolaroides.html#comment-form' title='1 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/2756344929491019346/posts/default/4866892213092761098'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/2756344929491019346/posts/default/4866892213092761098'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://reinucatalao.blogspot.com/2009/08/pseudopolaroides.html' title='Pseudopolaróides'/><author><name>Roberto de Deus Silvestre</name><uri>http://www.blogger.com/profile/09466075506706355107</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>1</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-2756344929491019346.post-6174607752311952072</id><published>2009-08-07T01:07:00.000+03:00</published><updated>2009-08-07T02:01:03.334+03:00</updated><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='Fogo'/><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='Retratos'/><title type='text'>Chamas</title><content type='html'>6 de Agosto. Ser surpreendido por um instante de beleza tem o efeito duma agulha espetada entre duas vértebras: antes de sentir a dor, temos um calafrio; antes do calafrio, fica-se imobilizado.&lt;br /&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;Um grupo de bombeiros sorridentes, devidamente equipados e encapacetados, posa para o retrato. Dez estão de cócoras, em duas filas de seis e quatro. Os restantes nove, numa terceira fila, estão de pé (as mãos nos ombros dos colegas denotam um fraternal espírito de equipa). Por trás, um alpendre emoldura o quadro humano. Árvores desfolhadas e arbustos frondosos contornam a casa. O telhado está em chamas.&lt;br /&gt;Mostro à Mihaela a fotografia, que descobri no blogue Coisas do Arco da Velha. Ela responde-me com um ditado romeno: “,tara arde, babele se piaptana” (o país arde, as avozinhas penteiam-se).&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/2756344929491019346-6174607752311952072?l=reinucatalao.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://reinucatalao.blogspot.com/feeds/6174607752311952072/comments/default' title='Enviar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://reinucatalao.blogspot.com/2009/08/chamas.html#comment-form' title='4 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/2756344929491019346/posts/default/6174607752311952072'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/2756344929491019346/posts/default/6174607752311952072'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://reinucatalao.blogspot.com/2009/08/chamas.html' title='Chamas'/><author><name>Roberto de Deus Silvestre</name><uri>http://www.blogger.com/profile/09466075506706355107</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>4</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-2756344929491019346.post-7181071186044028510</id><published>2009-08-07T00:57:00.001+03:00</published><updated>2009-08-07T02:02:04.245+03:00</updated><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='Terramoto'/><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='Bucareste'/><title type='text'>Tremor</title><content type='html'>5 de Agosto. Estava deitado no sofá, a cozer a ressaca causada pelos três vinhos diferentes da noite anterior. Às 10:49 uma tontura, acompanhada de náusea, fez-me pensar que ainda estava embriagado. Sucedeu-se uma brisa de calor vinda da porta da varanda e um balouçar do sofá, a 5,5º na escala de Richter.&lt;br /&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;9:30 foi a hora a que começou o terramoto de 4 de Março de 1977, em Bucareste. Domna V., correu pelo apartamento à procura do seu gato e desceu as escadas. Quando chegou à rua e o edifício começou a desmoronar-se, lembrou-se do bebé, que ficara no berço, a dormir.&lt;br /&gt;Em 2007, após trinta anos de recolhimento no bairro para onde se mudou após o desastre, Domna V. atravessou Bucareste para ir a uma consulta. À excepção de alguns edifícios desconjuntados, não reconheceu a cidade. Envelhecidos e maltratados, haviam sobrevivido a três décadas de transformação urbana e tremores menores (um pouco à semelhança dos livros empilhados no chão. Sem lugar nas prateleiras, lá se vão aguentando tem-te-não-caias, aos tropeções de quem passa distraído).&lt;br /&gt;Pergunto a Mihaela, qual era a profissão de Domna V. “Professora de literatura romena.” E a do marido? “Trabalha na construção civil.”&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/2756344929491019346-7181071186044028510?l=reinucatalao.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://reinucatalao.blogspot.com/feeds/7181071186044028510/comments/default' title='Enviar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://reinucatalao.blogspot.com/2009/08/tremor.html#comment-form' title='1 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/2756344929491019346/posts/default/7181071186044028510'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/2756344929491019346/posts/default/7181071186044028510'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://reinucatalao.blogspot.com/2009/08/tremor.html' title='Tremor'/><author><name>Roberto de Deus Silvestre</name><uri>http://www.blogger.com/profile/09466075506706355107</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>1</thr:total></entry></feed>
