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domingo, 13 de fevereiro de 2011

o primeiro dos homens

Depois de passar a noite anterior a confraternizar com os alcoólicos do bairro no Ó Arcaz, Jaime Roque anunciou na manhã seguinte, ao pequeno-almoço, que tinha feito conhecimento com “o primeiro dos homens”. “Não tem umbigo”, perguntou-lhe a irmã, enquanto punha na torradeira uma fatia de pão com um buraco ao meio. “Tinha que idade”, perguntou a mãe, que contava no calendário o número de dias que faltavam para lhe chegar a menstruação. “Como é que se chamava”, perguntou-lhe o pai, enquanto vertia o café para a caneca de mestre Vaquinhas. “Não sei”, respondeu. “A primeira coisa que lhe ouvi dizer foi já não há homens, quando pedi meio copo de cerveja. Depois de esvaziar o copo apeteceu-me beber mais e ele serviu-me o que restava na garrafa. O trabalho dele é registar a entrada de medicamentos numa espécie de armazém distribuidor e depois receber os pedidos de encomenda das farmácias. Disse que ganha muito bem, que é um excelente emprego, só trabalha seis por dia e ganha 40 contos nos dias de folga em que fica de serviço. Contou-me que os miúdos são os principais consumidores de viagra. E contou uma anedota de que ninguém se riu. E também contou que comia camarão todos os dias num bar de alterne e depois deixou de lá ir e já ninguém comeu o camarão e o dono levou um enxerto e sem ele aquilo virou um perigo. E dizia ‘isso para mim é cona’, quando queria mostrar-se repugnado. E prontificou-se a arranjar remédios a preços de produtor. E usava um tubo com gás mostarda dentro. E passou o tempo a tentar vangloriar-se de cometer actos de corrupção. E depois foi vender comprimidos para as discotecas. Já não há homens, disse antes de partir. Vou escrever uma canção sobre ele. Vai chamar-se “O Primeiro dos Homens”. “Já tens o refrão, perguntou-lhe o pai, enquanto demolhava um papo-seco no café com leite. “Só alguns versos”, respondeu Jaime Roque, que disputava o lava-loiça com a mãe e levou uma ancada que o fez deixar cair a maçã, ainda por lavar.

É quase igual a toda a gente
vende remédios a quem fica doente
trata da saúde a qualquer irmão
fala de ser corrupto com satisfação
conta anedotas sem nenhuma piada
tem os olhos abertos e não vê nada

Grande punkalhada”, comentou a irmã, que entrou na cozinha, tirou um iogurte do frigorífico e voltou a sair. “Adequa-se à personagem”, disse esperançoso Jaime Roque para o pai. “Pois, como canção também não vale nada.”

sábado, 12 de fevereiro de 2011

até ao canil

Farrusco III, orgulhoso cão de linhagem, estava cansado. Não retinha líquidos nem sólidos, desperdiçava-os em evacuações domésticas que o deixavam destroçado, confuso, surpreendido e atrozmente envergonhado. Refugiava-se por trás de cortinas transparentes, sem força para uivar nem para encontrar um esconderijo à medida da sua aristocrática altivez. Era um fino animal de caça que nunca ladrava depois de apanhar a presa. Brincava com as crianças e fazia trinta por uma linha com os adultos. Mandava-os ao chão numa inesperada mudança de direcção, ameaçava um ataque frontal com súbita abordagem lateral, bebericava do copo a quem adormecia na matrona, surripiava o comando depois de mudar de canal, lambia o pudim acabado de sair do fogão, deitava-se em camas acabadas de fazer, esfregava-se num lençol de banho durante a queda do pêlo, engolia o último parafuso duma mesa desmontável, comia o botão de rosa oferecido por um galante à moça solteira lá de casa, desenhava com as patas enlameadas, no átrio acabado de lavar, os passos duma dança só por ele conhecida. Foi também um heróico salvador de crianças temerárias e velhinhos temerosos. Não se apoquentava que os gatos, de barriga cheia, lhe entornassem a gamela. Aceitava o castigo sem pedir festas ao castigador. Perseguia insectos, répteis e pássaros sem procurar recompensa. Cachorro, escondia-se porque era vadio e não abdicava de ser livre. Adulto, escondia-se por malandragem e para assegurar o afecto dos donos. Foi um companheiro em horas de solidão e na hora das festas escapava-se aos convidados que o utilizavam como intermediário para fazerem festas aos donos de casa. A fornicar não descriminou raça ou sexo. Como tantos, fazia buracos no quintal, mas quem antes dele soube ordená-los por talhões? Depois de envelhecer escondia-se para evitar ser esquecido e por fim mal conseguia mexer-se. Não suportava a piedade. Provavelmente exageramos, mas somente para compensar o pudor com que entrou para o banco de trás do carro que o levou ao canil. Sem uma teimosia de última hora, sem desconfiança, sem um olhar pela janela. Jaime em lágrimas sentado a seu lado e Farrusco III num último gesto galhardo, boca fechada e pálpebras descaídas, à janela a sentir o vento nas orelhas. Jaime a tirar-lhe a coleira e Farrusco III numa vénia de rendição. Virou-se para trás antes de franquear a porta e continuou a marcha num esforço culminante. Na viagem de regresso do canil, o patriarca Aníbal São Roque (para quem o adágio “um homem nunca chora” não admite excepções) pediu duas vezes ao neto para não chorar. Antes de pedir uma terceira vez, a voz escapou-se da garganta e só teve tempo de carregar no travão e sair porta fora. Reapareceu cinco minutos depois, com uma expressão militar estudada e uns olhos vidrados.

sexta-feira, 11 de fevereiro de 2011

a pílula

Por ocasião do seu aniversário, em que celebrou 18 anos bem feitinhos, Joana Silvestre reivindicou junto da alteridade paternal o direito a tomar a pílula. Após beberem um copo de água (sem efeito), os pais serviram-se do remédio mais alcoólico que encontraram na garrafeira e retiraram-se para a varanda. Conciliaram, dirigiram-se ao escriptorio de Mestre Vaquinhas, concertaram no texto a redigir e entregaram à interessada o decreto, devidamente assinado e carimbado: direito concedido. Joana Silvestre não ficou satisfeita. Era uma ofensa para o seu estatuto de cidadã maior de idade receber permissão para exercer um direito que lhe era reconhecido por lei. Do que ela precisava era do financiamento para instalar um chip-pílula. Não podia arriscar um dia de esquecimento, tão pouco estava disposta a apoquentar-se com mais uma responsabilidade diária. O chip-pílula é introduzido na camada subcutânea do antebraço e já está, oferece garantia por três anos. Os pais voltaram a reunir-se e regressaram à cozinha com duas contrapropostas. Vera São Roque ofereceu-lhe a sua colecção de preservativos com sabor frutado e um lubrificante. Roberto de Deus Silvestre, por seu lado, presenteou-a com um manual técnico de sexo tântrico, com uma nota introdutória da sua autoria acerca da interrupção do coito, truques para evitar ejaculações e agir de forma célere, acrescentando ao generoso cabaz anticoncepcional uma medalha de ouro com a efígie da virgem, para dar sorte. Joana Silvestre foi aos arames. Levantou-se da cadeira da oposição, acusou o governo doméstico de manobras de diversão e ameaçou terminar a fase de tréguas, passando ao acto sem mais aquela. Jaime Roque, que tinha passado a sessão de debate a reflectir sobre a melhor estratégia para retirar dividendos de um eventual precedente relativo à fazenda doméstica, gritou apoiado e coligou-se com a irmã. Também ele pretendia um chip, apesar de não estar certo da sua existência no mercado. Advogava o princípio de paridade: no seu aniversário pretendia um chip com a enciclopédia britânica e um dicionário de mandarim, de preferência acoplado no pénis para alargar o tamanho e torná-lo mais competitivo. Vera São Roque, num acesso de espontaneidade, precipitou-se com um “vão trabalhar malandros”. Mais sensível ao espírito de independência dos filhos, que compreensivelmente preferiam a dependência de subsídios a fundo perdido a terem de subjugar-se à exploração do mercado de trabalho, Roberto de Deus Silvestre desencantou do bolso traseiro das calças uma nota de cinco euros e mandou-os comprar gelados.

quarta-feira, 9 de fevereiro de 2011

dia da mãe

Atacado por uma febre que lhe devorou em vinte e quatro horas as mil e quinhentas gramas que tinha ganho no campo, em casa dos avós maternos, o convalescente Jaime Roque passou a manhã deitado na cama, recusando-se a comer e a lavar-se das toxinas malcheirosas transpiradas durante a noite. Às três da tarde abandonou o quarto. Sentou-se na varanda, a mordiscar rodelas de pepino e fatias de pão barradas com manteiga e marmelada, e a observar numa atenção hipnótica as flores que tinham rebentado nos vasos. Sem dizer ai, refugiou-se na casa de banho, forçando o esquentador a produzir meia hora de água quente. Encavalitada no braço do sofá, Joana explicava à mãe o presente que lhe tinha construído (um insectário de formigas que tinham de atravessar um labirinto para chegar à comida). A mãe deu-lhe um beijo, levantou-se e pendurou o insectário na parede ao lado da porta da varanda, onde se encontrava um camarão sem uso, desde que se partira o espelho. Jaime reentrou na sala em cuecas e sentou-se à frente da irmã. A mãe ajoelhou-se aos pés dele e segurou-lhe nas mãos, assentes sobre as pernas magras e compridas, onde começava a despontar uma fina penugem, que o último raiar da tarde acobreava. Jaime levantou-se e trocou de lugar com a mãe, deu dois passos atrás e o ombro nu ficou recortado num feixe de luz que entrava pela porta da varanda. Fixando um ponto algures no corredor em frente, declamou para a assistência o poema em sua homenagem.

A minha linda mãe
Polvilhada do pólen
Que o meu pai largou
Deu-me à luz no Alcalém
Através de pétalas
Que ninguém contou
[pausa; retomar de fôlego]
E se no mundo houver mães
Como as flores polenizadas
Que sejam os filhos
A trazer o amor
E não os homens
Por quem foram desfolhadas

Impressionada pela eloquência do irmão, Joana perguntou o que queria dizer desfolhadas. Não se tendo apercebido do décimo verso, o pai duvidava da possibilidade científica dos filhos desfolharem as mães. Vera tinha o rosto lavado em lágrimas. Quando Jaime se levantou do sofá, apercebeu-se de uma nódoa negra que o filho tinha junto às virilhas (provocada pelo quadro da bicicleta do avô, que era alta de mais para ele: como não chegava com os pés ao chão, uma travagem brusca equivalia a escorregar do selim). Enquanto ele avançava no poema, numa trepidante voz infantil, sem entoação nem equilíbrio, a ela ocorriam-lhe os caminhos inseguros que ele tinha escolhido, o esforço das suas pernas miúdas a pedalarem e a tenacidade com que lhe recitava o poema, sem um único queixume.

terça-feira, 8 de fevereiro de 2011

pequeno slam

A final do torneio de ténis de Calem terminou ontem no court À-Sombra-da-Ameixoeira-das-Traseiras sem vencedor. O jogo entre João Roque e Joana Silvestre foi interrompido quando se registava um empate (parciais de 7-5 e 4-6) e a taça destinada ao vencedor, uma magnífica peça em vidro de fabrico industrial, foi utilizada pelo árbitro para emborrachar-se.
A interpretação das leis do jogo foi o motivo de discórdia. Joana Silvestre, vestindo uma saia verde-alface e uma camisola branca com buracos nos ombros e nas costas, não concordou com a perda de um ponto em que mandou a bola fora, uma vez que o adversário estava em posição de jogá-la (com este ponto Jaime Roque quebrou o serviço de Joana Silvestre). Jogando com o equipamento oficial do Atlético de Calem (camisola às listas amarelas e azuis, peúgo vermelho), Jaime Roque não gostou de ver validada uma bola de serviço de João Silvestre que pisou a marca de fundo. Segundo ele, as bolas devem ser batidas no interior do court e não nos limites (com este arriscadíssimo ás, ainda no primeiro set, João Silvestre reduziu para 5-6).
O conflito azedou no início da jogada seguinte. Jaime Roque serviu para fora pela segunda vez, mas João Silvestre bateu na bola, para evitar que saísse do court. Jaime Roque protestou a perda do ponto, acrescentando que a ausência de apanha-bolas, e a perda de tempo em andar à procura delas, não era motivo suficiente para quebrar as regras. O árbitro registou a sua queixa, mas deu o ponto a João Silvestre. Em retaliação, Jaime Roque serviu ostensivamente para fora do court. Embora lhe restasse uma segunda bola no bolso dos calções, para a segunda tentativa de serviço, o árbitro obrigou-o a ir à procura da primeira. Usando de cautela, Jaime Roque voltou a servir, mas a adversária subiu à rede e acertou-lhe na cabeça. O árbitro marcou 0-30 a favor de João Silvestre e ignorou a desculpa sem fundamento de Jaime Roque, que disse ter dado uma cabeçada para impedir a bola de perder-se nas silvas. O magnífico amorti com que João Silvestre quebrou a terceira bola de serviço ao adversário teve no entanto um efeito inesperado no desenlace do ponto.
A graciosidade com que a tenista chegou à bola (uma enérgica passada que lhe levantou a saia acima da coxa), revelou-lhe a cor das cuecas (um rosa velho, por sinal bem bonito). Numa demonstração de mau desportivismo, Jaime Roque caiu ao chão, com uma crise de riso. O árbitro exigiu que o tenista retomasse o lugar junto à linha de fundo, mas não conseguiu evitar um sorriso comprometedor, ao reparar na presença de espírito com que João Silvestre, antes de baixar a saia, acertou o elástico das cuecas. A tenista aproximou-se do árbitro por causa do atraso que estava a ser provocado pelo adversário, mas a veemência do seu protesto, a fúria nos seus olhos escuros e a boca ternurenta, humedecida por uma língua reguila, causaram um tal fascínio no árbitro que este não conseguiu evitar aproximar-se do seu rosto e arrancar-lhe dois fios de cabelo presos à pálpebra do olho esquerdo.
As consequências deste acto irreflectido foram dramáticas. Jaime Roque alegou perda de confiança no árbitro e João Silvestre acusou o juiz de “paternalismo machista”, tentativa de “assédio sensual”, “contacto corporal de facto”, “falta de decência” e “abuso de confiança” (ufa). Os protestos tiveram como resultado a perda de concentração. João Silvestre desperdiçou três break-points e ofereceu o primeiro set ao adversário, perdendo por 5-7.
No segundo set, Jaime Roque chegou facilmente a 4-0. O primeiro jogo, com Silvestre a servir, demonstrou bem a sua desconcentração: oito bolas de serviço mandadas para fora. Chegados ao quinto jogo, Jaime Roque abriu com três ases e preparava-se para fechar o quinto ponto quando se aproximou do court um dueto de gandulas acompanhado de uma colega de João Silvestre. Estava destinado que também Jaime Roque haveria de passar por um teste de confiança. Os assistentes do sexo masculino reprovaram a disputa entre atletas de sexo diferente e o árbitro não conseguiu evitar os risos, os dedos apontados e os gritos de incitamento. Jaime Roque tentou fazer mais um ás e desperdiçou seis bolas de serviço, permitindo que Silvestre empatasse o jogo sem precisar de mexer-se. A sétima bola entrou no quadrado de serviço, Joana respondeu com displicência, a bola tocou na rede e Jaime Roque chegou atrasado. Vantagem para Silvestre. Jaime Roque voltou a servir com vigor e Joana mal teve tempo de encostar a raquete. A bola descreveu um arco e foi cair mesmo ao canto da linha, quando Jaime Roque se aproximava da rede: jogo para Silvestre, protesto do adversário.
Com o set em 4-4, depois duma espectacular recuperação de Silvestre, Jaime Roque continuou a insistir em serviços com efeito (com o trio da audiência a gritar “fora!”). A perder por 0-40, a sétima bola de serviço entrou, Silvestre respondeu sem complicar e Jaime escorregou (risos na bancada). Vermelho de cólera, fez um serviço válido, Silvestre devolveu a bola e Jaime voltou a tropeçar: uma das sapatilhas tinha os cordões desatados. 4-5.
Silvestre aproveitou o intervalo para ir conversar com a colega (Jaime Roque tapou a toalha com a cabeça para limpar as lágrimas – perdão – o suor). Rodeando a tenista, os dois gandulas calaram-se, o mais alto olhou para o cúmplice e este afastou a franja da testa num movimento de pescoço que lhe terá parecido muito casual e que João ignorou, entretida que estava a arrancar com a ponta da raquete uma pedra entalada na sola do ténis). Com um sorriso, que a transpiração fez brilhar em cintilações rosadas nas bochechas, despediu-se da colega e acenou um “tchau” aos gandulas. Os três foram embora e o jogo recomeçou.
Joana Silvestre fez 30-0 em duas subidas à rede e conseguiu ainda um ás inexplicável, já que Jaime Roque estava na linha da bola. Queixando-se dum cisco no olho, Jaime Roque pediu a repetição da jogada. Pedido recusado. João Silvestre serviu uma última vez e o adversário deu dois passos tão rápidos que chegou ao lugar antes da bola. Com tempo para preparar o tiro, Jaime Roque disparou com tanta força ao ponto de dar meia volta e cair sobre a perna. A irmã ficou imóvel, com a ponta da raquete a tocar-lhe na canela. A bola saiu para fora pela linha lateral. “Não vale, aleijei-me”, rosnou Jaime Roque, agarrado ao joelho. “Jogo. 6-4 favorável a Joana Silvestre, 1-1, vai-te lixar”, respondeu o árbitro, que desceu da cadeira e tirou o chapéu de sol, antes de acabar o vinho que sobrava na taça. “Estou ferido, o que é que pensas?” “Levanta-te e vai buscar a caixa dos medicamentos.” “Vou eu”, prontificou-se João Silvestre. “Sim, vai tu”, concordou o árbitro, “Brinca com ele, tu és a paramédica e ele o paradoente. “E tu és o paraquê?”

segunda-feira, 7 de fevereiro de 2011

msg: primeiras imagens

O vaivém Bañeira I, a bordo do qual se encontram os astronautas nudistas Jaime e Joana Oque, emitiu hoje as primeiras imagens do espaço, na órbita da terra. Com a ajuda do comandado Jaime Oque, cujos olhos serviram de espelho reflector, a comandante da Missão Sem Grão captou imagens com grande nitidez de anti-partículas que copiam acontecimentos em terra. Embora estas anti-partículas se dispersem umas das outras ao entrarem no espaço orbital, a proximidade a que o vaivém se encontra da fronteira com a atmosfera permitiu a Joana Oque reproduzir na sua câmara Ma’Laika uma série de ocorrências que, depois de terem lugar em terra, se anti-materializam. Com a ajuda de uma lente convexa, que permite ampliações em grande escala, Joana Oque fixou a câmara no globo ocular esquerdo do comandado Jaime Oque, imobilizado em frente a uma escotilha. As primeiras imagens recebidas pela agencia Aeiou, que o Canal Neo-Espacial transmite em primeira mão, são por enquanto de curta duração (entre 4 e 9 segundos por cada plano). Tal deve-se à grande dificuldade do comandado Jaime Oque em manter a íris do olho fora do campo de visão, ou seja, por trás da pálpebra, mantendo-a ao mesmo tempo aberta. “Tentámos prender as pálpebras com uns arames”, afirmou a comandante Joana Oque, “mas os vasos sanguíneos do olho ficam irritados, o saco lacrimal lubrifica o olho em excesso e a imagem desfoca.” Para além das interferências na imagem causadas por uma finíssima trama escarlate de vasos sanguíneos, o segundo problema prende-se com a natureza das imagens em si. Constituída por minúsculas antipartículas aglomeradas, cada uma destas imagens aparenta estar em movimento, uma vez que as antipartículas saltitam e trocam de posição com as antipartículas vizinhas, provocando uma indefinição nas figuras, assim como um constante efeito de sístole e diástole. “Como se estivessem a respirar”, comentou ao vivo Joana Oque, espantada pela forma como as imagens “aumentam e diminuem de tamanho”. Embora a qualidade técnica da transmissão seja óptima, da mesma forma que é surpreendente o método de captação encontrado, a comandante mostrou-se desiludida. “Outra vez missão com grão”, desabafou. As dificuldades encontradas não impedem que se observe, entre as imagens transmitidas, o braço de uma criança a brincar com um pato de borracha à tona da água entre colinas de espuma, um guarda-chuva estampado numa toalha pendurada no cabide de uma porta, um pente que desliza por uma mecha de cabelos em alvoroço, uma criança de expressão indignada a cruzar os braços e uma colher de sopa a voar em direcção a uma boca com os lábios teimosamente (assim parece) fechados.

domingo, 6 de fevereiro de 2011

missão sem grão

A AEIOU (Agência Espacial dos Irmãos ‘Oque Universo) lançou ontem ao final da tarde, antes do jantar, o vaivém espacial Bañeira I, levando a bordo os astronautas nudistas Joana Oque e Jaime Oque. A descolagem, segundo os operadores técnicos na ponte de controlo, decorreu sem problemas de maior, havendo apenas a notar, à saída da atmosfera, uma nuvem de espuma que o vaivém perfurou, provocando um aguaceiro nas regiões limítrofes da plataforma de lançamento. Depois deste incidente, que por instantes causou alguma ansiedade na ponte de controlo (ninguém trouxera guarda-chuva), os astronautas nudistas tomaram a sua primeira refeição a bordo, já na órbita do planeta, seguindo-se uma curta inspecção do equipamento e algumas horas de repouso. O objectivo principal da missão é captar em directo, para os receptores da terra, imagens do espaço em alta qualidade. A produção de imagens da NASA, que nas últimas décadas teve o império deste importante mercado, é uma vergonha para a classe, afirmou a comandante Joana Oque. “E tem a cumplicidade dos órgãos de informação”, acrescentou, enquanto despia as cuecas e baixava o tampo de um dispositivo de descarga e evacuação que visa recolher os despojos orgânicos dos tripulantes, para futuras análises comparativas. Responsabilizando igualmente a falta de exigência do público consumidor deste tipo de imagens (“cientistas como nós”), Joana Oque disse ainda que os orçamentos “são astronómicos” e as imagens têm a qualidade de um vídeo caseiro. “Excesso de grão, cores empasteladas, desfocagem permanente, enquadramentos desenquadrados. E o pior é a acção: movimentos lentos, corpos a levitar. Uma banalidade de bradar aos céus. É o mesmo que pagar por um filme de grande produção sobre as descobertas marítimas e depois ir à Costa da Caparica filmar banhistas a boiarem no mar.” Por seu lado, Jaime Oque, comandado, tem a seu cargo o desempenho de acções que representem uma relação dinâmica com o espaço. Astronautas a tomarem comprimidos à refeição, a caminharem de cabeça para baixo, a mudarem um parafuso no casco do vaivém, são acções que não o deixam impressionado. “Não é difícil fazer melhor.”

a capa e o busto

Operado de fresco a uma amigdalite que o deixou provisoriamente sem pio (um descanso), Jaime, O Enfezado, tomou ontem posse do seu primeiro disco, numa loja mista com duas entradas e montra ao centro (com uma pêra a pender-lhe do queixo, a voz do dono atende clientes da música; a voz da dona, barbela no lugar da pêra, atende clientes de roupa para bebé e criança). A aquisição não se fez sem a providencial sombra de dúvida que angustia o coleccionador no momento de iniciar a colecção (sem voz para se queixar, Jaime protestou em silêncio). Decidido a levar para casa o produto do seu desejo formado num programa de televisão (gritos, corridas, cabelos a abanar, ídolos sorridentes que acenam para chorosas fanáticas que estendem os braços ou levam as mãos à cara), Jaime, O Mudo, fez o pedido por interposta parte do tradutor que o acompanhava: “Tem os Beatles?” (olhos arregalados, ligeira crispação da boca). O dono da pêra mordeu a franja do bigode, passou os dedos pelas capas e puxou uma para cima. Sem lhe pegar, Jaime, O Descrente, olhou para a capa duplamente enfezado, deu um passo atrás, triplamente enfezado, e abanou a cabeça. “Não são estes?” Deu um passo em frente, fazendo um esforço para adaptar-se ao novo visual que a fotografia propunha e gesticulou com a teimosia que o caracteriza nos momentos em que se julga ludibriado. Sem reconhecer a imagem do grupo, nem o nome inscrito na capa, já que não sabia ler, tripartiu o desânimo em três pontas soltas: o olhar do tradutor, os óculos do vendedor, a visão da capa (encostadas à frente de um portão de madeira, quatro barbas, igual número de cabeleiras e – em hirsuta companhia – um chapéu preto de abas largas sobre a cabeça de um busto careca, ao lado do caixa de óculos). Fotogenia triste versus fotogénica desilusão. Jaime, O Desiludido, voltou a abanar a cabeça e tentou puxar o tradutor para fora da loja, mas este não se mexeu. O vendedor tirou o disco do interior da capa, despiu-lhe a cueca e encaixou-o no bico platinado do gira-discos. A agulha poisou, o vinil começou a deslizar. As faixas foram sendo picadas e o som rodopiou pela sala apertada. O vendedor explicou então a Jaime, O Incrédulo, que os Beatles já não existiam. O seu rosto, modulado por uma caótica revolução no olhar, fez uma inflexão tão dolorosa que por pouco não chorou. Com o disco cuidadosamente seguro debaixo do braço, Jaime, O Conformado, virou-se para trás ao sair da loja e olhou para a montra, onde um manequim de criança apontava com o dedo. Estendeu a mão livre para o seu acompanhante, que tinha pago a conta, e estugou o passo.

sábado, 5 de fevereiro de 2011

dança descritiva

“Pai, pai”, gritou o Jaime, vindo da rua, depois dum passeio nocturno na companhia do casal de surdos-mudos que viviam no piso de cima. Não obtendo resposta bateu à porta do escriptorio. “Mestre Vaquinhas”, disse, numa mudança de voz que terminou em suspiro, encaixando o queixo no tampo da escrivaninha. “Já posso contar a minha história?” A cadeira rodou na sua direcção. Jaime afastou-se, para ganhar espaço: “Vi um homem que fej assim.” O mestre Vaquinhas perguntou-lhe o que era fej. “Ó, é fajer.” Perguntou-lhe o que era fajer. Jaime fez uma expressão desconfiada. “É como as pexoas fajem”, respondeu de cenho carregado. Perguntou-lhe o que eram pexoas. “As pexoas que andam na rua.” Desconheço. “As pesssoas.” Essas! “Não! Foi um homem, ele fej assim…” Deu dois passos à frente, com o mesmo pé, dois passos atrás, com o outro, depois levantou o braço direito e deu meia volta para trás. O mestre Vaquinhas perguntou-lhe se aquilo era fajer. Jaime quase gritou: “Não!” “Tu é que disseste que ele fej.” “Não é fajer, é fazer.” Compreendo. E então, que fez ele? “Sei lá, era maluco.” “O que é ser maluco?” Jaime não respondeu, olhou para trás e não vendo ninguém encolheu os ombros. Deves saber, ainda agora o tentaste imitar. Faz lá outra vez. Jaime voltou a dar os passos. Mestre Vaquinhas pediu-lhe para repetir. Jaime começou a rir-se e a deslizar pelo soalho do escriptorio. “Ele estava a dançar!” Mestre Vaquinhas pegou-lhe no braço estendido e juntou-se a ele. A irmã, que estava na sala, pôs um disco na aparelhagem. A mãe aproximou-se e roubou o par do mestre Vaquinhas, que por sua vez convidou Joana para dançar também. A música animou, os pares dispersaram e os quatro continuaram a dançar sozinhos. “Vou chamar o Acácio e a Lisete”, lembrou-se o Jaime, que subiu as escadas a correr. Joana, a maldosa, desligou a música e quando o casal entrou na sala, puxando uma intimidada e risonha Lisete pela mão, Joana fez uma vénia a Acácio e estendeu-lhe o braço, num gesto de cortesia que insinuava um convite irrecusável. Em silêncio, os restantes três pares também bailaram pela sala apertada, sob um olhar vítreo vindo da parede. No seu vestido de asas negras, Ladybird encaminhava-se em passo largo para fora da moldura, na direcção do corredor que dava acesso à porta de saída. Na mão esquerda levava um buquê de andorinhas.

sexta-feira, 4 de fevereiro de 2011

culinária recreativa

Fardada a preceito, com um higiénico lenço atado à cabeça e um avental feito à medida pela avó Celeste, a chefe de cozinha criativa Joana João Silvestre tem vindo a estabelecer um repertório de receitas cuja maior audácia reside numa interpretação lata, porventura indigesta, do regime alimentar dos omnívoros, assim como do célebre adágio popular que manda aprender a comer de tudo um pouco. Patrocinadora desta actividade gastronómica, deve-se à avó Celeste o reconhecimento pela descoberta de semelhante mister. Por ocasião do segundo aniversário da neta, ofereceu-lhe um kit de cozinha, incluindo fogão, lava-loiça, frigorífico, um trem de panelas e serviço de mesa. Já em época natalícia completou o equipamento com um armário para arrumar os utensílios, uma torradeira (com pão às fatias incluído), um prático microondas, um grelhador e um cabaz de víveres em plástico, que a chefe de cozinha não hesita em complementar com os mais diversos e imprevistos ingredientes. Passamos ao menu. Nas entradas: tostas de queijo com frutos cristalizados, amendoins em casca de amêndoas, meloa com broa, pimentos com coentros e sangria de melancia (sem álcool). Nas sopas: peixe em calda de tremoços, sopa de bife com azeitonas, sopa de massinhas com tromba de elefante e rodelas de cenoura, creme de algas com moscas-bebé. Nos pratos principais: puré de batata com lagostas e salsichas, frango com casca de cebola e ananases, leão enrolado em folhas de couve, lulas recheadas com cabeças de macaco, omelete de chiclete, medula de ossos partidos, pernas de barbie grelhadas com cogumelos frescos, caldeirada de urso felpudo com bananas e cuecas com padrões de bonecos. Nas sobremesas: cordões de sapatos embebidos em mel, goela de crocodilo recheada de ervilhas polvilhadas com açúcar, palmilhas achiclatadas, grão de bico com leite condensado, pêra com cera, gelatina com chuva de fios de cabelo e neve de côco, lagartixas caramelizadas, iogurte com hortelã, cascas de maçã assadas no forno com mãozinha de boneca agarrada a pau de canela, sorvete de lápis de cera espetados em bolinhas de algodão, shampôo batido em castelo com pão ralado e passas de uva, bolo de bolacha barrado com plasticina, bolo de massa de gesso, folhado de papel com mel, coquetail de frutos silvestres com pedrinhas e conchinhas, espuma de barbear com compota. Convidado a comentar as iguarias da chefe de cozinha, o provador oficioso e exclusivo Farrusco III, de cuja boca pende uma elástica e gulosa saliva, recolhe a língua e responde “bô”. Sim, estava tudo muito bom.

quinta-feira, 3 de fevereiro de 2011

batalha de almograve

Joana, a Valorosa Pólipa, e Jaime, o Pequeno Batráquio, numa terrível batalha que ontem teve lugar na praia de Almograve, acrescentaram mais uma jornada de glória à Invencível Armada Silvestre (IAS!), depois de conquistarem uma importante fatia de território ao Atlântico, derrotando o Temível Exército da Maré Alta (TEIMA). O confronto, que teve início pela manhã e se prolongou até ao fim da tarde, deixou exaustos os nossos rudes soldados, que esgotaram a ração de combate (seis sandes, duas bananas, quatro pêssegos, dois pacotes de leite achiclatado, um garrafão dáugua e dois rajás). Choram-se também algumas baixas entre o IAS!: uma barbatana ficou viúva, depois do seu par ser devorado pela TEIMA; os óculos escuros ficaram zarolhos de uma lente, que o soldado desconhecido pisou; umas cuecas constiparam-se, depois de se terem molhado sem necessidade; e a boneca Lúcia, escudeira de Joana, a Valorosa Pólipa, ficou atrozmente mutilada de um braço, em resultado de ter sido enviada consecutivas vezes contra um rochedo, depois de ter participado na construção de uma trincheira, servindo de pá. A estratégia inicial da IAS! foi muito mal pensada. Felizmente ainda foram a tempo de mudar de táctica, de outro modo teriam sofrido uma derrota humilhante. A verdade, nua ou em calções, é esta: comportaram-se como uns maricas. Porque a áugua estivesse fria e molhada, porque fizesse vento, porque o sol estivesse tapado, porque houvesse despojos de batalhas anteriores, os nossos soldados ficaram arreliados. Tadinhos, enrolaram-se nas toalhas e cobriram-se de areia. Apercebendo-se da fraqueza do adversário, a TEIMA atacou com fanfarronice, uma onda aqui, outra vaga ali, e foram conquistando terreno. A IAS! foi arrepiando terreno, recuou, recuou… até ficar entalado entre a espada e o rochedo. Jaime, o Pequeno Batráquio, ainda arreliado por lhe ter sido vedado o acesso a equipamento de mergulho, molhou então os dedos pés. Andava ele a empurrar a areia quando foi atacado nas canelas, à traição. Ripostou. Pregou um valente pontapé no traseiro de uma onda que se desfez em espuma. Depois, vindo já outra espetou-lhe uma bofetada, e não contente com isso a próxima levou uma cabeçada, que lhe provocou uma amolgadela. Depois de destruir uma dúzia de vagas com dolorosos pontapés e golpes de karaté, deu um mergulho, provocando um buraco na TEIMA. Deu-lhe com tanta força que a TEIMA, cada vez mais fraca, e a sofrer baixas sucessivas, bateu em retirada. Baixou a garimpa. Saiu de fininho. Findo o trabalho da artilharia, Joana, a Valorosa Pólipa, entrou em acção. Andou a apanhar pedrinhas e conchinhas, disparou no flanco do inimigo e depois assaltou as divisões de poças e laguinhos onde a TEIMA se refugiou, ficando à mercê da IAS! Fazendo jus ao seu epíteto de pólipo, Joana procedeu então ao saque dos vencedores, estudando nos rochedos as criaturas e o modo de vida no país Atlântico, já que a TEIMA tinha ficado desguarnecida. “TEIMA, mas não ganha” foi o grito de vitória da IAS!, ao abandonar a praia.

quarta-feira, 2 de fevereiro de 2011

almoço em casa dos avós

Convidados a tomarem parte no almoço de aniversário do casal Aníbal e Celeste Roque, que celebravam algumas décadas de teimosa vida conjugal, os seus netos Jaime e Joana João comportaram-se de forma deplorável durante a cerimónia. Ao cumprimentarem em primeiro lugar o cão de família (Farrusco III), incorreram numa inqualificável e incompreensível inversão das ínclitas regras de boa etiqueta, que os levaria a darem prioridade aos donos. Iniciaram depois uma duvidosa conversação em linguagem canídea, e foi assim, ladrando, que presentearam os seus atónitos avós com algumas lambidelas nas bochechas. Ajudados por estes últimos a sentarem-se nas cadeiras, deslizaram para debaixo da mesa, morderam as canelas dos convidados e danificaram as meias de vidro à tia Lourdes. Como ninguém anuiu a servir-lhes a comida no chão (nem eles aceitaram a comida de Farrusco III, que o avô lhes propôs), acabaram por sentar-se à mesa, as línguas babadas tombando-lhes da boca. Informados de que o coelho que tinham à frente, a fazer companhia ao arroz, se tinha sacrificado em nome daquela festa, fizeram questão de rezar pela sua alma (“Perdoa-nos coelho, vamos comer o teu sangue inocente e a tua carne esfolada, os teus olhinhos doces não mais contemplarão este mundo e os teus ossinhos ficaram todos partidos, amém”) e dedicaram-lhe a sua porção de cenoura, pondo-a à beira do prato. A cada nova garfada, contemplavam o lustre da sala, juntavam as mãos em prece e repetiam os versículos “perdoa-nos coelho, vamos comer outra vez o teu sangue inocente”. Contristada com uma tão pungente compaixão pelo coelho (mas também de imperdoável indiferença ao tempero da Celeste, que o cozinhou, e ao esmero de Aníbal, que o esfolou e trinchou), a sua avó apressou-se a retirar a travessa da mesa, antecipando a vinda da sobremesa. “Celulite, celulite”, gritaram os irmãos, quando surgiram as tigelas com gelatina. “Irra”, disse o avô Aníbal, que deu um murro na mesa, “é assim que os ensinam!” “Cain, cain, cain”, ganiram os netos, com o nariz enfiado na tigela, antes de sorverem os pedaços de morango dentro da gelatina. “Perdoa-nos avó, comemos a tua celulite e queremos repetir.” O avô soltou uma gargalhada, pegou nos dois ao colo e abandonou a sala com os troféus vivos da sua velhice, sob o olhar vítreo e ameaçador de uma cabeça de javali.

terça-feira, 1 de fevereiro de 2011

propriedade privada

Continuação da entrevista entre os colunáveis Jajá Roque e Beto de Deus. A conversa decorre agora em propriedade privada. “Ó pai, nós somos mesmo ricos?” Riquíssimos, como vês. “Então por que é que estamos nesta bicha como os outros?” Pelo convívio. “Ó pai, se nós somos mesmo ricos por que é que não somos donos deste parque?” Mas nós somos os donos do parque! “Então por que é que tiveste de inscrever-te para entrar?” Porque sou um democrata e acredito na burocracia. “Então por que é que não te deixaram entrar com o carro, se o parque é nosso? O carro não precisa de fazer-nos companhia. “Então por que é que dormimos numa tenda como os outros?” Porque acreditamos na igualdade das aparências. “Então por que é que não me compras umas socas?” Porque têm solas de madeira e nós os ricos não gostamos de ver árvores amputadas. “Ó pai, nós somos mesmo ricos?” É como vês. “Então por que é que tu não mandas esta gente embora?” Aqui dentro são mais fáceis de controlar. “Então por que é que tu não mandas as pessoas tirarem o lixo do parque?” Porque não quero tirar o emprego aos que são pagos para limpar. “Então por que é que ninguém te ajuda a acender o fogareiro?” Gosto de acendê-lo sozinho. “Então por que é que não tens uma mota de água?” Porque gosto mais de nadar. “Então por que é que não compras um barco?” Porque prefiro andar debaixo de água. “Ó pai, se nós somos mesmo ricos por que é que só estás a assar quatro pimentos?” Porque são muito indigestos, um para cada chega. “Ó pai, o peixe também é indigesto?” Não. “Então por que é que estás a assar quatro carapaus?” Porque não quero que os peixes morram todos de uma vez. “Então por que é que não alugas luz eléctrica para ter na tenda?” Às escuras é mais divertido. “Então por que é que não compras mais brinquedos para eu brincar na praia?” Para que não te esqueças das belezas naturais. “Ó pai, de que serve ser rico se eu tenho as mesmas coisas que os outros têm?” Nós os ricos só damos valor ao que não tem valor. “Ó pai, isso não é ser rico.”

o marcedes

Entrevista automobilizada. Ao volante, Dada São Roque, fita verde na cabeça para não queimar a testa (o tejadilho no capot vai aberto). A seu lado, com uma revista de vida social ao colo, Beto De Deus, o entrevistado. Atrás, debruçado sobre o banco (enquanto a irmã dorme na cadeirinha de segurança), Jajá faz as perguntas (para depois voltar a sentar-se, observar mais um pouco pela janela e voltar à entrevista). “Ó pai, o que é que estamos a fazer aqui dentro?” Os compromissos não nos permitem estar juntos o tempo que gostaríamos, mas fazemos um esforço assaz relativo. “Ó pai, o nosso carro é tão grande porquê?” Porque somos ricos e temos um Marcedes. Como o nome indica, é um carro feito para os ricos como nós irem passear junto ao mar. “Ó pai, o nosso Marcedes é o mais velho da estrada porquê?” Nós os ricos somos antiquados. “Ó pai, o nosso carro anda mais devagar que os outros porquê?” Porque os outros têm medo de chegar atrasados e nós os ricos não receamos melindrar os sentimentos de quem possa estar à nossa espera e ficar aborrecido. “Ó pai, por que é que falas esquisito?” Nós os ricos gostamos de cultivar o silêncio mas não poupamos em palavras. “Ó pai, porque é que os outros carros têm vídeo e alta fidelidade e som surround e nós só temos um leitor de cassetes?” Nós os ricos não vamos em modas. “Ó pai, por que é que tu só ouves músicas antigas?” Nós os ricos somos pela tradição. “Ó pai, por que é que o nosso Marcedes não tem ar condicionado?” É para apreciar o vento que entra pelas janelas. “Ó pai, por que é que os estofos do nosso Marcedes estão rotos?” Nós os ricos somos ricos há muito tempo. “Ó pai, se nós somos ricos porque é que tu não mandas pôr estofos novinhos em folha?” Porque estes estofos não deixaram descendência. “Ó pai por que é que os outros carros têm via verde e nós temos de pagar portagem?” Nós os ricos damos sempre dinheiro a quem nos pede. “Ó pai, por que é que o nosso Marcedes só tem quatro mudanças?” Porque três não chegam e cinco são demais. És o quarto elemento da família, devias saber isso. “Ó pai, por que é que me estás a mentir?” Nós os ricos temos resposta para tudo, mas não damos justificações. “Ó pai, falta muito tempo?” Nós os ricos não temos falta de tempo, temos é falta de dentes, a avaliar pelos dois que tens em falta.

segunda-feira, 31 de janeiro de 2011

a dívida ou a dúvida

Premiando a sua vocação para participar em conversas para as quais não foi convocado, nem é provido de currículo adequado, Jaime Roque recebeu um castigo exemplar da mãe, que o convidou a ficar cinco minutos ao canto da sala, virado para a parede. Jaime Roque obedeceu, na condição de ficar de costas para a parede, já que o telejornal estava a começar e a televisão se encontrava no canto oposto. Sopesando talvez os prós e os contras duma possível futura carreira política, onde os seus palpites não seriam certamente postos a um canto, fixou a atenção no telejornal, onde a palavra “dúvida” era negada pelo primeiro-ministro. Ao mesmo tempo, na sala, a palavra “dívida” era afirmada, em tom de ameaça, pela mãe, em viva discussão com o pai. Da mesma forma que não entendeu o motivo da ausência de dúvidas, também não percebeu a razão dos pais terem dúvidas, o que não o impediu se sentir-se inteiramente satisfeito. De acordo com a sua visão materialista, era preferível ter, a ter em falta, pelo que continuou a assistir ao noticiário, condoído com as insuficiências da carreira politica e genuinamente orgulhoso com a privilegiada abundância da vida domestica, onde nem dívidas faltavam, apesar da sua posição não ser a mais confortável. Mas seriam os pais, detentores de dívidas, igualmente proprietários de outros mundos e fundos tão penosamente em débito por parte da classe politica? “Ó pai”, perguntou Jaime Roque do seu canto, “tu tens muitas dívidas não é?” O pai concedeu, num gesto de falsa humildade. “E dúvidas, também tens dúvidas?” Influenciado pelo exemplo governamental, o pai ergueu o queixo e respondeu que não, dúvidas era coisa que nem ele tinha. Jaime Roque ficou perturbado, virou-se para a parede, reflectiu por mais alguns segundos e tomou uma decisão. Abandonando o seu castigo, estendeu a mão ao pai e puxou-o na direcção da porta. “Vamos comprar dúvidas, antes que fechem as lojas.”

domingo, 30 de janeiro de 2011

fantasia em vento menor

Encontrando-se Roberto De Deus Silvestre e Vera São Roque agachados nas cadeirinhas de anões do seu chambre de visite, na companhia da irmã desta e do seu namorado, em amigável convívio, o estado de torpor desenvolvido com a ajuda de um estranho coquetail de amoras frescas, erva autóctone e pepinos salgados foi de ordem a mantê-los quietos, ininterruptamente, por um tempo não inferior a três horas e três quartos da dita. Findo esse tempo, em que a conversa decorreu com a fina transparência de um fio de nylan, ocorreu a uma das partes encomendar-se a seguinte questão: Estando há tanto tempo aqui sentados, que estamos nós a chocar? Porquê, somos galinhas? Não, mas temos algo no cu para libertar. Com licença, senhores. Cara amiga, sonhais, sonhais, nem tem que haver piada, quando é de dá-los, não há dever nem temer, avança-se e os outros que se cuidem, depois estamos cá nós para o comentário. A peidaria assemelha-se à época de cio entre as gatas, se é de miar, pois que miem, ninguém pode levar a mal pelo bem que sabe ao outro. E se é de rosca, pois que seja. Descasca tremoço. A mim tanto se me dá como se me deu, se é de dá-los por ti, dou-los eu, antes vindos de mim do que vindo pelo do teu, que é mal cheiroso e cabeludo. Anda, anda, querida solta-los é a todos, mas deixa um para amanhã. Olha-me este, quer a série por episódios, não te chega já os cromos que tens lá em casa. Cromos! Quem anda nos cromos e o que vêm a ser tais cromos? Não sabes tu outra coisa! Recorta-os do jornal e depois diz que é para o filho. O filho! Sabe lá ele naquela idade, a criança ainda agora começou a andar, tem mesmo vontade de dar chutos na bola, o que ela quer é não cair… Estes novos agora não são contemporâneos, são como os de antigamente. Novos e de antigamente? Ui, este saiu fino. O vento está de feição. Abram essa janela! Está aberta, nada a fazer! Está a sair aos borbotões, fujam. À varanda. Cabemos lá todos? O céu que nos areja. Tal é o aroma, saiu discreto pelo gargalo, mas ganhou corpo vendo-se ao fresco. Tem bouquet. É frutado. Ligeira adstringência. Francamente! Ora essa, à nossa saúde! E que viva muitos anos. Calou-me na fama. Vinha com chama, vinha. Será perigoso? Lá gasoso... Arredondado. Veio de lado. Vai de bolina. Já acalmou. Tantas cores. Foi dos cogumelos. Que chapelada. Que pivete. Que barraca. Boa noite. Juízo na cama. Isto agora nem de corneta. Pouco barulho.

sexta-feira, 28 de janeiro de 2011

o pesadelo

Joana e Jaime acordaram esta manhã exactamente à mesma hora (5h50). Encontrando-se deitados nas suas camas, com as cabeças enterradas nas almofadas, o estado de pavor em que se encontravam agravou-se ao depararem um com o outro. “O mano está a churar”, dizia a Joana e chorava. “A mana está a churar”, dizia Jaime, que chorava também. Convidada a explicar-se, Joana ergueu a cabeça do travesseiro, contemplou o irmão e voltou a afundar a cabeça na almofada. “Ele moreeu e está a churar.” E está a chorar porquê, chorona irmã? “Porque moreeu.” Escuta lá, ó mariconço, lá porque moreeste isso é razão para chorar? Moreeste, paciência. “Nããão”, resmungou o Jaime, “a mana muureu, eu empurei-a no escuro e agora ela está muuito muurida.” Jaime ergueu a cabeça do travesseiro, contemplou a irmã (cabeça afundada na almofada), afastou as lágrimas dos olhos, sentou-se na cama, engoliu o choro, deu um soluço e continuou a chorar. A irmã olhou para ele e soluçou também. “Não moreeste?”, perguntou-lhe Joana. “Nããão”, resmungou o Jaime. “Tu muureste e disseste que eu tenho de fazer de conta que estás viva.” E o Jaime, quem é que faz de conta que o Jaime está vivo? “Ninguém porque eu empurei a Joana no escuro e tenho de ser eu a fazer de conta.” É verdade o que o teu irmão está a dizer Joana, já não podes fazer de conta que és a Joana? “Nããão, só posso fazer de Jaime, ele moreeu e já não vem mais.” Fica o assunto resolvido: O Jaime faz de conta que a Joana está viva e a Joana faz de conta que o Jaime está vivo. Está bom assim? “Nããão”, respondeu a Joana e voltou a chorar. “O Jaime não pode fazer de conta porque moreeu”. Mas olha que ele diz que consegue fazer de conta. Joana levantou-se da cama e olhou para o irmão, ainda assustada pela sua presença. “Verdade, fazes mesmo?” O irmão enfrentou-a, ainda a medo, empurrou a almofada para o chão, pôs os pés em cima da almofada e respondeu-lhe: “Sim.” Joana voltou a deitar-se, olhou para o tecto, depois olhou para debaixo da cama do irmão e suspirou. “E se eu não saber fazer de conta? Eu quero fazer de conta que sou a Joana.” Jaime enfiou a cabeça entre os joelhos e rolou de volta ao centro da cama. “A Joana está matada. Eu faço de conta que a Joana está viva e a Joana aparece e eu fico no escuro.” Os estores da janela abriram-se, uma luz rosada entrou no quarto e devorou a sombra dos irmãos, projectada pelo candeeiro da mesa de cabeceira, ao lado do qual se encontrava um cavalo, montado por um guerreiro empunhando uma lança. Jaime voltou a adormecer na cama, sob a mão que a mãe lhe impôs na nuca, e Joana agarrou-se ao pescoço do pai, temendo regressar a um sono onde provavelmente reencontraria o irmão sem vida.

lição de literatura

Mestre Vaquinhas estava sentado no chão com o queixo em cima do tampo da mesa. Sentados em cadeirinhas proporcionais ao seu tamanho de anões, a Joaninha (muito direita, olhos escancarados, lábios apertados um no outro, em sinal de certeira concentração) e o Jaimito (rabujento, sonolento, macilento, pálpebras de peneirento). O mestre dirigiu-se à janela da sala de aula e mirando-se no reflexo do vidro espremeu um quisto sebáceo no pescoço. Jaimito fez uma expressão de nojo e a cabeça tombou no tampo. Acto contínuo, Joaninha deu um caldo no irmão para se manter direito. “A literatura francesa é a expressão mais alta e jamais atingida por qualquer outra língua. As causas do seu aparecimento, desenvolvimento e amadurecimento foram as conquistas napoleónicas, o enriquecimento das classes sociais, cumuladas de herdeiros ociosos, e relações humanas em trânsito, desejosas de impressionarem o estrangeiro incauto pela opulência da aparência, pelas meias das grandes ideias, pela beleza da sua fineza, pelos excrementos dos bons sentimentos e pela inutilidade da sua musicalidade. Também se deu a decadência, motivada pela perda da inocência, mas esta surge em anexo.” Contemplando uma prateleira de livros, o mestre puxou um volume pela lombada e voltou a pô-lo no lugar, limpando às calças o pó que se agarrou aos dedos. “A força motriz da produção e recepção literária concentrou-se na burguesia, mas os valores, o sentido de excelência, de grandiosidade, o requinte do estilo, foram uma directa influência da aristocracia em pousio”. Perante a expressão de alarme de Jaimito, desperto do seu devaneio infantil por via dos z a que o seu ouvido era particularmente sensível, Mestre Vaquinhas explicou-se: “Zio, pousio. Não havendo guerras, os nobres passeiam-se por salões e jardins. O aristocrata exibe… zibe… exibe as boas maneiras, o filho da alta burguesia… zia, burguesia observa pois é dotado pelos sentidos (ver, ouvir, cheirar, tactear, degustar) e carece de saúde para o trabalho. Quanto aos pretensiosos admiram-se, porque estão cheios de inveja e ambicionam parecer comme il faut… Joaninha, pare de rabiscar e ouça apenas… Jaimito, tire o macaco que meteu debaixo da mesa e volte a pô-lo no nariz… O aristocrata tem joie de vivre, o filho anémico tem sensibilidade e a cambada vai atrás. O ser excepcional é solitário, o ser vulgar é gregário… Jaimito! não seja sectário! Só o talento está em condições de reconhecer que é na vulgaridade que os actos de excepção acontecem. O homem de virtude aborrece-nos, enquanto aquele…” Joaninha fez uma expressão acabrunhada. Jaimito esfregava uma borracha com sabor a morango no nariz. O mestre deu um caldo em Jaimito, que poisou a borracha, fez uma vénia a Joanita e retomou o discurso: “… enquanto aquela a quem não se reconhecem qualidades poderá sempre vir um dia a surpreender-nos. Ócio, tédio, desejo e exibicionismo são as etapas que antecedem o prazer… zer, prazer literário. Em todas estas etapas sentimos uma atracção pela parcela de divertimento a que temos direito. A aula acabou, vão brincar lá para fora.”

quinta-feira, 27 de janeiro de 2011

na maternidade

Jaime Roque, dois quilos e tal de tripas e ossos, nasceu esta madrugada no serviço de maternidade do hospital pediátrico, em Calem. Pesa uma vergonha de 2043 gramas, distribuídas por uns razoáveis 43 centímetros e, na opinião da brava parturiente sua mãe, é provido de uma “linda cabeça” de aspecto escalpelizado, uma vez que nem trazia um cabelo para mostra. De cor violácea e pele coberta por uma densa rede de veias roxas e azul esverdeadas, a gordura encontra-se quase totalmente alojada na boca, no nariz, nas pálpebras, nos zigomas e numas orelhas cujos lóbulos são mais rechonchudos do que o seu rabo desprovido de nádegas. Vítima de parto natural, parece ter sido atropelado, espremido, torcido, espalmado para caber dentro de um envelope, mandado contra a parede e por fim sugado através do gargalo de uma garrafa de anis (quiçá protegido por um capacete, uma vez que a sua cabeça é uma coisa linda de ser vista). Depois de ter sido pesado, medido e limpo de mucosidades, Jaime Roque deu alvíssaras ao mundo dos terráqueos, não com um berro nem com uma gargalhada, mas com um pum silencioso e traiçoeiro que desfaleceu o ânimo na competente se bem que surpreendida equipa médica e provocou uma rápida evacuação da sala (a mãe fez um sorriso amarelo e tombou a cabeça para o lado). Depois de assistir ao parto, o pai aproveitou para fugir e refugiar-se nos sanitários, onde mal teve tempo de baixar as calças. Chegou-lhe uma diarreia tão vulcânica que findo o serviço viu-se com as nádegas sarapintadas de gotículas amarelas (felizmente, havia bidé). De regresso à sala de parto, já lá se encontravam os avós e tios a granel. Um furo no serviço de segurança tinha permitido a entrada da família por inteiro, rodeando a mãe e o filho numa desopilada celebração das qualidades fisionómicas do neófito, imediatamente identificadas e acto contínuo inventariadas, de acordo com a ascendência, o cruzamento de linhas de mãe para filho, de avô para neto, de tia para sobrinho por via de uma efeminada tradução da herança do pai, de avó para neto por via do seu pai que era sobrinho de um tio cuja mãe era igualmente uma beldade em pequenina. Mas eis que a parte interessada, o crianço espontaneamente adorado, decidiu contribuir com um suplemento de sua graça libertando um sumido mas inequivocamente sonoro “pô”, adormecendo logo a seguir. Espantada por um tão precoce talento para a expressão silábica, a família evacuou a sala. “É de gancho”, congratulou-se a tia, entre sorrisos, lágrimas e caretas bem impressionadas. O avô, muito sério, cofiou o bigode, ajeitou a gravata e comentou com a irmã: “Qual pô nem meio pô, o que ele disse foi porra!”

quarta-feira, 26 de janeiro de 2011

o incêndio

Vera São Roque, 20 anos, empregada de balcão, grávida de um dia, e Joana João Roque Silvestre, a filha de dois meses, salvaram-se ontem de morrer asfixiadas no quarto onde ambas se encontravam a dormir, num apartamento em Calem. Os corpos foram encontrados inertes pelo pai da criança, que tinha casado com a mãe na véspera. Roberto de Deus Silvestre, 20 anos, jornalista doméstico, estava na casa de banho quando o incêndio deflagrou. A chama de uma vela que tinha sido deixada acesa pegou fogo ao vestido de noiva, rapidamente enchendo de fumo o quarto, cuja porta estava fechada. Na tentativa de apagar as chamas, Roberto de Deus Silvestre sofreu queimaduras superficiais nas mãos e no rosto, tendo sido assistido no local por um piquete de paramédicos, chamado ao local pelo corpo de bombeiros voluntários, que acorreram ao acidente na sequência de um telefonema de uma vizinha que morava no andar de baixo. Lepondina Só Santos, 73 anos, viúva reformada, depois de quatro horas a rebolar na cama, vencida por uma insónia, tinha-se levantado para beber um copo de água e tomar um comprimido de valeriana que lhe tinha sido recomendado pela sobrinha naturista. Encontrava-se à janela a fumar um cigarro quando viu uma “bola de fogo” a voar (não conseguindo extinguir as chamas do vestido, Roberto de Deus Silvestre optou por mandá-lo pela janela). Orlando Nabeiro, 55 anos, funcionário de uma repartição de finanças, de baixa médica, morador no prédio em frente, escutou “umas vozes” e como andava desconfiado de há muito tempo “não se falar numa onda de assaltos”, aproximou-se da janela para observar um “gatuno a pegar fogo ao corpo de uma mulher e depois a mandá-la janela fora”. Imediatamente avisou a polícia da ocorrência, cujo “inexplicável atraso” o deixou “muito indignado”. Carolina Piteira, 62 anos, viúva médium, que mora no andar de cima, tinha acabado de despedir-se do marido, que lhe anunciara o regresso de nossa senhora à terra para celebrar a eternidade das almas (“mas só das boazinhas”). Ao fechar a janela viu “uma linda figura”, “toda iluminada”, a “descer do céu em grande velocidade”. “Fez uma péssima aterragem, infelizmente”, lamentou Carolina Piteira: “Não fosse o meu falecido Martinho avisar-me antes e teria pensado tratar-se de um demónio. A coitadinha ardeu que nem um pau de fósforo. Uma desgraça.” Examinadas no serviço móvel de urgências e cuidados intensivos, Vera São Roque e a sua filha Joana foram consideradas livres de perigo, mas não do susto que provocaram entre a vizinhança.