domingo, 7 de outubro de 2012

Platónov: a escavação


Alegres e enterrados: com Platónov regressamos à paródia macabra da ilusão soviética, às delícias e fantasias da grande arte literária.
No seu livro de ensaios “Menos que um” (1986), Joseph Brodsky diz que Nabokov “está para Platónov como um malabarista da corda bamba para um montanhista que tenha escalado o Evereste.” “Quando lemos Platonov, temos a sensação de que existe um absurdo constante e implacável que faz parte da linguagem, e de que, em cada enunciação, esse absurdo se aprofunda ainda mais (…) ele tendia para levar as suas palavras até a um fim lógico – isto é, absurdo, totalmente paralisante. Ao contrário de qualquer outro escritor russo antes ou depois dele, Platónov veio revelar o elemento auto-destrutivo, escatológico, contido na própria língua, e isto, por sua vez, tinha consequências altamente reveladoras para a escatologia revolucionária que a história lhe forneceria como tema.” “Ao contrário de Kafka, Joyce e Beckett, que narram tragédias bastante naturais dos seus alter egos, Platonov fala de uma nação que se tornou vítima da sua própria língua; ele conta a história dessa língua, que revela um mundo fictício e se torna depois gramaticalmente dependente dele. Por causa disso, Platonov parece intraduzível.”
António Pescada desenterra Platónov da sua russa intraduzibilidade e fá-lo com a eloquência de um português estonteante. Não estou habilitado para tecer considerações sobre o que a tradução preserva ou não do segundo e último romance do escritor soviético Andrei Platonov (1899-1951), mas a sua leitura é a experiência mais alucinante daquilo que posso conceber como universo romanesco, talvez porque a língua portuguesa também permita essa auto-destruição a que Brodsky alude. As personagens pavoneiam-se com um jargão revolucionário que tortura e finalmente destrói a própria ideia de linguagem, e são elas mesmas destroçadas pela mesma paisagem linguística que habitam.
O editor, na angústia de encontrar um género onde enfiar esta “escavação” linguística que é o universo literário de Platónov, acena com o romance distópico e propõe uma parceria com “Nós” de Zamiatine e “Mil novecentos e oitenta e quatro” de Orwell. A propósito de “A escavação” (1930), mas também de “Tchevengur” (o seu primeiro romance), disse o mesmo Brodsky que “estes dois livros são indescritíveis. O poder de devastação que exercem sobre o seu tema excede de longe qualquer exigência de crítica social, e só pode ser medido por um padrão que tem muito pouco a ver com a literatura enquanto tal.”
A personagem volante do livro, Voschev (que acabará por se afundar num pântano em que as restantes personagens também sossobram) começa por ter a aparência de um Job, aqui na angústia do silêncio de um sentido para a revolução ou para a vida (ambas se tornam uma só, ou coisa nenhuma). Mas as suas imparáveis dúvidas e questionamentos depressa se transformam numa paródia existencialista. Voschev vive atormentado pelo absurdo dos fenómenos que se lhe deparam, mas é um filósofo corrido a tratos de polé pelo inclemente optimismo da revolução, que o faz trabalhar e deambular sem que se perceba que construção é aquela em que participa.
As restantes personagens correspondem ao desfiar do rosário da administração e do aparelho soviético num lugarejo inóspito, com os seus miseráveis operários, orfãos e camponeses a serem “deskulakizados” e “kolkhozificados” à força. É um rancho de gente desvairada pela fome, pela miséria e pela mais profunda ignorância do que anda a fazer, e que, no seu desespero e exaustão, tem ainda por cima “o dever da alegria”. “Desafio-o”, diz um socialista receoso do entusiasmo perdido entre os membros do Partido, “a participar na competição para uma maior felicidade do estado de espírito.”
O horizonte dessa felicidade reside numa construção que albergará os homens e mulheres do futuro. “A Escavação” (ed. Antígona) do título é o trabalho nas fundações desse edifício mirífico. E porque quanto maior o edifício, maior a felicidade e o entusiasmo, na pg. 83 o “presidente do conselho sindical da região” tem uma ideia luminosa: em vez de alargar a escavação inicial para quatro vezes mais, como mandou o “dirigente revolucionário da cidade”, exige ao engenheiro para aumentar seis vezes o tamanho, “para ter a certeza de satisfazer e de se adiantar à linha do Partido”!
Mesmo quando dorme, o corpo do proletariado disfarça mal tanta felicidade: “Eram todos magros como mortos; o apertado espaço entre a pele e os ossos de cada um deles era ocupado pelas veias, e atendendo à espessura das veias percebia-se a quantidade de sangue que elas deixariam passar durante o esforço do trabalho. (…) Voschev examinou o rosto daquele que dormia ali mais perto – para ver se exprimia a felicidade resignada de um homem satisfeito.”
Os trabalhadores, para além de não saberem o que fazer em tão colossal obra, estão cansados e mal nutridos, e têm ainda de enfrentar os formalismos burocráticos do aparelho. Reparem no processo de inscrição num “quadro de mobilização”: “Tchíklin começou a dizer-lhe os seus dados e, ao fim de uma hora, o activista tinha-o inscrito no quadro”.
Chegada a noite, nada pode perturbar “a propriedade socializada nem o silêncio da consciência colectiva”. E assim, uma das personagens pergunta a um cadáver se está aborrecido, enquanto ao outro deitado ao lado lhe pergunta se ainda pensa levantar-se! A vela pelos mortos arrasta-se pela noite: “Mesmo que toda a classe morra, eu ficarei a substituí-la, sozinho, e cumprirei todas as suas tarefas no mundo! De qualquer maneira não sei como viver só para mim!”
Enquanto isso outra personagem, “cujo coração pulsava em conformidade com a lei”, observa a migração antecipada das gralhas “para horizontes mais quentes”: “desejavam partir antes do tempo, a fim de passarem o Outono da organização kolkhoziana numa região ensolarada e regressarem depois para uma geral acalmia institucionalizada.”
Há um parágrafo assombroso sobre cavalos socializados pelo sentido kolkhoziano da vida; há um homem (ex-proprietário de um desses cavalos) tão magro que teme levantar voo, e a quem a mulher ata o samovar à barriga; há outro que estremece num caixão enquanto aguarda pela morte e que apenas se aquieta para “agradar às autoridades”; e há ainda uma mulher que morre às escondidas para que a sua filha não seja acusada de ser uma orfã da burguesia. “A Escavação” é menos a história da construção de um país do que da destruição do seu povo: “O homem contrói uma casa, mas destrói-se a si mesmo. Quem viverá então?”
(2011)

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