quarta-feira, 29 de agosto de 2012

John Newsinger: George Orwell


John Newsinger inicia o primeiro capítulo desta biografia política, originalmente publicada em 1999, com uma frase que se revelará edipiana: "Eric Blair foi um filho do Império". A vida de Eric Blair (1903-1950) e a obra do seu pseudónimo George Orwell foram uma caminhada até à extinção das colónias britânicas em que nasceu e cresceu.


Quanto às suas restantes lutas e opções políticas, perdeu ou enganou-se em todas. Só nos últimos anos o activista político se rendeu ao escritor, cuja grandiosidade se devia mais à imaginação do que às teias ideológicas em que se enredou.
O seu anti-imperialismo teve origem na Birmânia, onde nasceu e foi polícia (experiência que deu origem a "Os Dias da Birmânia" e a um dos seus mais belos ensaios, "Shooting an elephant"). É já na Europa que desenvolve uma versão politizada e comprometida daquilo a que hoje se chama "jornalismo literário", com Orwell a preferir o papel de agente infiltrado ao de repórter: "A ideia era escrever a partir de dentro, acerca do modo como vivem os pobres, mas tendo por alvo o público da classe média. Como seria de esperar, este projecto não estava isento de problemas; as suas incursões não passavam disso mesmo, raids temporários entre os sem-abrigo, efectuados por alguém tão distante nas suas origens e educação que mais parecia de outro mundo. Este exercício continha, inevitavelmente, uma dimensão colonial: Orwell andava a explorar o lado negro da Inglaterra (e de Paris), regressando depois à civilização com histórias exóticas para contar".
Esta técnica de recolher material a partir do interior da realidade abordada foi utilizada em "Na penúria em Paris e em Londres" (sobre mendigos e desempregados), "O caminho para Wigan Pier" (sobre os mineiros no norte de Inglaterra), "Homenagem à Catalunha" (tema a que haveria de voltar no ensaio "Recordando a guerra civil espanhola"). Acumula-se nele o anti-imperialista, o socialista, o socialista-revolucionário, anti-estalinista: "Tudo o que escrevi desde 1936 foi escrito, directa ou indirectamente, contra o totalitarismo e a favor do socialismo democrá-tico".
Com o surgimento da Segunda Guerra Mundial, vê a oportunidade de operar-se na Inglaterra a revolução socialista, mas aquele que sonhava em "construir um socialista sobre o esqueleto de um patriota empedernido", desenterra o patriota em si e abdica da revolução, que troca por um "trotskismo literário". "Como explicou Orwell o fracasso dos seus anseios revolucionários?", pergunta Newsinger. Na "carta de Londres" que assina para a revista norte-americana "Partisan Review", "faz um notável pedido de desculpas pelas suas 'muitas previsões erradas' (...) a ideia de que a guerra e a revolução era inseparáveis revelara-se 'um erro tremendo'".
Com a febre revolucionária a baixar, um analista mais ponderado sobreveio. "À medida que as esperanças de derrube revolucionário do capitalismo se desvaneciam", escreve Newsinger, "assim Orwell se afastava da ideologia revolucionária", sem abandonar a sua "hostilidade para com o comunismo soviético, uma brutal tirania mascarada de socialismo".
"A quinta dos animais" era uma sátira à revolução soviética "com um sentido mais amplo". Qualquer "revolução conspiratória violenta conduzida por gente inconscientemente faminta de poder" teria como resultado "a mera troca de amos"; com "Mil novecentos e oitenta e quatro" Orwell "conseguiu fixar, com enorme êxito, a sua particular e sinistra visão de um regime totalitário no imaginário popular". Mas "para grande surpresa dele, a obra foi largamente apreciada enquanto ataque ao socialismo em si mesmo". Orwell vê-se na obrigação de defender o livro contra os seus... defensores de direita! Tal como as crianças que, na fase edipiana, não dominam o pai e entram na fase de latência, seria Orwell "um conservador latente"?
Newsinger, historiador socialista, pretende encaminhar o seu leitor para outra questão. A recusa da esquerda em reconhecer o que se passava na Rússia estalinista permitiu o uso de "Mil novecentos e oitenta e quatro" contra a própria ideia de socialismo. O estalinismo "levou os melhores e mais corajosos intelectuais, activistas e militantes socialistas a fazerem a apologia de uma ditadura criminosa, talhando a respectiva actividade política à medida dos interesses da política externa e das ambições imperiais dessa ditadura, e fazendo da desonestidade política um modo de vida para os que mantiveram o mesmo rumo. Os danos que esta atitude infligiu à causa socialista são incalculáveis." O seu maior erro foi não ter dado maior ênfase ao imaginário do poder, por oposição à análise política.

(2010)

Sem comentários:

Enviar um comentário